Abaixe o volume!

1 05 2011

Há muito que planejar transportes não tem só a ver com fazer mais ruas e mudar itinerários de ônibus. Mas desde que a União Europeia oficializou a poluição sonora como um problema urbano sério e publicou uma diretriz para lidar com esse assunto, mudou muita coisa. Governos locais são agora obrigados a integrar no planejamento urbano essa dimensão da proteção do meio ambiente. Na Alemanha, eliminar decibeis se transformou em um objetivo tão importante, que por onde olho vejo barreiras anti-ruído sendo instaladas em ruas e estradas.

Com ruído não se brinca. A longa exposição ao barulho pode trazer consequências graves à saúde humana, entre as quais doenças cardiovasculares. 65 decibeis já bastam para isso. A própria Organização Mundial de Saúde considera o ruído como um dos principais problemas atuais das grandes aglomerações urbanas europeias. E olha que os europeus nem são muito afeitos a carros de som e auto-falantes no espaço público… (Seria o Carnaval em Salvador um estado de calamidade?) Daí a importância de se avaliar e mitigar os ruídos.

Como isso é feito? Primeiro, é elaborado um inventário dos ruídos. Isto é: os principais geradores de barulho são identificados. Automóveis e aviões costumam ser figurinhas batidas no inventário. Essas informações são usadas para o cálculo do nível de ruído em diferentes partes da cidade e para a produção de mapas de curvas isófonas (que classifica os lugares, de acordo com a intensidade do barulho a que estão expostos).

Com base nesse diagnóstico, é elaborado um plano de ações para prevenir e mitigar a poluição sonora, por exemplo por meio da redução do tráfego de veículos. Conforme a diretriz europeia, os planos devem ser atualizados a cada cinco anos.

A produção desses planos exige das prefeituras uma alta capacidade técnica, o que assusta até mesmo na Alemanha políticos e burocratas. Afinal, eles requerem a combinação de dados de diferentes fontes, com diferentes conteúdos, bem como sua atualização regular. No Brasil – por motivos óbvios – o despreparo para lidar com temas do planejemento ambiental e com a gestão de informações urbanas é muito maior. Precisamos ainda acordar para a poluição sonora e nos sensibilizar para o assunto.

Mas, mesmo na Europa, muito do que foi feito para diminuir o nível de ruído nos últimos anos já foi neutralizado pelo crescimento da frota de veículos. Manter o tráfego de veículos motorizados em níveis considerados razoáveis é uma ótima forma de defender o meio ambiente urbano (o que inclui as pessoas que ali habitam).


Escrevi esse texto depois de ter acordado ao som de um pássaro anunciando um pouco precipitadamente a primavera. Era uma melodia suave e diferente das que costumo ouvir. Diferente principalmente por vir de um pássaro – e não de um avião ou de um telefone celular…

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 10/02/2011, às 14:18

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Quem precisa ter carro?

20 03 2011

Qualquer morador de cidade média ou grande tem de prontidão um monte de razões para ter um carro próprio. O trabalho que fica longe de casa, a vontade de sair por aí quando quiser, o bate-e-volta até a praia no final de semana, as crianças, os bichos de estimação, a sogra, os amigos, o sistema de som, querer impressionar os clientes, a velocidade… São muitos os motivos – e muitos deles absolutamente legítimos –que levam as pessoas a querer ter um carro.

Mas é mais longa ainda a lista de argumentos que fazem da fórmula um automóvel por pessoa algo totalmente inviável. O motivo mais óbvio é o congestionamento. Ou a frustrante sensação de não conseguir se locomover rapidamente, mesmo estando dentro de uma máquina com potência suficiente para andar a muitos quilômetros por hora. Há também a questão do espaco físico: não há área suficiente para abrigar ao mesmo tempo tantos veículos, que passam grande parte do tempo estacionados. Enfim, são velhos conhecidos os problemas que podem tornar a vida nas cidades extremamente sufocante. Por isso, precisamos saudar conceitos e projetos que pretendem contornar esse problema. Especialmente quando eles surgem da própria indústria automobilística.

