A nova economia de São Paulo

3 07 2009

Como todo mundo sabe, com a dobradinha crise financeira/eleição do Obama nos Estados Unidos, a era da economia ditada pelos leves, livres e soltos mercados financeiros está no fim. Em São Paulo, é até capaz que ela já tenha acabado e a gente nem percebeu. Tanto é que o discurso “coração econômico da América Latina” já está ficando para o passado. Ou quem é que acredita ainda no papo de São Paulo como candidata a cidade global? Muito mais importante é o aqui-agora da metrópole. Por isso, publico aqui meus até então secretos rascunhos de uma utopia: a utopia da economia do vai-e-vem.

Essa nova economia se assenta em escala local e regional e, ao contrário da outra, tem base em uma realidade bastante concreta, palpável a qualquer cidadão. Tem seus alicerces na escassez de espaço físico e na limitada capacidade de deslocamento de bens e pessoas – fato incontestável sobretudo a partir dos quase 300 quilômetros de congestionamento registrados pela CET no mês passado. Tem uma dinâmica bem diferente da “velha economia”, que havia sido revolucionada pela internet. Os small talks em Wall Street e os burburinhos entre gente de negócios perdem importância. Essencial é saber quem e como se pode, agora e efetivamente, realizar determinado movimento (por exemplo, a entrega de um produto, a ida para uma reunião) dentro de um intervalo de tempo. E principalmente: é inteligente realizar essa entrega ou essa reunião nesse momento? Elas são realmente necessárias?

Em outras palavras, o capitalismo global do tipo cassino está com seus dias contados e sairá logo de cena; entra em cena o “capitalismo da mobilidade”. Nesse sistema econômico, cuja dinâmica gira em torno da mobilidade ou da imobilidade, entram em cena novos indicadores e outros perdem importância. Acompanhe aqui a dança dos índices do passado para o futuro.

Antes era o dólar, hoje é o tíquete de metrô que pode ser adquirido pelo preço oficial ou no mercado negro. De uns tempos para cá também tem seu preço cotado na versão “turismo”.

Acompanhar dia a dia a evolução do preço de ativos como o ouro fica para o passado. Queremos, agora, saber quanto custam, em tempo real, os combustíveis. Seus preços dependem das flutuações do preço do petróleo, do biodiesel, da energia elétrica, do hidrogênio ou seja lá o que for, dados seus estoques e as promissoras inovações tecnológicas no setor.

O índice de congestionamento fornecido a cada meia hora pela CET substitui o índice Bovespa. Aqui, até o jargão já se adaptou: sobe, desce, tendência de alta, tendência de baixa, média histórica, patamar psicológico…

Nessa nova economia, o bilhete único metropolitano (válido para os 39 municípios da Grande São Paulo) é a instituição que representaria, hoje, a OMC. A cidade que está dentro participa do intercâmbio, joga o jogo das vantagens comparativas do intercâmbio com os parceiros. Quem fica de fora se isola.

Já a ONU teria seu papel espelhado em uma agência metropolitana de planejamento e gestão. Uma estrutura difícil, que ainda está para ser arquitetada em São Paulo. (Aliás, do jeito que a coisa anda, até acho que um Conselho de Segurança nesta instituição não seria má idéia.)

Por fim, ninguém mais dará tanta importância para o humor do mercado financeiro. Relevante, agora, é aquela velha conversa de elevador em bom português no começo do expediente: “Ave, mas que trânsito insuportável na Radial!”

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 02/07/2009, às 17:20