Preparando os transportes para a Copa

15 05 2011

2014 já está aí. Pelo menos no tocante a todos os preparativos requeridos para que os torcedores de todas as seleções participantes consigam chegar aos estádios.

Copa do Mundo de Futebol é um evento esportivo e multicultural único. Para os transportes, significa também um desafio único. Será que estamos preparados para ele?

Li nesta semana um relatório com a análise de toda a gestão dos transportes feita durante a Copa de 2006, na Alemanha. Sim, aquela mesma em que o Brasil era favorito, mas que passou sufoco até mesmo nas partidas iniciais. Quem não se lembra dos momentos de sofrimento no primeiro tempo da partida contra o Japão e das maldosas estimativas do peso do Ronaldo Fenômeno?)

É verdade que a Copa na Alemanha não foi lá muito positiva para a seleção canarinho. Mas ela trouxe belos resultados para a organização dos transportes. Na verdade, esta foi concebida como a primeira copa sustentável da história. Coleta seletiva de lixo, captação de energia solar nos estádios e metas ambientais para diversos setores fizeram parte deste evento esportivo.

Com relação aos transportes, a FIFA impôs duas exigências. A primeira foi chamada de Green Goal. Pelo menos metade dos deslocamentos aos estádios deveria ser realizado com o transporte público. Assim, as emissões e os efeitos maléficos dos transportes sobre o clima poderiam ser reduzidos. Outra exigência consistiu em orientar as torcidas de diferentes times por rotas diferentes até os correspondentes setores dos estádios. Ou seja: foram colocadas à disposição linhas de ônibus exclusivas para cada uma das torcidas, bem como separados estacionamentos para automóveis e, claro, distintos acessos para os estádios.

Essas metas foram cumpridas. Para ver os 64 jogos da Copa de 2006, 57% dos torcedores foram aos estádios com transporte público. Metrô e trem tiveram um papel decisivo nesse meio de campo entre arenas e residências ou hoteis. Mas os números variam bastante de cidade-sede para cidade-sede. Nesse sentido, Berlim ganha de goleada contra Gelsenkirchen: só 9% das viagens ao Estádio Olímpico de Berlim foram feitas com meios motorizados particulares (como motocicleta ou automóvel). Já em Gelsenkirchen este percentual ficou em 52%. Essa diferença reflete muito a facilidade e o conforto de se chegar com um meio de transporte ou outro. Em Berlim, há uma estação de metrô que deixa as pessoas praticamente na porta do estádio.

A experiência alemã mostra ainda o quão importante é a internet para os deslocamentos dos torcedores. Mais da metade dos fãs e principalmente os torcedores estrangeiros usam a internet como fonte de informação para saber como chegar ao estádio. Outro item essencial é a disponibilização de informações eletrônicas nas ruas e outros dispositivos de informação e orientação.

A qualificação das cidades para a Copa do Mundo requer a concretização de muitos planos, com um grau de profissionalismo alto, em um espaço de tempo curto. Se a Copa brasileira vai ser bem sucedida ou não do ponto de vista do torcedor depende em boa medida desses preparativos. Mas a verdade é que a organização de uma boa Copa vai muito mais além do que a decisão sobre quem vai entrar no gramado e quem vai ficar de fora. Que o diga a Alemanha que, em 2006, também não conseguiu colocar as mãos na taça.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 18/04/2011, às 16:53

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Nenhum transporte é sustentável

15 05 2011

A verdade é que hoje não temos nenhum meio de transporte sustentável. Temos, isso sim, sistemas e infraestruturas de transporte poluidores, que contribuem para a mudança climática, que provoca acidentes e que dividem as cidades.

É dessa premissa fria e dura que partiu um grupo de pesquisadores da Sociedade Fraunhofer para escrever o estudo VIVER – Visão para um transporte sustentável na Alemanha, divulgado nesta semana. A Frauenhofer é uma das maiores e mais respeitadas instituições de pesquisa e desenvolvimento da Europa. VIVER apresenta um transporte de pessoas nas cidades bastante diferente do que conhecemos.

Principais resultados desse trabalho que envolveu engenheiros, economistas, planejadores urbanos e de transportes e psicólogos: São necessárias algumas mudanças radicais nos transportes para que se possa falar em sustentabilidade. E a juventude será protagonista desta mudança fundamental no modo como nos deslocamos.

