Exclusão em movimento

22 05 2008

Na semana passada, reclamei do preço do metrô de São Paulo. Pela extensão da rede e pelo poder aquisitivo dos trabalhadores paulistas, o preço do bilhete é amargo mesmo. Mas faltou ver o lado bom do metrô de São Paulo. Apesar dos 3 milhões de passageiros diários, o metrô mantém a imagem do mais seguro, confortável e confiável meio de transporte de nossa metrópole. E merece.

Em comparação com terminais de ônibus, as estações do trem metropolitano ou mesmo garagens e estacionamentos de automóveis, as estações de metrô apresentam-se bem mais limpas e organizadas. O usuário costuma encontrar facilmente um funcionário para uma informação ou uma ajuda qualquer. Embora faltem elevadores em estações das linhas mais antigas, escadas rolantes são bem distribuídas e quebram um galho para muita gente. As composições devoram as distâncias entre as estações em velocidade de causar inveja em qualquer motorista durante o dia. Às vezes, as próprias estações (como a Alto do Ipiranga, uma das últimas a serem inauguradas) são respeitáveis exemplos de bom gosto arquitetônico. Até há pouco tempo, eu mesmo estaria dizendo que se há algo que funciona em São Paulo, é nosso metrô.

Na Europa Central, a realidade é outra: o transporte urbano sobre trilhos representa, na opinião de muitos, um lugar da segregação. Ao contrário das cidades brasileiras — onde a exclusão está demarcada territorialmente — os trens metropolitanos de Berlim ou Hamburgo (foto) se identificam com grupos de escolares e de jovens ouvindo MP3 em alto volume, com bêbados, com migrantes, com marginais, com desempregados e com todos aqueles que não têm alternativa no dia-a-dia. É comum ter de passar por túneis escuros e aguardar em plataformas estreitas pelos trens com janelas alvejadas por vândalos. Pessoas com deficiências e idosos são os que mais sofrem em estações construídas ao sabor de uma centenária salada de épocas e estilos.

Daí não ser surpresa saber que os meios públicos transportam apenas 8% dos alemães. A bicicleta responde por 9%. Aproximadamente 23% das viagens são feitas a pé. E os meios motorizados individuais respondem pelos 60% restantes. O automóvel é o meio de transporte favorito em Roma, em Londres e até na verde Copenhague.

Portanto: deve-se mesmo lamentar que o bilhete de metrô em São Paulo seja um dos mais caros do mundo. Por outro lado, não basta que o metrô seja barato e não basta que trilhos serpenteiem por toda a cidade. A conquista do espaço público por meios de transporte públicos passa também por uma queda-de-braço entre símbolos. Quase no mundo inteiro, o ícone do automóvel e de seu poder é ainda mais forte do que o discurso da mobilidade sustentável.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 22/05/2008, às 10:14

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