A Daimler-Benz entendeu o recado e se tornou pioneira na implantação do car2go – um sistema de aluguel de automóveis por curtos períodos. O car2go já existe desde 2008 em Ulm, uma diminuta cidade no sul da Alemanha, onde 200 automóveis do modelo Smart ficam à disposição dos habitantes. Também está disponível em Austin, nos Estados Unidos. No ano que vem o projeto deve chegar a Hamburgo, onde enfrentará uma verdadeira prova de fogo. Será que o conceito de automóveis de aluguel vai pegar em uma metrópole, com mais de um milhão de pessoas e com complexos fluxos de trânsito?

Pelo car2go, a fatura da mobilidade é gerada a partir dos minutos rodados. Em Ulm, um minuto de uso custa 19 centavos de euro (isto é, menos de R$ 0,45). Nesse preço já estão embutidos combustível e mesmo as tarifas de estacionamento cobradas em vias públicas (estas são automaticamente enviadas pela prefeitura à empresa). No mais, é preciso se registrar por 19 euros. Ademais, a implantação do projeto não acarreta custo algum para a prefeitura, que deverá apenas monitorar resultados.

O car2go é uma proposta tentadora. É boa para aqueles que uma hora ou outra sentem que precisam de um carro, mas que sabem que ele ficará boa parte do tempo inutilizado, gerando custos. Afinal, vale a pena ter um carro só para fazer trajetos curtos? É boa ideia também para a indústria automobilística, que pelo menos em países desenvolvidos não consegue mais desovar tantos carros. (Com o car2go, os fabricantes perdem o caráter de produtores e evão para a direção de prestadores de serviços.) E é boa principalmente para as cidades e atores que querem encontrar alternativas inteligentes para o deslocamento de pessoas.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 25/11/2010, às 12:08





Ruas feitas para matar

19 03 2011

Ai que bom se o planejamento urbano fosse apenas uma questão de lógica… Fosse assim, não veríamos nossas ruas sendo projetadas para o desastre. Reduzir os limites de velocidade e estreitar as áreas para automóveis: esse deveria ser o norte do planejamento de transportes de quem quer pensar em mobilidade sustentável no sentido mais original da expressão.

Vamos aos fatos.

1) As autoridades que fazem o planejamento, a gestão e mesmo a operação do transporte urbano consideram o respeito ao cidadão, ao passageiro, ao cliente. Não duvido que, em busca de certificação, algumas delas até gravem a defesa da vida entre outros nobres valores em uma plaquinha de metal, exposta na portaria. “Segurança no trânsito” é a expressão que todo mundo gosta de usar e falar em palestras.

2) O risco de acidentes fatais aumenta quando se permite que veículos motorizados trafeguem muito rápido. É muito pouco provável que alguém – seja um pedestre, seja o motorista – morra em decorrência direta de uma colisão com um carro a 10 km/h. Mas se esse carro andar a 50 km/h, o quadro muda bastante: é provável que pelo menos  o pedestre se machuque gravemente. E a 90 km/h, a probabilidade de morte de um pedestre é certa.

3) Quanto mais larga a rua, maior a tendência de motoristas se sentirem livres para correr mais. É instintivo. Motoristas são impelidos a desenvolverem menores velocidades, se as ruas forem mais estreitas e sinuosas. Quanto mais largas e retas as ruas, maiores serão as velocidades e menor será o contato entre os moradores dos dois lados da rua. Não precisa nem de placa de trânsito para regulamentar, até porque se as normas não condizem com a forma geométrica da rua, não são respeitadas.

