Caminhões aqui não

25 10 2007

Há quem pense que os caminhões são os grandes vilões do trânsito na cidade. Suponho que este seja o pensamento principalmente de quem está cansado de ver a entrega de refrigerante acontecer bem na hora do rush, em alguma esquina movimentada. Mas os caminhões têm mesmo culpa no cartório?

Fiz essa pergunta na semana passada ao diretor de operações da Companhia de Engenharia de Tráfego, Adauto Martinez Filho. Ele confirmou que esses veículos contribuem, de fato, para boa parte dos engarrafamentos nas Marginais e no minianel viário. Mas incomodam também importantes ruas localizadas sobretudo nas zonas oeste e sul da cidade.

Por isso e para a felicidade dos motoristas de automóvel, uma nova medida entra em vigor no mês que vem. Das dez da manhã às oito da noite nos dias úteis, caminhões com mais de 6,30 m de comprimento ficam proibidos de passar por Pinheiros, Itaim Bibi, Paraíso, Consolação, Cerqueira César, entre outros bairros da chamada “Zona de Máxima Restrição à Circulação”. Nos sábados, a proibição vale das 10 às 14 horas.

Algumas vias dentro da zona de máxima restrição terão ainda mais restrições. Na Nove de Julho, na Rebouças e na Paulista, nem mesmo caminhonetes e vans que fazem entregas devem ser vistas naqueles horários. São avenidas com restrição mais-que-máxima.

A partir de novembro, poderemos ver se o tráfego melhorou, se os comerciantes irão reclamar, se a medida vai pegar. Até lá, saudemos tudo o que vem para tentar disciplinar melhor o trânsito na cidade, terreno em que o poder público ainda tem muito por fazer.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 25/10/2007, às 09:21





E POD?

18 10 2007

Mês passado recebi cartinha do Metrô. Era o aviso de que, em breve, seríamos entrevistados para a Pesquisa Origem-Destino. Realizada a cada dez anos, a POD é o melhor diagnóstico da mobilidade na Região Metropolitana de São Paulo que conheço e tem sido uma das principais fontes de dados para planos de transporte. (Se esses planos saem do papel ou não, aí já são outros quinhentos…)

Eu, que nunca abri a porta para o Ibope e desconfiava das pesquisas de opinião para a prefeitura da cidade, até que fiquei feliz ao saber que participaria da OD 2007. Dias depois, o Danilo telefona e agenda a entrevista. Conversa marcada com todos os moradores da casa para uma sexta-feira às 9 horas da manhã. Sobrou até para minha irmã, que estava apenas de passagem por São Paulo.

Além de dados pessoais, o pesquisador queria saber pormenorizadamente todas as viagens que fizemos no dia anterior. Para onde fui, quando parti, quando voltei, como cheguei lá. Durante a semana inteira havia seguido certa rotina. Mas exatamente aquela quinta-feira, véspera da entrevista, havia sido um dia bastante excepcional para mim. Fui a um shopping center e a um supermercado no começo da tarde, tive de correr até a farmácia à noite. Tudo isso foi registrado. Do meu pacato cotidiano, o Danilo não quis nem ouvir.

Claro que fiquei pensando no viés que a pesquisa poderia carregar consigo. Apesar da pulga atrás da orelha, acredito que, no final das contas, a POD trará um retrato atualizado e fiel de como anda São Paulo. A nova edição do levantamento responderá em que medida a proporção de viagens feitas por meios individuais é maior que a de meios coletivos e como vai a relação entre renda familiar e mobilidade. São dados fundamentais para conceber e administrar políticas de transporte mais eqüitativas em nossa metrópole.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 18/10/2007, às 09:02





Contra furtos, as placas PET

11 10 2007
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Olhe só que número impressionante: o Brasil joga fora a cada ano 4.700.000.000 garrafas PET, como essas de refrigerante. Isso mesmo: 4,7 bilhões de garrafas vão parar em lixões, boiar em nossas águas ou entupir bocas-de-lobo. Apesar de ambientalistas apontarem a redução do consumo como a melhor saída, a reciclagem deste material é a solução que uma indústria catarinense de placas adotou para conciliar preocupação socioambiental com redução dos índices de furto.

A Sinasc compra as garrafas de cooperativas de catadores. Reprocessadas, 30 garrafas de refrigerante se transformam em um metro quadrado de placa. O material não-metálico custa 30% menos do que o similar de alumínio. Também ganha em durabilidade de seus concorrentes ferrosos, já que está menos sujeito à oxidação. Promovendo essa sinalização alternativa, a empresa caminha para obter a certificação ISO 14000.

De acordo com o gerente de marketing e desenvolvimento, Rodrigo Colleone, as placas PET ainda representam pequena parcela do faturamento e menos de 10% do volume vendido pela Sinasc. “Ainda há muita resistência por parte das prefeituras”, diz. Apesar disso, a demanda cresce e o produto já está presente em Florianópolis e em fase de teste pelas autoridades de Curitiba.

A mais recente boa notícia que chegou para a Sinasc é que seu produto exclusivo pode, desde o mês passado, orientar motoristas, pedestres e ciclistas no Rio de Janeiro. A companhia de engenharia de tráfego carioca, que chegou ao cúmulo de registrar o furto de uma placa a 5,5m do solo em menos de 20 minutos depois de sua instalação, decidiu que aceitará as placas PET na cidade maravilhosa.


A imagem da placa aí em cima me foi enviada por André Pasqualini, cicloativista envolvido na organização da Bicicletada do Dia das Crianças, programada para amanhã mesmo, dia 12. “Garanto que será tão interessante quanto o dia sem carro”, afirma André.Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 11/10/2007, às 16:53





Mais um pouco sobre o pedágio

9 10 2007

Bem que eu avisei da polêmica que é esse tal de pedágio urbano. O Jorge comentou aqui no blog: “Vocês já não acham que está na hora de parar de discutir aumentos de taxas/impostos e sim cobrarmos do governo quando vamos receber pelos impostos e taxas que pagamos?”

Minha resposta saiu na forma de artigo, publicado na edição de hoje do jornal Valor Econômico. Nele, procuro esclarecer que o pedágio urbano é um tributo que faz o motorista mais consciente dos custos que cada uma de suas viagens de automóvel provocam na cidade. Principalmente o custo que a perda de tempo em congestionamentos representa, apesar de a cobrança poder servir para limpar um pouco o ar das cidades, como em Estocolmo. É dificílimo mandar a conta dos congestionamentos ao motorista por meio de outros impostos. Agora, havendo o pedágio urbano, acho que até se poderia discutir compensações em outros tributos…

Mas o Jorge tem razão ao reclamar de nossa passividade. Hoje passei em frente a um muro, no qual algum grafiteiro escreveu “Brasil, o lugar onde ninguém reivindica nada”. A precariedade do transporte público em grande parte de nossas cidades revela esse nosso comodismo. Que, de vez em quando, extravazamos em forma de ônibus queimados e raríssimas vezes em esforços e contribuições positivas para que o governo melhore os serviços financiados e utilizados por todos nós.

(Prometo que o próximo post será sobre outro assunto, ok?)

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 09/10/2007, às 23:10