Na verdade, essa mudança começou a acontecer. Quem nasceu depois de 1980 – dizem os autores – já vê o automóvel de outro jeito: não mais como símbolo de liberdade e sucesso, mas como apenas uma opção de transporte entre tantas outras. E uma opção ligeiramente diferente da que conhecemos hoje em dia. As inovações que vêm no rastro da escassez dos combustíveis fósseis tornarão o automóvel muito mais eficiente. Dominarão a cena em 2050 pequenos e leves automóveis que podem ser abastecidos na tomada de casa. Isso mesmo: automóveis 50% mais leves graças à nanotecnologia.

Além disso, ganha força a tendência usar em vez de ter: as bicicletas públicas que podem ser alugadas por curtos períodos e o compartilhamento de carros são soluções que, combinadas com as opções de transporte coletivo, oferecem uma flexibilidade muito maior do que a posse de um automóvel. Paga-se só pelo que se usa. As possibilidades de combinação inteligente entre esses meios de transporte em ambientes urbanos compactos são o principal trunfo da mobilidade sustentável, conforme os especialistas. Por falar em bicicleta: “Não existirão em 2050 cidades ou regiões, nas quais o uso da bicicleta é árduo.”

Enfim: Sabe aquela coisa de ter dois (ou mais) carros na garagem, ir para o trabalho de carro, sair de férias de carro, ir para a padaria de carro… Isso será logo passado. Mas, se não o automóvel, qual o meio de transporte dominante no futuro? Vários ao mesmo tempo. “Cada vez mais pessoas utilizarão uma oferta multimodal de transporte”, aponta o estudo.

Outra tendência é a desaceleração. Correr para quê? Limites de velocidades de 120 km/h nas autoestradas e 30 km/h nas áreas urbanas tornam o trânsito muito mais eficiente. “Quem quiser chegar mais rápido, que pegue um trem de alta velocidade”, aconselha um dos autores do estudo ao jornal Süddeutsche Zeitung.

De acordo com o periódico, a visão dos pesquisadores é bastante realista. Pode ser realista para a Alemanha. Será que também é realista para o Brasil? Estamos mesmo dispostos a investir e a desenvolver um transporte verdadeiramente sustentável? Estamos sensibilizados suficientemente para esse assunto? Qual a melhor maneira de nos preparar para os desafios sociais, econômicos, energéticos e ambientais que conhecemos? Inquietante neste momento é a sensação de que há muita gente se esquivando da elaboração de estratégias para a sustentabilidade do transporte nas cidades brasileiras.

Originalmente pulicado no Planeta Sustentável em 08/04/2011, às 10:34





Checklist do transporte sustentável

20 03 2011

Você seguramente já ouviu falar em peak oil. Peak oil é o momento em que sua produção atinge seu máximo. Dali para a frente, a quantidade disponível de petróleo segue unissonamente ladeira abaixo até o momento final ou, como diria Tom Zé, “quando esse diacho de petróleo acabar”.

O peak oil traz importantes consequências para o futuro dos transportes – um setor largamente dependente de petróleo e um dos principais responsáveis por emissões de gases do efeito estufa. Com o encarecimento do petróleo e de seus derivados, mobilidade tende a se tornar um produto de luxo, quiçá até inacessível para muitas pessoas que hoje dependem do carro para chegar ao trabalho, para deixar seus filhos na escola.

Como preparamos nossas cidades para esse cenário? Resposta: do jeito menos inteligente possível. Construindo mais túneis e mais autoestradas. Atravancando a expansão do transporte coletivo de massa. Reduzindo impostos para a compra ou o uso de automóveis. Mantendo impostos altos para os combustíveis usados de maneira bem mais eficiente pelo transporte público. E, de vez em quando, lançando em caráter de teste um ônibus movido a hidrogênio aqui ou acolá.

Ou seja, com base nas decisões tomadas na área dos transportes e anunciadas pela mídia, parece que o Brasil ainda não ouviu nada semelhante a peak oil. Mobilidade sustentável continua sendo, no máximo, jogada de marketing – seja por parte das empresas que atuam no setor, seja por parte do poder público.

