
O Ministério do Meio Ambiente publicou na semana passada uma relação dos carros mais poluentes vendidos no Brasil. 250 modelos ano 2008 receberam uma nota verde (com base nas emissões de monóxido de carbono, hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio) e uma nota para a emissão de gás carbônico. Ambas são apresentadas em uma escala de zero a dez, como na escola. Consumidores conscientes têm, além do preço e das informações (às vezes bastante suspeitas) fornecidas pelos fabricantes, as duas notas divulgadas pelo Estado para considerar na hora de avaliar um veículo.
Como todo ranking, a lista do Ministério também é uma simplificação e, portanto, deve ser lida com cuidado. Poderíamos discutir aqui a metodologia utilizada para o cálculo da Nota Verde e questionar por que quesitos ficaram de fora dessa lista. No jornal de domingo e em seu blog, Marcelo Leite aponta que a relação não considera o ciclo completo do CO2 na natureza. Ele faz coro com especialistas que dizem que o mais correto seria diferenciar o CO2 emitido do carro a álcool do CO2 produzido pela queima de combustíveis fósseis. Mas o fato é que, mais de meio século após o primeiro automóvel ter saído de uma fábrica no Brasil, foi dado o primeiro passo e o debate lançado. Na verdade, um primeiro passo que até poderia ser considerado tímido, mas sempre em frente…
Na Alemanha – país que concentra as matrizes de Volkswagen, BMW, Mercedes-Benz, Porsche – essa lista existe desde 1989, quando os produtores ainda mal sabiam quanto os carros emitiam. A série histórica dessa lista mostra que os dez carros mais verdes da Alemanha emitiam 114 gramas de CO2 por quilômetro rodado em 2006. Hoje, os dez do topo da lista emitem em média 100 gramas.
Responsável pelo ranking é a organização não-governamental VCD, que teve de enfrentar não só a severa relutância de fabricantes em fornecer informações, como também a oposição de ecologistas, que viam mais males do que bens com a publicação da lista. Mas a lista começou a ser divulgada todo ano e os métodos de aferição do “balanço ambiental” foram aperfeiçoados, à medida que a ciência trazia novas descobertas sobre o impacto dos automóveis na natureza e no ser humano.
A pontuação final resulta da combinação de quatro critérios, combinados com pesos diferentes. Um dos critérios avaliados pela VCD é o nível de ruído emitido pelos automóveis – aspecto ainda não incorporado no Brasil. “Do ponto de vista estatístico, morrem mais alemães em consequência da poluição sonora gerada pelo tráfego do que em acidentes de trânsito em cidades”, justifica Axel Friedrich, ex-diretor do Umweltbundesamt, equivalente a um Ibama alemão.
Hoje até representantes do alto escalão da indústria dão depoimentos favoráveis à lista. A Volkswagen, por exemplo, soltou uma nota à imprensa comemorando resultados (nem tão bons assim) de seus produtos exatos dezoito minutos depois de a VCD divulgar o próprio ranking. Já no Brasil, a indústria automobilística pede cautela. Declarou um representante da Anfavea à Folha de S. Paulo: “Seria mais adequado aguardar”. Cinquenta e três anos já passaram e querem só mais um instantinho? Será que o planeta pode esperar? Quanto mais querem faturar e empurrar com a barriga a questão ambiental? Lista sim e lista já!
Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 24/09/2009, às 17:15
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