Agora, vamos ligar os fatos. Se a defesa da vida é mesmo um valor prezado e uma meta a ser perseguida pelas decisões em transportes, então por que não diminuir a velocidade permitida sobretudo nas vias que cruzam grandes aglomerados urbanos? Por que não diminuir a largura dos leitos destinados ao trânsito motorizado e ampliar o espaço para o trânsito de pedestres e de veículos não-motorizados, para o convívio dos moradores e para as áreas verdes?

Ainda não encontrei ninguém – repita-se: ninguém – que explique por que seguimos fazendo justamente o contrário no Brasil. (Se você me ajudar a colocar esse assunto em discussão, quem sabe podemos encontrar respostas…) E olhe que estamos falando do Brasil, onde os números de acidentes de trânsito não são insignificantes. Até gente acostumada com estatística de guerras, tsunamis, terremotos e epidemias se assusta com a carnificina nas ruas do país. É como se uma pequena bomba de Hiroshima caísse sobre o Brasil mais ou menos a cada dois anos, levando embora a vida de dezenas de milhares de pessoas. Isso sem falar nos feridos, nos custos materiais, etc. E, mesmo assim, apesar da tragédia, quase nada muda. Continuamos alargando avenidas, reprogramando os semáforos para dar maior fluidez aos automóveis, aumentando os limites de velocidades…

Deveria ser uma meta a ser ferrenhamente perseguida a redução das velocidades permitidas nas vias e o estreitamento das ruas. Note bem: não estou falando em estreitar cada uma das faixas de rolamento para que caibam mais carros em uma rua com a mesma largura, como a Companhia de Engenharia de Tráfego fez em São Paulo em uma época em que já era crescente o trânsito de motocicletas entre as faixas. Essa solução é ainda mais “criminosa”, tanto do ponto de vista urbanístico como da segurança de quem circula pela cidade. O que defendo é o estreitamento de toda a área por onde passam carros, motos e caminhões e a ampliação dos espaços especialmente para os pedestres. Em várias regiões da cidade, eles foram esmagados, prensados ou mesmo suprimidos, à medida que os espaços para a circulação de veículos eram aumentados.

Resistência a esse tipo de medida sempre vai haver. Já posso até imaginar os buzinaços, os discursos inflamados daqueles âncoras de rádios que só falam de trânsito e, claro, de todos os cidadãos que parecem só pensar em seus automóveis. Mas, da Alemanha, dois fatos recentes me fazem ainda ter a esperança de que podemos mudar os rumos do planejamento de transportes no Brasil.

Primeiro, o novo presidente da associação de ciclistas de Hamburgo, Dirk Lau, saiu na imprensa defendendo a velocidade máxima de 30 km/h em praticamente todas as ruas da cidade. Pode parecer maluquice? Ou maluquice seria continuarmos nos matando com um trânsito com velocidades inseguras para todos? E veja bem: a proposta é para Hamburgo, com índices de acidentes bem menores que nas cidades brasileiras, onde uma única morte é suficiente para provocar debates acalorados sobre segurança no trânsito. A própria prefeitura de Hamburgo não desqualifica a racionalidade da proposta. Pelo contrário, informa que tem trabalhado bastante para ampliar as regiões em que a velocidade máxima é 30 km/h. Em agosto, a prefeitura teria identificado 41 vias ou trechos viários onde seria possível implementar este limite de velocidade. E em sua cidade? O que será que a prefeitura ou a secretaria de transportes faz, neste sentido?

O segundo fato é o estreitamento do leito carroçável de uma rua no centrinho do bairro onde moro (foto). As obras ainda não acabaram, mas já é possível observar que veículos terão menos espaço para circular por aquela via. É claro que o estreitamento vem no bojo da inauguração de um novo terminal de ônibus e, por isso, o trânsito na rua deve ser reduzido. Mas, mesmo assim, por que não vemos no Brasil ruas serem reduzidas, mas apenas alargadas? Será que não estamos, assim, dando atenção apenas ao automóvel e fechando os olhos para a vida?

