Saindo do zero

29 05 2009

Impossível falar em cidade sustentável sem considerar as necessidades de pessoas com necessidades especiais. Ainda mais em um país como o Brasil, onde olhar para a frente significa olhar para uma população que envelhecerá bem nos próximos anos. São Paulo tem uma dívida imensa com idosos e pessoas com deficiência. E é muito improvável que essa dívida seja quitada rapidamente. Essa triste realidade ficou mais clara quando a própria prefeitura, depois de realizar vistoria em 3.500 lugares, chegou à conclusão de que a cidade não tem um único lugar plenamente acessível. Zero dos 3.500 lugares atendeu integralmente às normas brasileiras de acessibilidade.

Esse é mais um daqueles casos em que a anormalidade se tornou normal e sua dimensão é o motivo alegado para a inércia. Temos, novamente, o grande paradoxo do poder público brasileiro, que se vê de mãos atadas por não saber nem por onde começar. O problema é muito maior do que a capacidade de orientar, fiscalizar e corrigir. Até porque o próprio poder público a desrespeita. “Na Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania, no Pátio do Colégio, por exemplo, a rampa é improvisada”, conforme passagem retirada de um dos raros textos na mídia sobre o assunto. Se é assim, o que fazer?

Há pouco tempo a Avenida Paulista ganhou uma “guardiã da mobilidade”. O trabalho de Julie Nakayama, assessora da vereadora Mara Gabrilli, consiste em reportar falhas no calçamento e outros tipos de fronteiras na via mais famosa da cidade. Julie pretende fazer da internet sua aliada: o site http://guardiadapaulista.ning.com é aberto à colaboração de leitores e seu Twitter já está no ar. Para alguns, a tarefa de uma guardiã remete ao denuncismo e a palavra em si traria ares mais de militarismo do que de cidadania. Minha opinião? É louvável todo esforço feito para cuidar melhor da cidade, para reunir informações permanentemente.

Uma verdadeira revolução democratizante aconteceria como consequência da desobstrução de edificações e locais públicos a cadeirantes, pessoas com deficiência visual e auditiva, idosos e até mesmo pais conduzindo carrinho de bebê. A revolução tem um conteúdo programático bastante claro e é o fruto da soma de pequenas iniciativas:rebaixamento de calçadas e provisão de semáforos com sinais acústicos para deficientes visuais; vagas de estacionamento reservadas a pessoas com deficiência; pisos táteis em ruas e praças; rampas como alternativa às escadas; ônibus com piso rebaixado.

Por causa do relevo e da organização espacial da cidade, nem mesmo uma cidade como Viena pretende se tornar 100% acessível. Mas que São Paulo poderia sair facilmente do zero, sem dúvida que poderia. Que o trabalho em rede de pessoas como a Julie dê certo!

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 14/05/2009, às 16:30

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A guerra fez mais uma vítima

9 02 2009

“Estado natural” é a expressão que Thomas Hobbes, no século 17, usou para descrever a situação de uma multidão desunida, em que apenas os interesses particulares, os juízos e os apetites individuais imperam. Pautados por suas próprias paixões, cada um se esforça para destruir ou subjugar o outro. A desigualdade de forças levaria à guerra e à conseqüente desarticulação da sociedade.

Sem rebusco teórico e com pouca consciência de si mesma, São Paulo escreve diariamente sobre seu monstruoso sistema viário um novo capítulo de sua própria história hobbesiana da “guerra de todos contra todos”. Em um triste enredo recheado de inércia política e burocratismos, são mortas mais de quatro pessoas por dia. Ontem faleceu – entre outros, cujas mortes não mereceram cobertura da imprensa – uma ciclista chamada Márcia.

Ela era massagista, participava do grupo Bicicletada e, assim como outros assinantes do Manifesto dos Invisíveis, somente pedia um pouco de atenção e respeito. Profecia auto-realizável? Foi exatamente atenção ou respeito ou as duas coisas juntas que acabaram tirando a vida de Márcia, aos 40 anos.

Não é o caso de discutir o tamanho da culpa do motorista do ônibus que a fechou na Avenida Paulista. De algum modo, somos todos culpados. Falhamos ao evitar a morte de 2 pedestres por dia, de 4 motociclistas a cada três dias, de um ciclista a cada cinco dias. Falhamos ao ler essas estatísticas e ao digeri-las como simples números. Falhamos ao transformar em rotina a leitura de notícias trágicas como essa da Márcia.

