Voar por algumas moedas

7 02 2008

R$ 0,30 chega a custar a viagem de avião para três pessoas da Alemanha para a Inglaterra. Isso mesmo: mais barato que um chiclete, trinta centavos. Não é sorteio, nem presente. A façanha de fazer um vôo internacional sair mais barato do que a passagem de um ônibus urbano está ao alcance de qualquer um que assine a newsletter de uma “companhia aérea barata”. Acontece que trinta centavos é o que os passageiros pagam; o planeta arca com o resto da conta que deveria ser cobrada.

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Atravessar fronteiras pelo ar em troca de algumas moedas é uma verdadeira tentação para quem quer viajar rápido e muito, gastando pouco. De executivos a turistas, ninguém quer perder essa boquinha. No ano passado, 48,4 milhões de pessoas viajaram pela RyanAir, outros 37,2 milhões pela EasyJet e 27,8 milhões pela AirBerlin – as três maiores neste nicho. Só para comparar, a tradicional Lufthansa ofereceu assento a 56,4 milhões de passageiros em 2007.

Alguém pode imaginar o perigo que deve ser voar quase de graça em sabe-se-lá qual aeronave. Ledo engano. Duas dessas companhias baratas figuram no topo do ranking das companhias que oferecem os vôos mais seguros. (A tabela considera os acidentes ocorridos nos últimos anos e, por isso, a TAM é a penúltima da lista, entre a Turkish Airlines e a Pakistan International Airlines.)

A verdade é que cresce em um ritmo avassalador o número de viagens das “low cost carriers”. London-Stansted é o terceiro maior aeroporto do Reino Unido. Em 1990, cerca de 2 mil pessoas viajaram diariamente por Stensted, que em 1942 não passava de uma pequena base de apoio aos ataques aéreos dos aliados na Segunda Guerra. Agora, o número diário de passageiros gira em torno de 25 mil. O aeroporto ocupa uma área duas vezes maior que a cidadezinha de 5 mil habitantes de onde veio seu nome. E já está pequeno.

Para acomodar melhor os 23,8 milhões de passageiros que pousam ou decolam em Stensted, uma segunda pista está em planejamento. E a oposição a esse insustentável modo de transporte e de negócio está em atividade (veja que pôster bacana!). Querem preservar um mínimo de silêncio e tranquilidade que ainda existem nas redondezas do aeroporto e, ao mesmo tempo, alertar para a adicional queima de querosene que viria com um aeroporto maior. Não me espantaria se algum representante dessas companhias baratas já tenha dito por aí algo na linha: “Enquanto vocês se encantam com a discussão de como reduzir as emissões de carbono na atmosfera, nós fazemos lucro desse jeito…”

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 07/02/2008, às 14:26





Nova rota, nova rotina

15 11 2007

Meu cotidiano mudou radicalmente. Não moro mais mais na megacidade, moro em um pequeno vilarejo. Pequeno mesmo: 105 habitantes, de acordo com os dados oficiais. Cercada de campos de batata, beterraba e cereais, a vila não tem supermercado, loja do correio, farmácia e nem escola (a que existia fechou há 35 anos). De manhã cedo, pelo menos três vezes por semana, pego o carro e dirijo uns sete quilômetros até uma cidadezinha de 7 mil habitantes. Lá tem mercado, escola primária, correio. No caminho quase sem curvas, passo por outros três povoados. Ao atravessá-los, dirijo a 50 quilômetros por hora, no máximo. Entre eles, longe de pessoas, vou a 100 km/h.

Em dez minutos estou na estação de trem. Também dá para fazer o caminho de bicicleta, já que o trajeto é bastante plano e ciclistas são realmente respeitados. Estaciono o carro facilmente junto à estação. Sobre os trilhos, passam trens com contêiners dos quatro cantos do mundo que desembarcaram no porto. E de hora em hora passa o trem regional que vai para a metrópole. O trem pintado de azul e amarelo, operado por uma companhia privada de transporte de passageiros, chega envolto em ar gelado.

Cada vagão tem dois andares cheios de assentos confortáveis — com certeza, mais confortáveis do que os dos aviões que despertaram angústia de nosso ministro. A plataforma da estação seguinte está cheia. Todo mundo vai entrar no trem, ocupar cada um dos assentos vazios e ainda vai sobrar gente para fazer a viagem de pé. Não há empurra-empurra e ninguém sobe no trem até que alguém esteja por desembarcar. No entanto, a partir do momento em que ninguém mais sai do trem, vigora o “cada um por si” e o “salve-se quem puder” acontece. É assim a plataforma da estação de uma cidade de 72 mil habitantes e de muitos trabalhadores atraídos pelas oportunidades de emprego que a metrópole oferece. Esta cidade não chega a ser uma cidade-dormitório. Nela há cinema, muitas escolas e até universidade.

Mais vinte minutos e chego à cidade grande. Agora, estou falando de uma aglomeração de mais de 1,7 milhão de pessoas. Shopping centers, muita gente de terno, migrantes, serviços especializados, salas de cinema com bom áudio, grande diversidade de comércio, movimento e congestionamento. Tudo cheira a metrópole. Colados à estação de trem intermunicipal ficam uma estação de trem urbano e um terminal de ônibus. Os coletivos da linha 142 passam de cinco em cinco minutos e um painel avisa quanto tempo falta para o próximo veículo chegar. Quando chega, ele se inclina para receber os passageiros, entre os quais há sempre idosos e algumas vezes carrinhos de bebês. Desembarco 13 minutos depois, ao ler no painel luminoso o nome do ponto mais próximo à universidade. Antes que o professor fale qualquer coisa, fico refletindo sobre as lições que aprendo ao longo do caminho.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 15/11/2007, às 13:05