(Foto: Rua dará mais espaço para a vida. Thiago Guimarães)

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 14/10/2010, às 13:43





Ilha verde, mobilidade idem

11 06 2010

Estive por dois dias em um dos paraísos do cicloturismo na Alemanha: Föhr, ilha encravada no Mar do Norte, quase encostada à fronteira com a Dinamarca. Volto de lá bastante empolgado com o que vi e vivi.

A “ilha verde” é um dos mais pitorescos e belos destinos em território alemão. Os telhados das casas feitos com uma espécie de palha, o incompreensível dialeto, velhos moinhos e igrejas medievais, as lápides que procuram conter a história inteira da família do defunto…

Nas pequenas vilas de Föhr, os mais mal acostumados turistas nada irão encontrar além da infraestrutura necessária para uns bons dias de descanso. Mas em todas elas há acomodações e, pelo menos, um restaurante e um quiosque de aluguel de bicicletas. E quem quer mais que isso? São muitos os motivos para querer pedalar e tentar (mas não conseguir) perder-se nos 82 km2 da ilha que integra desde 1985 um parque nacional.

Lá se reproduzem várias espécies de aves, como o ostraceiro-europeu (para assegurar que estamos nos referindo ao mesmo bicho, o nome científico é Haematopus ostralegus), o faisão (Phasianus colchicus), além de gaivotas, gansos e patos selvagens. Focas – cuja caça fora até incentivada pelo governo alemão, o que contribuiu quase para sua extinção – habitam as águas da região e podem ser vistas com alguma sorte no caminho para a ilha. Ovelhas, cavalos e outros bichos dos fazendeiros locais completam a fauna.

Outro bom motivo para pedalar por ali é a topografia. As altitudes mal encostam nos 10 metros acima do nível do mar. Ou seja, a maior ladeira que o ciclista enfrenta não passa de uma pequena elevação, fácil de ser superada com um contemplar da paisagem. Venta, porém. E quem pedala contra o vento pode ter que mostrar força de vontade para sair do lugar.

Especialmente se o tempo estiver quente, vale fazer paradas nas praias, onde vigoram duas leis: a lei das marés, que podem ampliar em quilômetros sua extensão e abrir trilhas entre ilhas e, claro, o estrito zoneamento praiano. Há as praias de banho, vigiadas por salva-vidas; há as praias onde a prática de windsurfing é permitida; há as praias destinadas para empinar pipas; e há as praias em que se pode passear com cachorros. Na Alemanha, deve-se ficar sempre de olho nas placas.

Mas, acima de tudo, Föhr mostra o que pode e precisa ser feito para promover a prática do ciclismo em pequenas cidades litorâneas. Não basta se acomodar sobre os potenciais naturais e com as curtas distâncias, e esperar que as bicicletas se integrem à cultura local. Foram concebidas cinco rotas, todas elas bem sinalizadas e que conjugam bem os caminhos mais diretos com os passeios mais bonitos. A mais curta tem uma extensão de 13 km, a mais longa, que dá volta na ilha toda, 34 km. Informação sobre essas rotas é encontrada facilmente.

Alugar uma bicicleta é barato, fácil e seguro. “Se a bicicleta quebrar, ligue para esse número”, diz o dono das bicicletas, enquanto escreve um número de celular no verso do recibo de aluguel, “e trocamos sua bicicleta onde você estiver. Mas a garantia só vale se a bicicleta quebrar, não o ciclista…”

Não dá para deixar de perceber como é bem cuidado o espaço público de Föhr. Bancos e lixeiras ao longo dos passeios, ruas e jardins bem conservados, calçadas acessíveis, postes de iluminação em estilos diferenciados, informação: parte das melhorias é financiada com um pequeno imposto cobrado dos turistas.

