Voar por algumas moedas

R$ 0,30 chega a custar a viagem de avião para três pessoas da Alemanha para a Inglaterra. Isso mesmo: mais barato que um chiclete, trinta centavos. Não é sorteio, nem presente. A façanha de fazer um vôo internacional sair mais barato do que a passagem de um ônibus urbano está ao alcance de qualquer um que assine a newsletter de uma “companhia aérea barata”. Acontece que trinta centavos é o que os passageiros pagam; o planeta arca com o resto da conta que deveria ser cobrada.

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Atravessar fronteiras pelo ar em troca de algumas moedas é uma verdadeira tentação para quem quer viajar rápido e muito, gastando pouco. De executivos a turistas, ninguém quer perder essa boquinha. No ano passado, 48,4 milhões de pessoas viajaram pela RyanAir, outros 37,2 milhões pela EasyJet e 27,8 milhões pela AirBerlin – as três maiores neste nicho. Só para comparar, a tradicional Lufthansa ofereceu assento a 56,4 milhões de passageiros em 2007.

Alguém pode imaginar o perigo que deve ser voar quase de graça em sabe-se-lá qual aeronave. Ledo engano. Duas dessas companhias baratas figuram no topo do ranking das companhias que oferecem os vôos mais seguros. (A tabela considera os acidentes ocorridos nos últimos anos e, por isso, a TAM é a penúltima da lista, entre a Turkish Airlines e a Pakistan International Airlines.)

A verdade é que cresce em um ritmo avassalador o número de viagens das “low cost carriers”. London-Stansted é o terceiro maior aeroporto do Reino Unido. Em 1990, cerca de 2 mil pessoas viajaram diariamente por Stensted, que em 1942 não passava de uma pequena base de apoio aos ataques aéreos dos aliados na Segunda Guerra. Agora, o número diário de passageiros gira em torno de 25 mil. O aeroporto ocupa uma área duas vezes maior que a cidadezinha de 5 mil habitantes de onde veio seu nome. E já está pequeno.

Para acomodar melhor os 23,8 milhões de passageiros que pousam ou decolam em Stensted, uma segunda pista está em planejamento. E a oposição a esse insustentável modo de transporte e de negócio está em atividade (veja que pôster bacana!). Querem preservar um mínimo de silêncio e tranquilidade que ainda existem nas redondezas do aeroporto e, ao mesmo tempo, alertar para a adicional queima de querosene que viria com um aeroporto maior. Não me espantaria se algum representante dessas companhias baratas já tenha dito por aí algo na linha: “Enquanto vocês se encantam com a discussão de como reduzir as emissões de carbono na atmosfera, nós fazemos lucro desse jeito…”

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 07/02/2008, às 14:26

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