Termina neste final de semana, em Berlim, a exposição “Reinício: Mobilidade sem Petróleo?”*. Quer dizer, a exposição desocupa um andar do Museu Nacional de Tecnologia, mas lança de vez o debate sobre um tema que mobiliza incontáveis organizações, repartições do governo e cidadãos em geral.
Patrocinada pela indústria automobilística, o evento lembra que o automóvel surgiu em meio ao desejo futurista de mais velocidade e a estudos de anatomia que dissecaram cavalos na busca de entender como seria possível locomover-se tão rápido. Até os anos sessenta, a trajetória de entusiasmo com o novo invento não encontrou grandes obstáculos. Mas, com o passar do tempo, as vozes críticas com relação ao automóvel ganharam força e se tornou bastante claro o paradoxo entre automóvel e meio ambiente.
Qual será o novo padrão de mobilidade do século 21? O que virá depois dos derivados de petróleo? Se, por um lado, é presunção demais querer ditar como será o futuro, por outro lado, é bastante razoável afirmar que, se a quantidade de automóveis continuar a crescer desse jeito no planeta inteiro, chegaremos logo mais ao limite. Faltará energia e espaço para tanto carro.
Como bem sabemos, São Paulo ruma firmemente nesta direção. Prova disso são os recordes de lentidão e de congestionamento, quebrados quase diariamente. Alguns poderiam argumentar que o cenário de “um carro por pessoa” pelo menos seria mais justo do que a situação atual, em que carro ainda é bem de luxo para muitos. Eu discordo. As reservas de petróleo não darão conta da sede da China e da Índia pelo recurso energético, além de tudo o que o mundo já consome. Com o preço do petróleo em alta (e tendendo a subir ainda mais), o acesso às viagens motorizadas continuará a ser distribuído desigualmente na sociedade e os mais pobres — mesmo que possuam o veículo — terão dificuldade crescente em pô-lo em movimento. Junto com o automóvel, comprarão uma falsa idéia de liberdade.
Antevendo esse beco sem saída, muita gente entende que a “hora da virada” se aproxima. A indústria aposta em protótipos com melhor aerodinâmica, mais leves, mais eficientes no uso de energia, que utilizam energias alternativas… A Volkswagen, por exemplo, já faz propaganda do EcoRacer. Pesando 850 kg — o que o qualifica como um “peso-pena” em comparação a outros modelos –, o EcoRacer faz cerca de 30 km por litro.
Esses investimentos são direcionados um público que não irá abandonar tão cedo um sonho de consumo transmitido entre gerações. Consumidores estão cada vez mais cientes da contribuição dos automóveis para o aquecimento global, mas não se esquecem tão facilmente da utilidade ou do prazer que um carro pode oferecer. Produtos como a “bicicleta híbrida” ainda são vistos com certa cautela.
Não chega a causar surpresa que o grande destaque do Salão Internacional do Automóvel de Genebra (que, aliás, também termina neste final de semana) não é um típico carro esportivo, mas o compacto indiano Tata Nano. Por tudo isso, continua difícil falar no futuro da mobilidade. Entretanto, eu arriscaria dizer que o futuro próximo não será da mobilidade sem petróleo, mas da mobilidade com bem menos petróleo. O que não deixa de ser perigoso social e ambientalmente.
* Site da exposição “Reinício: Mobilidade sem Petróleo?”
Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 13/03/2008, às 14:47
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