Importante também é o desincentivo financeiro do uso do automóvel. A travessia de um carro de passeio pela balsa custa cerca de 200 reais e é preciso reservar com antecedência um lugar na embarcação. O valor exato depende do comprimento do veículo, mas certamente não compensa. Já os automóveis que habitam a ilha junto com seus 8.500 moradores praticamente só podem trafegar a 30 km/h e não representam risco a quem pedala pela ilha. (Trata-se de um lugar perfeito para as primeiras tentativas de uma criança, por exemplo.)

Com uma costa com extensão e riqueza natural incomparáveis aos da Alemanha, o Brasil poderia se inspirar na ilha verde e multiplicar as experiências que promovam formas de mobilidade mais apropriadas aos contextos de cidades litorâneas. Precisamos urgentemente combinar de maneira inteligente desenvolvimento territorial, respeito à fauna e à flora e estilos de vida e de turismo mais conscientes e prazerosos.

(Foto: Pedalar e relaxar em contato com a natureza é um dever de quem visita Föhr, no norte da Alemanha)

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 14/04/2010, às 15:03





Corrupção, o grande vilão da sustentabilidade

11 06 2010

Uma das melhores formas de incentivar homicídios em São Paulo é deixar as autoescolas seguirem descaradamente o rumo da corrupção, à sombra de fiscalização ou controle. Lanço essa tese com base nas informações do repórter do UOL Arthur Guimarães, que não teve dificuldade para detectar esquemas fraudulentos em três das cinco escolas que visitou recentemente. É o tipo da notícia de deveria tirar o sono de todo cidadão que tem amor pela vida.

Pare e observe por um momento o tráfego na rua. Agora, tente adivinhar, quantos motoristas estão de fato habilitados a conduzir um veículo? E quantos não estão? Não tenho essa resposta. Mas e se jornalistas – ou, melhor ainda, aqueles que têm por dever controlar – visitassem todas as escolas da cidade? Quantas delas oferecem a habilitação a pessoas despreparadas por algumas dezenas de reais a mais? Sessenta por cento?


A Companhia de Engenharia de Tráfego divulgou nesta semana que 1.463 pessoas morreram no trânsito da cidade de São Paulo em 2009. Melhor dizendo: 1.463 morreram em consequência inequívoca do trânsito de veículos. Somem-se a eles os que morrem (ou tiveram a morte apressada) por causa da poluição atmosférica, mas que não são tabulados pela CET. Somem-se a eles as pessoas feridas, os ferimentos irreversíveis, os traumas, as dores familiares, as consequências para a sociedade. Feitas essas somas, concluiremos que, ainda que o número de mortes “em consequência indiscutível do trânsito de veículos motorizados” tenha diminuído, ele continua absurdamente elevado.

A pergunta que se faz então é: em que medida a carnificina provocada pelo trânsito nas ruas da cidade tem a ver com o mau preparo dos motoristas? O combate à corrupção ajudaria a reduzir o número de acidentes e de mortes? Estou absolutamente convicto disso, já que um trânsito humano é um dos pilares da mobilidade sustentável. Obter a habilitação para manipular qualquer arma – seja ela um revólver ou um carro – deveria ser uma das coisas mais difíceis e sérias. Enfim, o oposto da facilidade que o repórter constatou para se renovar a CNH em São Paulo.


Na Alemanha, é difícil e caro conseguir a habilitação. A maioria das pessoas que conheço por aqui reprovaram, pelo menos uma vez, no teste prático. O próprio exame teórico não deve ser menosprezado. No Brasil, as boas intenções de especialistas e legisladores – em parte consolidadas no Código de Trânsito Brasileiro – são desmoralizadas diante dos esquemas ilegais promovidos por autoescolas. Esquemas esses que nem as autoridades veem ou para os quais é feita vista grossa?

