Ruas feitas para matar

19 03 2011

Ai que bom se o planejamento urbano fosse apenas uma questão de lógica… Fosse assim, não veríamos nossas ruas sendo projetadas para o desastre. Reduzir os limites de velocidade e estreitar as áreas para automóveis: esse deveria ser o norte do planejamento de transportes de quem quer pensar em mobilidade sustentável no sentido mais original da expressão.

Vamos aos fatos.

1) As autoridades que fazem o planejamento, a gestão e mesmo a operação do transporte urbano consideram o respeito ao cidadão, ao passageiro, ao cliente. Não duvido que, em busca de certificação, algumas delas até gravem a defesa da vida entre outros nobres valores em uma plaquinha de metal, exposta na portaria. “Segurança no trânsito” é a expressão que todo mundo gosta de usar e falar em palestras.

2) O risco de acidentes fatais aumenta quando se permite que veículos motorizados trafeguem muito rápido. É muito pouco provável que alguém – seja um pedestre, seja o motorista – morra em decorrência direta de uma colisão com um carro a 10 km/h. Mas se esse carro andar a 50 km/h, o quadro muda bastante: é provável que pelo menos  o pedestre se machuque gravemente. E a 90 km/h, a probabilidade de morte de um pedestre é certa.

3) Quanto mais larga a rua, maior a tendência de motoristas se sentirem livres para correr mais. É instintivo. Motoristas são impelidos a desenvolverem menores velocidades, se as ruas forem mais estreitas e sinuosas. Quanto mais largas e retas as ruas, maiores serão as velocidades e menor será o contato entre os moradores dos dois lados da rua. Não precisa nem de placa de trânsito para regulamentar, até porque se as normas não condizem com a forma geométrica da rua, não são respeitadas.

Agora, vamos ligar os fatos. Se a defesa da vida é mesmo um valor prezado e uma meta a ser perseguida pelas decisões em transportes, então por que não diminuir a velocidade permitida sobretudo nas vias que cruzam grandes aglomerados urbanos? Por que não diminuir a largura dos leitos destinados ao trânsito motorizado e ampliar o espaço para o trânsito de pedestres e de veículos não-motorizados, para o convívio dos moradores e para as áreas verdes?

Ainda não encontrei ninguém – repita-se: ninguém – que explique por que seguimos fazendo justamente o contrário no Brasil. (Se você me ajudar a colocar esse assunto em discussão, quem sabe podemos encontrar respostas…) E olhe que estamos falando do Brasil, onde os números de acidentes de trânsito não são insignificantes. Até gente acostumada com estatística de guerras, tsunamis, terremotos e epidemias se assusta com a carnificina nas ruas do país. É como se uma pequena bomba de Hiroshima caísse sobre o Brasil mais ou menos a cada dois anos, levando embora a vida de dezenas de milhares de pessoas. Isso sem falar nos feridos, nos custos materiais, etc. E, mesmo assim, apesar da tragédia, quase nada muda. Continuamos alargando avenidas, reprogramando os semáforos para dar maior fluidez aos automóveis, aumentando os limites de velocidades…

Deveria ser uma meta a ser ferrenhamente perseguida a redução das velocidades permitidas nas vias e o estreitamento das ruas. Note bem: não estou falando em estreitar cada uma das faixas de rolamento para que caibam mais carros em uma rua com a mesma largura, como a Companhia de Engenharia de Tráfego fez em São Paulo em uma época em que já era crescente o trânsito de motocicletas entre as faixas. Essa solução é ainda mais “criminosa”, tanto do ponto de vista urbanístico como da segurança de quem circula pela cidade. O que defendo é o estreitamento de toda a área por onde passam carros, motos e caminhões e a ampliação dos espaços especialmente para os pedestres. Em várias regiões da cidade, eles foram esmagados, prensados ou mesmo suprimidos, à medida que os espaços para a circulação de veículos eram aumentados.

Resistência a esse tipo de medida sempre vai haver. Já posso até imaginar os buzinaços, os discursos inflamados daqueles âncoras de rádios que só falam de trânsito e, claro, de todos os cidadãos que parecem só pensar em seus automóveis. Mas, da Alemanha, dois fatos recentes me fazem ainda ter a esperança de que podemos mudar os rumos do planejamento de transportes no Brasil.

Primeiro, o novo presidente da associação de ciclistas de Hamburgo, Dirk Lau, saiu na imprensa defendendo a velocidade máxima de 30 km/h em praticamente todas as ruas da cidade. Pode parecer maluquice? Ou maluquice seria continuarmos nos matando com um trânsito com velocidades inseguras para todos? E veja bem: a proposta é para Hamburgo, com índices de acidentes bem menores que nas cidades brasileiras, onde uma única morte é suficiente para provocar debates acalorados sobre segurança no trânsito. A própria prefeitura de Hamburgo não desqualifica a racionalidade da proposta. Pelo contrário, informa que tem trabalhado bastante para ampliar as regiões em que a velocidade máxima é 30 km/h. Em agosto, a prefeitura teria identificado 41 vias ou trechos viários onde seria possível implementar este limite de velocidade. E em sua cidade? O que será que a prefeitura ou a secretaria de transportes faz, neste sentido?

