Ao trabalho? Vá de bike!

30 04 2008

O Pra lá e pra cá aproveita a ocasião do Dia do Trabalho para perguntar: seu trajeto de todos os dias até o local de trabalho é feito de modo sustentável? O jornalista e cicloativista Leandro Valverdes, de 30 anos, conta um pouco de sua experiência como ciclista em São Paulo, explica por que a bicicleta é, além de mais sustentável, mais humana que o automóvel e ainda ressalta: para abandonar a dependência ao automóvel e começar a pedalar, ninguém precisa do preparo físico de um atleta.

Você pedala de fato vinte quilômetros por dia até chegar ao trabalho e outros vinte para voltar para casa?
Para ser mais exato, a média de cada trecho (de casa para o trabalho e vice-versa) é 18 km. Depende um pouco do caminho escolhido, mas na maior parte das vezes eu opto pelo caminho mais longo. Tal escolha só é possível, porque um ciclista sabe exatamente o tempo que levará entre um ponto da cidade e outro. E isso nenhum motorista paulistano consegue fazer! Sem pressa alguma e sem ser um atleta, mantém-se uma média de 17 km/h, que é semelhante senão superior à velocidade de um veículo motorizado na cidade. Eu procuro fazer meu trajeto por ruas dentro dos bairros, mesmo que o preço dessa escolha seja um número maior de ladeiras.

Como seus colegas de trabalho reagem a essa “aventura”?
A reação tende a ser uma mistura de incredulidade, admiração e curiosidade. Nos últimos tempos, com as sucessivas quebras de recordes de congestionamento em São Paulo – que, sem usar nenhuma dose de futurologia, serão batidos outras tantas vezes nos próximos meses –, eu tenho ouvido frases como “que inveja, você não fica parado neste trânsito”. Inveja em muitos casos injustificável, já que ao preço de talvez uns cinco tanques de combustível, eles poderiam comprar uma bicicleta e usá-la para ir ao serviço, nem que fosse uma vez por semana. Já há até um dia ideal para se fazer isso: o do rodízio de veículos. Mas aí surgem as desculpas. A principal delas fala da ausência de vestiários no local do trabalho. Contra esta, tenho pouco argumentos para responder. Afinal, o que fazer se no prédio onde trabalhamos há até um heliponto, mas não há um vestiário para quem optar por chegar de bicicleta?

O que levou você a vender seu carro, três anos atrás?
Fui quebrando aos poucos a dependência que todos temos em relação ao automóvel. Antes de vender, eu já vinha restringindo bastante o uso. Em 2004, ano eleitoral, houve uma piora sensível nos congestionamentos. E o lançamento do Bilhete Único também foi um impulso para eu deixar mais o carro em casa. Chegava a fazer mais de quatro baldeações no período de duas horas permitido, tentando chegar com a mesma rapidez e aos mesmos lugares que o carro me levava. Às vezes, conseguia até equiparar esse tempo do automóvel, mas geralmente não. Mas utilizar ônibus era certamente mais barato e menos estressante. Aos poucos, passei a utilizar também a bicicleta para ir a determinados lugares, conforme a distância, horário, condições do tempo, se havia lugar para estacionar a bicicleta…

O começo dessa nova rotina exigiu muito preparo físico, muita habilidade para pedalar com segurança?
Uma coisa importante a ser desmistificada é que quem usa bicicleta como meio de transporte não precisa ser atleta e, muito menos, não precisa ter uma bicicleta cara, “de corrida”, último modelo. (Veja, por exemplo, a visão completamente equivocada de um “ciclista urbano” contida neste infográfico.)
Claro que no caso de quem pedala diariamente 40 quilômetros e daí para cima, é necessário ter um certo preparo físico. Mas isso se ganha com o tempo, assim como a habilidade para pedalar com segurança. Quem se sentir inseguro no começo poderá sempre contar com a colaboração e boa vontade de ciclistas mais experientes. Quem quiser pode mandar uma mensagem para o email da Bicicletada e ver quantas pessoas se oferecerão para ajudar nas primeiras pedaladas, dando dicas de segurança e indicando caminhos.

Ao andar de bicicleta, você se relaciona com a cidade de um jeito diferente?
Com certeza, não só com a cidade, mas principalmente com seus habitantes. A bicicleta humaniza o trânsito, meio em que as relações entre as pessoas estão o mais “desumanizadas” possível. O ritmo é outro. O ciclieta avança “quarteirão por quarteirão”, como costumamos dizer. Um semáforo verde um pouco mais distante é um sinal para se parar de pedalar e aproveitar a inércia da bicicleta, e não pisar no acelerador, como qualquer motorista faria.
E essa diferença, de um ritmo lento e constante, em oposição ao “acelera-e-pára” dos automóveis, possibilita uma percepção muito mais rica em detalhes do caminho que se está fazendo. Sobra tempo para se observar as peculiaridades de cada bairro, rua e até dos moradores. Quem pode dizer que conhece, diariamente, uma pessoa no trânsito? Um ciclista pode. Não há um dia em que não recebo e retribuo pelo menos dez cumprimentos nas ruas. Toda a solidariedade que falta entre os motoristas tem de sobra entre quem usa bicicleta.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 30/04/2008, às 17:15

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