Para construir caminhos para a mobilidade sustentável, precisamos nos alimentar diariamente de ideias inovadoras, avaliar experiências em outros lugares e discutir as alternativas. Não raramente somos obrigados a sonhar. Mas, de minha parte, confesso que às vezes bate o desânimo. Que futuro pode-se esperar da mobilidade em uma sociedade, em que a corrupção está infiltrada até mesmo nas instituições que existem para educar ou naquelas (como o Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo, que há anos é alvo de suspeitas e investigações) que existem para prestar serviços ao cidadão? Maior respeito aos pedestres e ciclistas, shared space, redução da velocidade em zonas residenciais… tudo isso fica só no universo das remotas possibilidades, enquanto boa parte das instituições ligadas ao “sistema trânsito” estiverem atreladas à corrupção no Brasil.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 18/03/2010, às 10:21





Retrospectiva 2

12 03 2010

Por motivo de espaço, não consegui concluir a retrospectiva que comecei na semana passada. Mas achei que valeria a pena continuá-la. Além de refrescar nossa memória, é um bom ponto de partida para entender o que há de bom e de nem tão bom acontecendo em São Paulo. Seguimos de julho a dezembro:

Julho
Flanelinha legal. No Distrito Federal, a profissão dos lavadores e guardadores de carros foi regulamentada. A proposta consiste em cadastrar os trabalhadores e qualificá-los. O motorista identifica os flanelinhas adequados à legislação pelos coletes verdes, entregues aos que cumprem todas as exigências. O que seria sustentável: definir a situação dos flanelinhas em outras cidades. Lugar de malandro não é na rua.

Mototáxi em São Paulo. Para fugir do trânsito, uma opção clandestina e perigosa ganha espaço no trânsito da capital. “Você escolhe se quer mais ou se quer menos rápido. De qualquer forma, vai ser mais rápido do que de carro”, justifica um mototaxista para a reportagem da “Folha de S. Paulo”. O que seria sustentável: coibir as formas de clandestinidade, em especial as que equivalem a um convite para um suicídio.

Ônibus a hidrogênio. Anunciado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento que o ônibus iniciaria a operação comercial no corredor São Mateus-Jabaquara em agosto. Silencioso e ecológico, mas ainda relativamente caro. O que seria sustentável: avaliar a eficiência do ônibus a hidrogênio e definir uma estratégia para dar escala a meios de transporte movidos com tecnologias limpas e renováveis.

Fretados: Logo que o prefeito anunciou que os fretados seriam a bola da vez, recebeu a oposição de usuários, empresários do setor e prefeitos de municípios vizinhos. A restrição entrou em vigor no dia 27. O que seria sustentável: restrições desse tipo são de óbvio âmbito metropolitano. Em São Paulo, quase tudo foi tratado dentro da Prefeitura.

Agosto
Trem-bala. Começa a ser mais debatido e também criticado o projeto de conectar São Paulo e Rio de Janeiro por trens de alta velocidade. Mas a qual custo? Em quanto tempo? Com qual tecnologia? Superará o projeto os “obstáculos” ambientais? Até agora todas essas perguntas aguardam respostas. O que seria sustentável: ensinar o governo federal a tomar decisões estratégicas relativas ao modo e à fonte de energia no âmbito de um plano de transporte de longas distâncias. Será que o pessoal em Brasília um dia aprende?

Setembro
Corrupção urbanística. Seis servidores da Prefeitura são acusados de liberar ilegalmente alvarás de construção a empreiteiras. O Ministério Público Estadual investiga o caso – certamente longe de ser o único em São Paulo.

Ônibus mais caro em 2010. A Prefeitura estava injetando dinheiro público demais nas companhias de ônibus e o prefeito optou, desta vez, pelo reajuste. O tamanho do aumento só ficou claro mais tarde: de R$ 2,30 a R$ 2,70. O que seria sustentável: evitar o uso político da tarifa de ônibus (segura em ano eleitoral e dispara quando o prefeito quer).

Ranking do Ministério. O governo federal começa a publicar um ranking dos carros poluidores. Um importante primeiro passo para dar mais transparência ao assunto. O que seria sustentável: maior severidade para a obtenção de informações junto à indústria automobilística.