Para o Hobbes do século 17, estava muito claro: a defesa da vida dos cidadãos deveria ser a função primordial do Estado. Os indivíduos, mesmo com interesses conflitantes, chegariam a um acordo e compactuariam um fim do “estado natural”. Em São Paulo do século 21, ainda não aprendemos a gerar condições mínimas de sobrevivência aos cidadãos. Basta ir ao trabalho, visitar um amigo, fazer as compras para vivenciarmos uma guerra de todos contra todos. Proteger a vida parece ainda um objetivo remoto, inalcançável, tão ininteligível como as próprias trincheiras e fronts em que se transformaram as ruas da cidade.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 15/01/2009, às 18:53





Os “pontos autos” do Dia Sem Carro

24 09 2007

Não foi dessa vez que o Dia Sem Carro foi de fato incorporado ao calendário dos paulistanos que costumam andar de carro. Apenas duzentas pessoas participaram da caminhada pela Avenida Paulista, que deveria ser o ápice do evento. Os organizadores não esconderam a frustração com a baixa adesão às dezenas de eventos programados para ontem.

A bela exposição da história das bicicletas, montada sobre o Elevado Costa e Silva, foi vista por raros visitantes sob um calor de mais de 30°C. Talvez por má divulgação. Moradores vizinhos ao Minhocão e motoristas mal sabiam do evento, apesar das notícias e propagandas nos meios de comunicação.

No Parque Villa-Lobos, uma apresentação de chorinho foi cancelada momentos antes de os músicos subirem ao palco. O pesquisador Paulo Saldiva simplesmente não deu as caras no Parque Ibirapuera para a decepção de algumas pessoas que estavam lá só para vê-lo. O especialista em poluição atmosférica perdeu a oportunidade de falar na hora certa e no local certo: durante o Dia Sem Carro, o ar do Ibirapuera registrou alta concentração de ozônio, fazendo com que a Cetesb disparasse alerta.

Na Avenida Paulista (que, aparentemente, tinha o tráfego normal para um sábado), manifestantes tentaram, com criatividade, convencer motoristas a desembarcar dos automóveis. No final da tarde, tomaram uma das faixas da avenida para caminhar do Conjunto Nacional ao SESC Paulista. Ao contrário do combinado, os ciclistas — um tanto quanto sectários — não se juntaram à marcha.

Além disso, justamente nesse dia, uma das bicicletadas terminou em confusão com a Polícia Militar. Conforme a jornalista e ciclista Renata Falzoni, que diz ter gravado tudo em vídeo, até gás de pimenta foi disparado contra os ciclistas que estavam no seu devido lugar, ou seja, na rua.

O Dia Sem Carro não teve um ponto alto, mas, paradoxalmente, tristes “pontos autos”: dois graves acidentes de trânsito com vítimas. Um logo pela manhã causou ferimentos em seis pessoas. E o outro levou à UTI um ex-jogador de futebol. O congestionamento nas Marginais também se fez presente durante alguns momentos do Dia Mundial Sem Carro. Observando as vagas de estacionamento em seu prédio, um amigo meu ironizou: “É o dia sem carro na garagem”.

Por volta das 17h30, o empresário Oded Grajew discursou para poucos, frisando que o movimento era apartidário. Logo em seguida, o secretário do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, não resistiu e também subiu à tribuna. Avaliou que o Dia Sem Carro de 2007 foi melhor que o do ano passado e que o próximo será ainda melhor. Na opinião dele (e na minha também), o Dia, mesmo com todos os problemas, valeu a pena.

Valeu a pena, porque mostrou que alguém — pelo menos alguém — está incomodado e preocupado com os problemas relacionados ao trânsito em São Paulo. Valeu a pena, porque jogou uma luz para a continuidade desse tipo de iniciativa nos anos que vêm. Valeu a pena, porque mostra que sempre é melhor tentar amadurecer nossa consciência cidadã do que esperar que uma situação crítica de congestionamentos e de poluição atmosférica bata à nossa porta.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 24/09/2007, às 13:20