Secretário do Verde apoia motosserras na Marginal

30 06 2009

Enfim, o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente deu as caras. Publicou um artigo na Folha de S. Paulo de hoje (link aqui, só para assinantes). E, para minha surpresa e decepção, Eduardo Jorge defendeu a elminação de mais de 500 árvores na Marginal do Tietê e a transferência de umas outras tantas. As árvores darão espaço para novos 23 quilômetros de via.

É um texto com um bocado de boa retórica, muito contexto e pouca análise dos fatos em si. Tal análise pressuporia tornar públicas informações sobre o projeto e sobre as ações da administração municipal, o que ainda não vi acontecer.

1) O secretário situa a obra em um “horizonte de urgência” para evitar o caos na mobilidade. Evoca a importância do projeto da nova Marginal Tietê como parte de um sistema de obras viárias de importância metropolitana. (A conclusão do trecho sul do Rodoanel, que, do ponto de vista ambiental, é igualmente polêmica, também é citada pelo secretário.) Eu gostaria de saber do secretário do Verde o que é urgente do ponto de vista ecológico na cidade de São Paulo. Urgente deveria ser repensar o modelo rodoviarista da cidade, a começar justamente pelas zonas de várzea e margens de rios. Urgente deveria ser montar uma estratégia bem sucedida para melhorar e ampliar o transporte público e não-motorizado na cidade. Urgente seria avaliar as ações da prefeitura no terreno da mobilidade urbana e fazer um balanço sensato: a gestão Kassab está colocando São Paulo nos trilhos de uma cidade mais sustentável do ponto de vista da mobilidade? Esta é a questão.

2) O secretário se diz crítico à “opção rodoviarista que foi feita pelo país no século passado”. Mas hoje, quais os sinais que o poder público (por exemplo, o poder público municipal, do qual Eduardo Jorge faz parte) dá para reverter esse modelo? Será que não continuamos aprisionados naquele modelo? Afinal. o que São Paulo está fazendo de diferente?

3) “Quais os principais impactos negativos dessa obra?”, pergunta-se o secretário. Eu acho que a resposta deveria vir com os dados de um sério estudo de impacto ambiental. Seria só a adicional impermeabilização do solo? Teremos maior frequência ou gravidade das enchentes na região? A diminuição da poluição atmosférica é algo garantido ou os ganhos com o aumento da fluidez serão abocanhados pelo fluxo maior de veículos esperado com a ampliação da pista?

4) Como medida compensatória, São Paulo ganharia “o maior parque linear do mundo”, de Ermelino Matarazzo a Salesópolis. Está aí uma medida que, no fundo, nem deveria ser compensatória, já que Sâo Paulo parte de uma cinzenta realidade onde as escassas áreas verdes são artigo de luxo.

O corte de árvores e a impermeabilização de mais uma porção de terra (afinal, qual o tamanho da área a ser impermeabilizada?) seriam medidas consideradas absurdas provavelmente em qualquer governo que trate o meio ambiente como um assunto sério e urgente. Em Hamburgo, por exemplo, as áreas verdes são quase intocáveis, quase sagradas. Em São Paulo, o governo também deveria provar a si mesmo e à sociedade não haver alternativa antes de pegar na motosserra.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 29/06/2009, às 06:46

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