Outubro
Zona Azul mais cara. Assim que o aumento de R$ 1,80 para R$ 3 foi anunciado, os talões sumiram. Postos oficiais de revenda cobravam ilegalmente ágio das folhas antigas. Uma sindicância também apontou irregularidades na logística de distribuição e venda das folhas.

Lotação. Metrô registrou movimento recorde de 3.633.883 usuários no dia 9 de outubro. Dias antes, o Metrô havia tentado liberar aos poucos o acesso à plataforma de embarque na estação da Sé.

Cadê a prioridade? Citando o jornal “O Estado de S. Paulo”: “Apesar de liberar R$ 20 bilhões para o plano de expansão na área de transportes, a gestão José Serra (PSDB) deve chegar ao fim sem entregar por completo nenhum dos três corredores de ônibus previstos para a Região Metropolitana de São Paulo.”

Dois novos terminais. É a promessa do Prefeito: mais dois terminais rodoviários, um na zona leste e outro na oeste, devem começar a ser construídos em 2011. Os terminais devem ser integrados a estações de metrô. O que seria sustentável: aproveitar a oportunidade para alavancar o desenvolvimento nos arredores de onde serão instalados os terminais e pensar em formas combinadas de promover o transporte sustentável.

Nova Marginal. As primeiras pistas são abertas ao trânsito. A obra é o mais forte ícone de descaso ao meio ambiente em 2009.

Dezembro
Taxi Amigão. Com iniciativa da Prefeitura, viagens são 30% mais baratas nas noites de sexta, sábado e domingo com os taxistas que se cadastram voluntariamente.

Gargalo aéreo. Os aeroportos das cidades que sediarão jogos da Copa de 2014 já operam no limite.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 28/01/2010, às 11:48





Restrospectiva

12 03 2010

Na semana passada apresentei algumas idéias para a metrópole do transporte sustentável. Hoje, trago a primeira parte de uma breve restrospectiva de 2009. Relembremos acontecimentos importantes na área de mobilidade urbana em São Paulo. Com ela, quero mostrar o quão longe está nossa cidade de uma transformação profunda de nossa cultura de mobilidade.

Janeiro
Morte da Márcia Regina. A massagista, ciclista convicta e experiente, morreu na Avenida Paulista, no dia 14. Márcia tornou-se um forte símbolo de luta entre os cicloativistas da cidade.
Aniversário de São Paulo. Ciclistas protestam sobre a ponte Octavio Frias de Oliveira, construída exclusivamente para o trânsito de automóveis.

Fevereiro
Início da inspeção veicular. Em tese, uma vitória dos ecologistas. Mas, afora os atrasos e as suspeitas acerca da idoneidade da Controlar (a empresa responsável pela fiscalização na capital), os carros mais antigos e mais poluidores são liberados do teste. O que seria sustentável: seriedade e vontade política para inspecionar a frota em circulação no país.
Desinformação por telefone. O novo número para informações sobre o trânsito paulistano é 1188. Mas na semana da estreia, reportava um jornal: “Serviço 1188 erra e induz a infrações”. Passado um ano, os atendentes transmitiam informações incorretas sobre a volta do rodízio na cidade. O que seria sustentável: garantir a qualidade das informações prestadas ao cidadão.
Reajuste das tarifas do metrô e dos trens metropolitanos. O preço do bilhete unitário sobe para R$ 2,55 no dia 9. O aumento é menor do que a inflação acumulada, mas suficiente para manter São Paulo no topo da lista das viagens de metrô mais caras do mundo. O que seria sustentável: por em prática uma política tarifária condizente com o objetivo de garantir a igualdade de oportunidades aos cidadãos, independentemente de sua condição de possuidores ou não de automóvel particular.
Perigo no ar. O jornal “Folha de S. Paulo” informa que 40 helipontos em São Paulo receberam dos órgãos competentes autorização para operar, apesar de irregularidades que podem provocar acidentes. A cidade de São Paulo tem uma das maiores frotas de helicópteros do mundo. O que seria sustentável: elaborar um plano integrado de transporte urbano que abranja também o espaço aéreo da cidade, evitando que o caos nas ruas seja exportado para os ares.
Multas modernas. A CET divulga que os marronzinhos utilizarão a partir de abril computadores de mão e radiocomunicadores que transmitem em tempo real informações sobre infrações e acidentes de trânsito. O custo do serviço, faturado pela Vivo, é de quase R$ 100 mil por mês.
Buracos por hora. A reportagem de “O Estado de S. Paulo” perguntou e a Prefeitura respondeu: em média, surge um buraco a cada 50 segundos nas vias da cidade. A Prefeitura admite que não dá conta do recado. O que seria sustentável: que a prefeitura apresentasse seu plano de pavimentação, deixando claro ao cidadão por quais ruas se pode trafegar.