O problema não é o petróleo em si. Até porque não há alternativa energética capaz de colocar em movimento tantas pessoas e mercadorias, como as hoje postas em movimento com base no consumo de petróleo.

Portanto, a tarefa é ainda maior do que simplesmente trocar as matrizes energéticas. É necessário reestruturar as cidades de forma que seja possível viver, sem se deslocar tanto como hoje, na maior parte das grandes cidades brasileiras.

Na tabela acima, baseada em outra brochura bem bacana do World Future Council, você mesmo pode conferir o que sua cidade está fazendo ou já fez em busca da sustentabilidade no setor de transportes.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 18/11/2010, às 12:31





A vaga VIP está a sua espera

19 03 2011

Conforme você pode ler aí ao lado, sou paulistano e, no fundo, um cara otimista, que ainda acha que São Paulo tem jeito. Torço muito para que a cidade possa funcionar melhor. Mas certas coisas que experiencio me provocam violentas crises de desânimo. Para sair delas, só com muito suco de maracujá ou encontrando gente muito bacana.

Durante minha breve estada no Brasil, entre o meio de setembro e ontem, colecionei diversas experiências que me empurraram para o pessimismo e para a vontade de cobrar na marra seriedade e responsabilidade de quem deveria ter.

Emblemático foi, para mim, o caso do jovem que morreu eletrocutado depois de encostar em um poste. Depois disso, comecei a boicotar os sinais para pedestre. Por que o pedestre – justo ele – tem de, em um cruzamento, apertar um botão para esperar o sinal verde, ao passo que os motorizados recebem o verde sem ter de fazer nada? Aliás, o sinal verde dos pedestres, quando chega (e isso pode demorar um tempo absurdo), nem sempre é respeitado pelos motoristas, nem sempre dura o suficiente para que a via possa ser cruzada… Enfim, já há uma série de desincentivos para apertar o botão e ficar esperando. E agora soma-se mais um motivo: o risco do choque. Uma cidade verdadeiramente humana não impõe aos pedestres botões para atravessar as ruas e seguir caminhando em calçadas como as que temos. Exijamos o fim da obrigatoriedade de apertar botão para atravessar as ruas!

Mas uma experiência ainda mais desanimadora foi acompanhar a transformação de vagas reservadas para idosos e pessoas com deficiência em vagas VIP. Em um hipermercado de São Paulo, testemunhei dois marmanjos estacionarem sua caranga preta em uma vaga próxima à entrada do estabelecimento. Claro, ninguém mais viu o desrespeito. Mais absurdo ainda foi a sequência dos fatos.

Encontrei um segurança e relatei o que vi. Não era da conta dele e sim do guardinha que circula de moto no estacionamento. Veja bem: eu deveria procurá-lo e reportar-lhe o que vi. Já decidido a perder mais algum tempo no mercado (fora o de realizar as compras em si), encontrei de novo uma vaga (comum) e fui conversar com o segurança. A resposta que ouço: “Xii, moço, acontece isso direto… Nós até colocamos uns cones às vezes nessas vagas, mas o pessoal tira e estaciona lá o carro.” Ok, e o que é feito diante disso? O proprietário é notificado? O carro é guinchado? Afinal, o direito dos idosos e portadores de deficiência existe ou é de mentirinha?

O segurança não conseguiu me dar respostas. Faltava-lhe orientação, convicção ou uma mistura de ambas as coisas. “Olha, é até bom estar ouvindo isso. Sugiro que fale com o gerente.” Fui procurar então o gerente da loja. Subi ao outro andar, falei com a senhora do atendimento, esperei uns bons sete minutos para o gerente dar o ar da graça. Expus o problema. O gerente mostrou sensibilização. Dali a pouco, o gerente mandaria anunciar a chapa do veículo pelos autofalantes do hipermercado. Os proprietários daquele carro seriam convocados. Infelizmente, não pude esperar para ver o desfecho da história. Mas duvido que o guardinha, o gerente e a maioria dos clientes tenham passado a entender que o problema não é um desrespeito a um mero sinal de trânsito. É um desrespeito a outras pessoas. E toma suco de maracujá…

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 07/10/2010, às 16:58