Crônica de uma viagem anunciada

21 03 2009

Ah, São Paulo querida! Poluída, congestionada, caótica, infernizante… e atraente como nenhuma outra. Falo isso não com a certeza de quem já comparou esta com todas as outras cidades desse mundo. Mas com o pressentimento de que aqui é o lugar. Como gosto dessa cidade!

Já quando estava embarcando, a 10 mil quilômetros de distância, não conseguia parar de pensar no que iria encontrar ou reencontrar. Bom, ainda no aeroporto, encontrei o de sempre: um grupo de engenheiros engomadinhos com seus laptops; crianças que reservam toda sua energia para chorar e berrar no avião; e algum sabe-tudo, que se põe a explicar qualquer coisa e que faz questão de que haja um bom público prestando atenção… Também encontrei ao meu lado um cara que roncava muito.

Mas e São Paulo? Como reencontraria a cidade? Como nunca fiquei tanto tempo longe do Brasil, pensei que dessa vez o reencontro me traria uma sensação estranha, uma saudade diferente. Pensei que o retorno seria tudo menos uma volta para casa. Seria uma mistura da doçura do “que bom te rever” com o amargo desapontamento a la “mas você continua tão igual”.

Para o tira-teima, resolvi andar por aí. Aliás, esse foi meu primeiro estranhamento. Nem me lembrava da última vez que pude simplesmente andar por aí. Nesses últimos dias, fui um pedestre exemplar nas ruas da Vila Mariana, da Saúde e de Moema. Respeitei todos os sinais vermelhos e os tempos para eles abrirem, engoli fumaça de caminhão e aguentei chuva e sol (mais sol do que chuva, para dizer a verdade).

E aí constatei que o diferente não era o número de carros nas ruas. Para mim, aliás, as ruas estavam mais calmas do que da última vez. Também não foi o ar poluído que me espantou. A grande diferença são as calçadas. Comparem-se a largura e o padrão das calçadas e nota-se a diferença. Como Gilberto Dimenstein costuma repetir ad eternum, a democracia de um país pode ser medida pela largura de suas calçadas. E é só quando eu, como pedestre, sou lançado ao meio da rua junto a veículos motorizados que penso: não estou mais no mesmo lugar. No quesito respeito aos pedestres, temos de admitir: São Paulo continua tão igual…

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Inspeção. É para comemorar?

9 03 2009

Cidades que fazem seus habitantes sofrer com a poluição do ar não têm muita alternativa: ou corta ou pelo menos controla as fontes de emissão. Há doze anos, o governo do Estado implantou o rodízio de veículos na cidade de São Paulo. No início, impopular. Hoje, absolutamente assimilado e praticamente inquestionado. O rodízio era uma medida do primeira categoria, que de repente tirou de circulação algo entre 15% e 20% da frota circulante por dia útil. Agora, vem a Prefeitura colocar em prática uma medida do segundo tipo: a inspeção veicular obrigatória.

“Inspeção” é uma reivindicação decenária dos paulistanos que se preocupam com os próprios pulmões. Todo mundo que quer viver um pouquinho mais deve atentar aos efeitos dos poluentes atmosféricos produzidos principalmente por veículos automotores. Quem duvida deveria dar uma olhadinha na manchete da “Folha de S. Paulo” de hoje. Por isso, a inspeção que agora sai do papel é uma notícia boa: quem não leva o carro para o exame não consegue o licenciamento no ano seguinte. E quem leva ajuda a si e a todo mundo que precisa respirar em São Paulo.

A má notícia é que a inspeção que começou a valer na cidade dona da monstruosa frota de 6,4 milhões de veículos é uma inspeção chocha, uma “inspebranda” – para parodiar a infeliz expressão publicada pela mesma “Folha de S. Paulo” ao se referir à ditadura militar brasileira. Para começar, carros fabricados antes de 2003 estão dispensados da análise. Estes veículos foram fabricados atendendo a padrões ambientais muito menos rigorosos, mas são tratados como se não poluíssem nada. Com isso, a prefeitura se livra de enfrentar o problema da ilegalidade (grande parte dos veículos mais antigos roda ilegalmente na cidade de São Paulo). Por outro lado, a inspeção deixa de ter o impacto positivo sobre a qualidade do ar que poderia ter. Mais ainda: com esse tratamento desigual, deixa de ter a credibilidade que era de se esperar de uma política pública.

Outro problema é a relativa pequena estrutura para uma gigante. A imprensa não perdeu a oportunidade de relatar a impaciência dos motoristas diante da demora para serem atendidos logo no primeiro dia de inspeção. Inicialmente, a concessionária do serviço havia previsto que ninguém teria de esperar mais que meia hora para ter seu veículo checado. Mas, na realidade, o chá de cadeira chegou a levar duas horas. São apenas quatro postos especializados, onde carros e motos são testados. Pelo contrato, deveriam ser 32, o que tornaria o atendimento mais ágil e a inspeção, mais ampla.

Mas, afinal, por que o número de centros de inspeção é só um oitavo do previsto? Resposta trazida pelo jornal “O Estado de S. Paulo”: porque, sozinha, a Controlar não tem pernas para todos os investimentos necessários. Parceiras da época da assinatura do contrato assinado com a prefeitura se afastaram, quando a concessão ficou sob júdice. Hoje, a única parceira da Controlar no projeto é a TUV Nord, responsável pela inspeção veicular em metade da Alemanha.

Ao abandono de outras companheiras (dentre as quais a onipresente Vega Sopave), somou-se a insegurança política. Afinal, sabe-se lá se o próximo prefeito é fã dessa idéia de inspeção, ainda mais quando a indústria automobilística faz lobby contra… O prefeito Gilberto Kassab tem interesse em fazer da inspeção veicular uma bandeira política do tipo Cidade Limpa 2. Por isso, o projeto saiu do papel. O prefeito também não se opôs em flexibilizar e comprimir a inspeção de forma que ela fosse possível, da perspectiva da operadora do serviço. “O prefeito Gilberto Kassab restringiu em apenas 41% a quantidade de veículos inspecionados. Então, não achamos necessário ter todos os 32 centros prontos neste ano”, afirmou o diretor-executivo da Controlar ao jornal. A notícia da inspeção é boa, mas mais uma vez mostra que, no final das contas, até para uma questão que envolve saúde pública, ficamos ao sabor do resultado do jogo entre prefeito e empresa.

Notícia realmente boa é a criação de um instituto de pesquisa especialmente voltado ao tema da poluição atmosférica. Liderado pelo professor Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da USP, o Instituto Nacional de Análise Integrada de Risco Ambiental atuará em rede inclusive com universidades norte-americanas para calcular os “custos futuros da poluição, principalmente aqueles que afetam a saúde humana”. Os automóveis, sem dúvida alguma, estarão na mira do doutor Saldiva, que dedicou sua carreira profissional aos efeitos dos óxidos de carbono, enxofre e companhia em seres humanos.


Ontem, atualizei dois posts publicados há pouco tempo. Você já leu sobre as bicicletas de Hamburgo? E sobre a sociedade do GPS? Ainda não? Agora é a chance!

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 05/03/2009, às 08:15