Março
Ciclistas pelados. Tirando a roupa, chamaram de novo a atenção para a condição de vulnerabilidade e insegurança que vivenciam ao pedalar na cidade. Ao contrário de 2007, desta vez ninguém foi detido pela polícia. O que seria sustentável: Alguém ter olhado para os ciclistas como participantes do trânsito da cidade e não simplesmente como gente pelada.

Abril
Rodoanel mata. Publicada a notícia de que mais de cem animais que habitam a Mata Atlântica, em parte ameaçados de extinção, morreram durante a construção do trecho sul da obra viária. A reportagem do “Estado” informa sobre bichos mutilados, queimados… “Para gerente da Dersa, culpa é da natureza”, informa o jornal. O que seria sustentável: averiguar se o governo estadual tem condições técnicas de executar o projeto com respeito à natureza.
Rotatórias verdes. A revista “Quatro Rodas” traz um texto simpático ao crescente número de cruzamentos que recebe grama em vez de concreto. Contribuem para aumentar a área permeável da cidade e são mais visíveis que as tradicionais. O que seria sustentável: com base nessa experiência, avaliar todas as áreas do sistema viário e esverdear tudo o que for possível.
Corredores esquecidos. Entre 2005 e 2008 deixaram de ser investidos em corredores de ônibus R$ 715 milhões em São Paulo. No período, apenas o Expresso Tiradentes foi inaugurado. O que seria sustentável: dar prioridade ao transporte coletivo.

Maio
Flanelinhas, valets & Co. Reservando ilegalmente vagas de estacionamento das ruas para seus clientes, faturam até R$ 4.500 por mês. O que seria sustentável: proibir ou regulamentar; jamais fechar os olhos.
Custo dos acidentes no estado de São Paulo. O Sistema Único de Saúde gastou R$ 35 milhões em 2008 em função de acidentes de trânsito. Metade das cerca de 8.700 vítimas fatais eram pedestres com mais de 60 anos. O que seria sustentável: preocupar-se mais com seres humanos.

Junho
Semáforos burros. A cada cinco semáforos na capital, um é inteligente. Ou melhor, poderia ser, já que só 27% dos mais de 1.200 equipamentos funcionam – percentual vexaminoso para uma cidade com o trânsito como o paulistano. Os demais estão desativados e não programam os tempos de verde e vermelho conforme o fluxo de veículos. Desde 2007 a CET fala em revitalizar a rede semafórica. O que seria sustentável: Semáforos inteligentes em funcionamento sobretudo para favorecer o trânsito de pedestres e bicicletas. Porque caso contrário, eles não são verdadeiramente inteligentes…
Restrição aos fretados. “Com o objetivo de organizar a atividade”, defende-se a Prefeitura. Para aliviar o trânsito, estima-se menos 1.300 ônibus por dia na área central da cidade. O que seria sustentável: focar as medidas de restrição no automóvel particular antes de direcionar a restrição a formas de transporte coletivo (ainda que privado).

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 21/01/2010, às 20:09