
É um carro pequeno, sem luxo e aparentemente desajeitado. Meio redondo, com um traseiro curto e muito plástico, o Nano tem 3,10 metros de comprimento — meio metro a menos que o Ford Ka. Mas o que mais chama a atenção na novidade que chega da Índia é seu preço fora do comum: apenas 100 mil rúpias ou, traduzindo, R$ 4.500. Com o Nano, a empresa indiana Tata Motors ultrapassa Ford e Volkswagen (que deve lançar só em 2010 um carro por cerca de R$ 6.000) e empurra a indústria automobilística para uma nova era.
O anúncio do lançamento do mais barato carro já produzido em série aconteceu na semana passada, durante o Salão do Automóvel de Délhi. Ratan Tata, dono da montadora e idealizador do projeto, disse que o Nano chega para realizar o sonho de milhares de famílias de uma crescente classe média indiana. Até agora, só de motocicleta essas famílias puderam se locomover a 100 km/h. Na Índia, 8 milhões de motocicletas são vendidas por ano e o segundo carro mais barato custa mais que o dobro de um Nano. A previsão é de que 250 mil unidades do Nano sejam produzidas até seu primeiro aniversário e, com o tempo, espera-se que a empresa fabrique 1 milhão de novos carros por ano.
E onde colocar tanto carro para rodar? Além do mercado asiático, Tata está de olho na África e na América Latina — e o Brasil está na mira. Através de uma parceria com a italiana Fiat, é possível que o Tata seja acessível ao consumidor brasileiro mais rápido do que se imagina. O Nano também se apresenta como um automóvel ecologicamente correto. De acordo com o fabricante, para rodar 100 km, o carro consome 5 litros de combustivel e produz 97 gramas de dióxido de carbono. A Tata Motors garante que, depois de investir cinco anos no desenvolvimento, o novo automóvel preenche os requisitos do padrão Euro IV e, assim, estaria credenciado para ingressar no mercado europeu.
Mas mesmo que o Nano polua bem menos do que os carros que circulam por aí hoje em dia, não há dúvidas de que o sucesso de vendas de carros dessa nova geração no Brasil virá junto com uma ameaça para a mobilidade em nossas grandes cidades. Nada contra o sonho de consumo da classe média, mas o fato é que em nossas ruas não cabe mais. Cabe ao poder público, isso sim, ficar atento às tendências, construir planos de médio prazo e, com antecedência, evitar o pior para todos. Como provavelmente isso não vai acontecer (ainda mais em ano eleitoral), o Nano e seus similares, na verdade, inauguram duas eras: uma para a indústria automobilística e uma para os nossos governantes, que terão de encarar “na marra” a questão da mobilidade.
Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 16/01/2008, às 17:16
Arquivado em: Carro/Automóvel, Moto, Transporte individual, Trânsito | Etiquetado: carro, Délhi, indústria automobilística, mais barato, motocicleta, nano, Política