O segundo fato é o estreitamento do leito carroçável de uma rua no centrinho do bairro onde moro (foto). As obras ainda não acabaram, mas já é possível observar que veículos terão menos espaço para circular por aquela via. É claro que o estreitamento vem no bojo da inauguração de um novo terminal de ônibus e, por isso, o trânsito na rua deve ser reduzido. Mas, mesmo assim, por que não vemos no Brasil ruas serem reduzidas, mas apenas alargadas? Será que não estamos, assim, dando atenção apenas ao automóvel e fechando os olhos para a vida?

(Foto: Rua dará mais espaço para a vida. Thiago Guimarães)

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 14/10/2010, às 13:43





A cidade das bicicletas

26 10 2008

Imagine uma cidade com muitas bicicletas. Mas muitas mesmo. Onde 35% de todas as viagens são feitas de bicicleta e, na hora do rush, até congestionamentos sobre duas rodas acontecem. Já imaginou? Em alemão, essa cidade se chama Münster.

Münster é sinônimo de cidade amiga das bicicletas e do clima. Sua fama devido às bicicletas — o segundo meio de transporte mais usado na cidade; o primeiro ainda é o automóvel — é maior do que a de sua tradicional universidade ou a de seu centro histórico barroco. Münster fez sua imagem ainda mais forte como contraponto às cidades industriais do Vale do Ruhr, que ficam ali perto e formam uma das maiores áreas conurbadas do mundo.

Pois bem, o município que costuma aparecer no topo dos rankings de qualidade de vida do país despontou também em primeiro lugar na estatística de lugares com o trânsito mais perigoso no estado da Renânia do Norte-Vestefália. Não há nas redondezas uma cidade onde o risco de se ferir ou de morrer devido a um acidente de trânsito seja maior do que em Münster.

De acordo com notícia publicada hoje no Spíegel Online, o número de acidentes de trânsito envolvendo bicicletas aumentou 30% entre 2001 e 2007. Culpa dos motoristas? Ledo engano. Os principais causadores de acidentes seriam os próprios ciclistas, que desrespeitam o sinal vermelho, pedalam bêbados ou até na contra-mão da ciclovia.

Dez policiais, agora, foram destacados para orientar os cicilstas e multá-los, se necessário. Tarefa essa bastante difícil. Ciclistas são os “sabidões”, pensam que sempre estão com a razão, dizem que a polícia deveria cuidar do trânsito de automóveis. Isso quando não resolvem fugir dos guardas. Um dos agentes, continua a reportagem, teve de perseguir um infrator por três quilômetros para conseguir adverti-lo de que havia passado no vermelho.

Por causa desses pequenos abusos de liberdade, neste momento está em discussão o emplacamento obrigatório de bicicletas. O óbvio objetivo do projeto é permitir a identificação desses veículos, em caso de infração. Pode parecer estranha para alguns, mas essa solução combina bem com o perfil do problema na Alemanha, onde a regulação do Estado se faz presente em todo lugar, ainda mais quando se trata de evitar acidentes. Tudo para fazer de Münster a cidade das bicicletas do jeito que ela é conhecida e do jeito que ela deveria ser.

Foto: Mar de bicicletas em frente à estação de trem de Göttingen

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 16/10/2008, às 15:55





A escola em movimento

27 03 2008

O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. A Terra é o terceiro planeta mais próximo do Sol. Ninguém duvida de que esses conteúdos são importantes para um estudante. Mas por que não abordar em algumas aulas o tema da mobilidade? Por que não incluí-lo no currículo escolar?Na Alemanha, assim como em certas escolas no Brasil, as crianças passam por uma formação genérica sobre segurança no trânsito, da primeira à quarta série. Como se atravessa uma rua? O que significam os sinais de trânsito? Como andar de bicicleta na cidade? Estão aí algumas perguntas colocadas para a garotada.

No entanto, essa formação inicial não tem sido suficiente para tirar jovens e adolescentes do grupo mais suscetível aos acidentes de trânsito. E nem para fazer deles pessoas mais conscientes sobre suas opções cotidianas de transporte. Nos dois países, ser jovem significa maior risco. Os índices de motorização crescem ano a ano e, com eles, os problemas já bem conhecidos por quem vive em qualquer cidade grande brasileira. Trabalhar o tema da mobilidade sustentável do ensino fundamental ao ensino médio é a idéia do Curriculum Mobilität, projeto desenvolvido no estado da Baixa Saxônia.

Alunos na faixa dos 17 anos (idade mínima para tirar a carta) são preparados para o mundo da mobilidade (motorizada ou não, sustentável ou não) de uma forma bem abrangente. Professores de diversas matérias – além dos pais e até de policiais, agentes de trânsito, planejadores urbanos, entre outros profissionais – podem trabalhar juntos e apresentar os aspectos técnicos por trás de uma simples viagem de mobilete, os custos ambientais e sociais por trás de uma motocicleta ou refletir sobre o teor das mensagens transmitidas por propagandas de automóvel. Alguns temas dão pano para manga para aulas ao longo de semanas…

Pode estar em projetos como esse o caminho para o desenvolvimento de uma “cultura para o trânsito”, em um mundo em que mobilidade é, aparentemente, uma necessidade cada vez mais presente em nossas vidas. No Brasil, país que ainda ocupa uma posição vergonhosa nas estatísticas internacionais de acidentes de trânsito, talvez seja uma boa idéia educar, também na escola, crianças e jovens para lidar com a rua. Até porque eles estão muito mais próximos de carros, calçadas e placas do que de triângulos retângulos ou de reflexões sobre o sistema solar.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 20/03/2008, às 13:51

Sobre este tema, leia notícia Escolas terão aulas de trânsito, publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 15/02/2008.