Motor a combustão resiste à aposentadoria

11 06 2010

Um tempo atrás sonhávamos com o paraíso movido a energia elétrica. Falava-se que lá por 2015 as montadoras só colocariam à venda exclusivamente carros com motores elétricos. Hoje sabemos que essa visão não se concretizará nos próximos anos. Até mesmo a Alemanha estipula apenas para 2030 a modesta meta de cinco milhões de automóveis elétricos rodando em seu território. O motor a combustão, presente em automóveis desde o final do século retrasado, está longe da aposentadoria. Consequentemente, o setor de transportes também está longe de sustentável.

Em boa parte, o adiamento do início do reinado dos eletroautos se deve ao tortuoso caminho que as baterias de íon-lítio terão de percorrer para transformar o carro elétrico realidade para massas de consumidores. A trajetória de laptops ou celulares para automóveis é uma das mais complicadas, mesmo para as mais bem remuneradas equipes de engenheiros. Eles e a indústria automobilística “dormiram no ponto”? Sim, é isso que teria acontecido, conforme a revista de divulgação científica “Zeit Wissen”, uma das melhores publicações que encontro em bancas na Alemanha.

Em equipamentos portáteis as baterias de íon-lítio são leves, apresentam desempenho superior, maior durabilidade e precisam de pouco tempo para serem recarregadas. Mas a tarefa de por em movimento uma massa de centenas de quilos (na Alemanha, o automóvel “popular” fabricado pela Volkswagen engordou mais de meia tonelada ao longo dos últimos 35 anos) requer muito mais energia do que aparelhos portáteis. Se, nesses, baterias explodem só de vez em quando (estatísticas indicam três casos por milhão), em automóveis elas ainda são consideradas verdadeiras bombas ambulantes.

Os novos modelos híbridos – movidos a combustíveis tradicionais e a eletricidade – mostram bem o que ainda está por ser feito: enquanto os motores elétricos produzem 15 kW, os a combustão geram 200 kW. “Carros 100% movidos a eletricidade nunca poderão corresponder nossos desejos de mobilidade individual”, profetiza um pesquisador à revista. Por isso, apesar dos avanços nos últimos anos, virar a página histórica do motor a combustão e de suas emissões requer repensar não só o automóvel como um todo, mas a mobilidade como um todo. E, enquanto isso, deixar o ineficiente motor a compressão ligado, desperdiçando, como de costume, dois terços de seu potencial energético para fins outros, que não a propulsão do veículo e de seus passageiros.

As linhas de pesquisa mais promissoras rumo a uma mobilidade individual motorizada menos danosa ao meio ambiente se desenvolvem em vários fronts. Um deles é a pesquisa de novos materiais – tanto para a produção de veículos mais leves e seguros como para a produção de baterias. Outra linha procura tornar todos os movimentos do automóvel mais eficientes do ponto de vista energético. O farol fechou? Sistemas computadorizados informam o motorista sobre qual o modo de condução mais econômico. Pisou no freio? Parte da energia utilizada para a frenagem é recuperada. E claro: já está sendo encarado o desafio de tornar as baterias mais apropriadas para um uso no transporte de passageiros. Combinando-se os resultados de tudo isso, quem sabe?

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 08/04/2010, às 11:06





Por que tanto entusiasmo?

25 08 2008

Uma leva de boas notícias para a indústria automobilística foi publicada na imprensa nesses últimos dias. O Estado de S. Paulo revelou ontem que o Brasil desbancou a França e já é o sexto maior produtor de carros do planeta. Vendas sobem 30%, produção em alta de 22%, empregos em nível recorde: um mar de rosas para as multinacionais do setor. Já a revista Veja publicou há pouco tempo reportagem enchendo a bola das montadoras e de seu desempenho após as políticas de liberalização comercial no Brasil. Um trechinho: “A concorrência melhorou a qualidade dos produtos. No início da década, 70% dos carros brasileiros tinham motor 1.0. Hoje, são 54%.“ Mas o que, disso tudo, é realmente motivo de comemoração? Será que motores mais potentes são mesmo um indicador de melhor qualidade?

De jeito nenhum, responde Der Spiegel em recente reportagem de capa. A própria Alemanha segue no caminho errado: “O sucesso das montadoras alemãs tem se baseado até agora em modelos caros, grandes e potentes — enfim, exatamente os produtos mais problemáticos no atual cenário de mudança climática e esgotamento dos combustíveis fósseis.” Até nos Estados Unidos, alguns desses “tratores urbanos” estão sofrendo bruscas quedas de venda, depois de anos de sucesso. Por que deveríamos, no Brasil, orgulhar-nos de uma maior proporção de automóveis mais requintados?

Mas, ainda de acordo com a reportagem, o futuro continuará pertencendo ao carro. Hoje existe quase 1 bilhão de automóveis neste planeta. Até 2030, essa população deverá ultrapassar a marca dos 2 bilhões. Mas possivelmente não teremos tanto esses carros que vemos hoje e que entusiasmam o noticiário. O que vem aí é o carro elétrico. A General Motors, que planeja colocar no mercado o GM Volt dentro de dois anos, até compartilha essa visão e soltou um anúncio publicitário assim: “Querido petróleo, nós tivemos até hoje um excelente relacionamento. Mas de agora em diante é melhor não nos vermos tanto…” Uma renomada consultoria de empresas prognostica que até 2020, 25% dos novos carros serão movidos a eletricidade. Analistas são da opinião de que a atual explosão no preço do petróleo é o impulso que faltava para o desenvolvimento de sistemas de alimentação elétrica para a nova geração de automóveis.

Claro que o fato de haver mais gente empregada no ramo automobilístico não é ruim. Mas ficaria ainda mais contente com empregos menos sujeitos às oscilações da demanda. Estes empregos poderiam vir na esteira de tecnologias nacionais que contribuiriam para inovar a forma de propulsão dos veículos. Sabemos que o calcanhar-de-aquiles do carro elétrico continua sendo o armazenamento. As baterias para o carro elétrico são ainda muito grandes, caras demais e rendem para algo entre 60 e 100 quilômetros apenas. Se o Brasil desse um empurrãozinho no desenvolvimento de algo na direção de uma mobilidade mais sustentável, aí sim estaria mais entusiasmado.


Links
Assinado pelo repórter Duda Teixeira, O país das montadoras é uma coleção de elogios para a indústria automobilística.
Leia também o que escreveu a setorista Cleide Silva sobre o desempenho da indústria automobilística.
Enquanto isso, em São Paulo, acontece isso aqui. Ai, ai, ai, ai, ai…

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 08/08/2008, às 05:42