Quem é verde põe o dedo aqui

20 12 2007

Falar hoje em sustentabilidade é fácil — ou, pelo menos, é bem mais comum do que há trinta anos. Mas ainda émuito complicado tirar algo sustentável do discurso e pôr em prática. No centro desta dificuldade está o transporte de pessoas. Pelo menos, é o que se conclui a partir de uma leitura da imprensa alemã.

Reportagem do jornal Frankfurter Rundschau destaca que o projeto internacional de redução das emissões de dióxido de carbono pode emperrar na Alemanha. Motivo: a chanceler Angela Merkel já se manifestou contra a política que prejudicaria a indústria automobilística. A justificativa oficial é que a Comissão Européia apresentou novos (e mais exigentes) patamares de redução de poluentes. O governo alemão justifica que a indústria não conseguiria atingir os patamares propostos (no máximo 120 gramas por quilômetro rodado em 2012).

O ministro do Meio Ambiente até tentou tirar a coloração verde do debate. “As diretrizes propostas pela União Européia não têm nada a ver com a redução da emissão de CO2. Trata-se de uma querela comercial contra as montadoras nacionais”, disse o ministro na televisão. Já a líder do Partido Verde, Renate Künast, aproveitou a oportunidade para criticar duramente Merkel. Nas palavras de Künast, Merkel não passa de uma vira-casaca, um fantoche do lobby das montadoras, um obstáculo ao aumento dos impostos aos carros e não tem a menor vontade de mudar o limite de velocidade nas estradas alemãs.

Essa história me provoca, por três motivos. Primeiro, demonstra que mobilidade deve continuar sendo um dos temas quentes para quem quer pensar um planeta, um país, uma cidade sustentável. Sensacional!

Segundo ponto: o fato de tudo isso acontecer na Alemanha é bem significativo. Mostra que uma sociedade pode entrar e se aprofundar no debate sobre sustentabilidade, sem se enjoar dele. Os alemães são famosos por terem três, às vezes quatro, lixeiras na cozinha. Separam papel, de restos de comida, de embalagens e de “outros”. 5% da área cultivável do país já é destinada a produtos orgânicos e essa parcela deve crescer. Agora, estão na onda de construir casas que não consomem tanta energia. E nem por isso estão se furtando da discussão sobre os automóveis… A questão da sustentabilidade é a número 2 no ranking de grandes preocupações na Alemanha, atrás apenas do desemprego. No Brasil, estas idéias vão ganhando força e mobilizando esforços. Espera-se que o debate sobre sustentabilidade e sobre mobilidade se manifeste como um ciclo virtuoso, assim como em outros países.

E também muito importante: temos cada vez mais chances de repensar o significado de sustentabilidade. Atualmente, sustentabilidade virou uma bandeira de todo mundo. Atravessa o discurso da maioria dos partidos políticos, de empresas, uma infinidade de ONGs, etc. Mas o fato de ninguém ser “contra” a sustentabilidade não traz só vantagens. O debate veio à tona, mas talvez o genuíno sentido da sustentabilidade tenha se perdido no meio desse emaranhado. Como vimos, a indústria automobilística fala em sustentabilidade, a União Européia tem políticas para isso, os verdes e os conservadores se pronunciam preocupados com o meio ambiente… e, no entanto, não há acordo. Afinal, quem é verde? Questionar quem, na política e na sociedade, luta de fato pela sustentabilidade ou refletir até que ponto se pode ser sustentável é excelente. Esclarece, desmitifica.

Sei que falar de política nesta época do ano não é o ideal. Mas, nesses tempos propícios para reflexão, até que é bom colocar os pingos nos Is (e os tremas sobre os Us, enquanto os tremas ainda existem…). Um feliz Natal a tod@s!

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 20/12/2007, às 19:59





Qual é o limite?

13 12 2007
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No painel de um carro 1.0, o último número do velocímetro é 200 km/h. Não sou engenheiro, não sei se o carro chega até lá. Mas talvez com uma ajudinha de uma ladeira e na ausência de radares e de guardas, seja possível “voar” a 160km/h ou coisa parecida. O lugar ideal para uma pessoa comum – e não um técnico industrial – fazer este teste parece ser uma Autobahn. Nessas rodovias alemãs, é comum que os motoristas não tenham que observar qualquer limite oficial de velocidade. A Alemanha é talvez o único país do mundo onde se pode acelerar à vontade; o único limite é o motor do carro.
Por trás disso, há uma engenharia e uma política. A engenharia construiu traçados retos, com curvas suaves. Muros que às vezes chegam a 10 metros de altura protegem as regioes lindeiras do permanente ruído dos automóveis. Por segurança, pedestres e ciclistas sao mantidos longe de estradas desta categoria. E aí está o caráter político, contestado por grupos da sociedade civil e pelos ambientalistas do Greenpeace, por exemplo. Estes lutam para que, em todas as Autobahnen vigore um limite de velocidade, como nas estradas brasileiras. Afirma o movimento ambientalista que se o máximo permitido fosse 120 km/h o total de dióxido de carbono emitido pelos veículos que circulam por essas artérias diminuiria em 9%.

A contrapartida da “farra das altas velocidades” nas autoestradas é o respeitadíssimo limite imposto nos redutos residenciais e em outras áreas relativamente homogêneas dentro das cidades. Quem sai da auto-escola sabe muito bem o que é uma “Zona 30”. Dentro desses bolsões, quase não há semáforos e os motoristas não precisam ser avisados sobre a circulação de ciclistas. O artigo da Wikipedia sobre este assunto informa que a cidade de Graz, na Áustria, fez este limite valer largamente. Exceto nas principais ruas, a velocidade máxima permitida sempre é 30 km/h. Graz é uma “cidade 30”.

São Paulo seria também uma cidade 30, se dependesse da vontade do engenheiro Eric Ferreira. Mas com uma dose extra de radicalismo (ou de bom senso). Para ele não deveria haver exceção. Em todas as vias da cidade – da Radial Leste à Estrada do M´Boi Mirim – automóveis particulares deveriam andar no máximo em segunda marcha. O diretor de mobilidade do Instituto de Energia e Meio Ambiente explica por quê: “Até 30 km/h, a probabilidade de acidentes é muito baixa. Se um pedestre ou ciclista for atropelado, a probabilidade de ele vir a óbito é entre 5% e 7%. Quando o carro atinge alguém a 50 km/h, a probabilidade de alguém morrer passa de 80%.” Resumindo: Velocidade baixa, saúde e segurança em alta.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 13/12/2007, às 20:21





Corre, que a gasolina vai aumentar

6 12 2007

A família reunida sentava-se apreensiva à frente da televisão. Pontualmente às oito horas começava o telejornal com a música de sempre. Em geral, era o Cid Moreira quem aparecia logo depois da vinheta. E de repente vinha o anúncio do aumento do preço dos combustíveis a partir da manhã do dia seguinte. Os anos oitenta se passaram, mas ainda me é fresca a lembrança de meu avô saindo correndo até o posto de gasolina mais próximo para encher o tanque nos tempos de alta inflação no Brasil.

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Vinte anos depois, sem a descontrolada inflação e sem o Cid Moreira à frente do Jornal Nacional, o preço do barril de petróleo assusta e leva os motoristas a esgotar os estoques de alguns postos de combustível. Pelo menos é o que está acontecendo na Alemanha, informa reportagem do Spiegel Online. Se o litro da gasolina baixa de € 1,40 a € 1,36, filas de automóveis se formam e, em algumas cidades, o produto desaparece.

Mas além do encarecimento da gasolina, outras notícias ruins buzinam no ouvido do motorista alemão nesta época de Natal. O preço da inspeção veicular obrigatória deve subir entre 6,5% e 12%. Isso sem falar nas multas para quem, por exemplo, encosta na traseira do carro da frente em alguma estrada: fazer este tipo de “pressão” custará 400 euros. O reajuste do valor de diversas outras multas também está sendo revisto.

E por fim: cresce o cerco aos veículos mais poluidores. Diversas cidades planejam proibir o acesso dos carros menos eficientes a seus centros. A começar por Berlim e Colônia. A partir do reveillón, somente terão direito de acessar a área central os carros com “etiquetas ambientais”, que informam quanto material particulado é produzido pela combustão. O mesmo valerá em breve para várias outras cidades de grande porte, como Munique e Stuttgart, entre outras.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 06/12/2007, às 19:10