Ela quer mudar mentes

2 04 2009

Laura Ceneviva, do Pró-Ciclista, em sua mesa de trabalho

Laura Ceneviva, do Pró-Ciclista: "Nossa cultura vê a bicicleta como algo infantil"

Quem disse que o Dia Internacional da Mulher passaria batido no Pra lá e pra cá? Publico aqui os melhores trechos de uma conversa de cinco horas que tive com uma mulher que trabalha para mudar a cultura paulistana de desprezar as bicicletas. Trata-se da arquiteta Laura Ceneviva, uma das principais figuras ligadas à mobilidade não motorizada na cidade de São Paulo. Laura coordena o Pró-Ciclista (Grupo Executivo da Prefeitura de São Paulo para Melhoramentos Cicloviários) desde que foi instituído pelo prefeito Gilberto Kassab, em maio de 2006. A grande missão do grupo é fomentar o uso da bicicleta como meio de transporte.
A entrevista foi em grande parte acompanhada por outra mulher: Ana Hoffmann, testemunha da evolução desse debate na prefeitura desde meados dos anos 1990. A conversa aconteceu na sede da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente nesta terça-feira, dia de tempestade em que São Paulo travou.

O Pró-Ciclista é um grupo executivo. Suponho que haja um conselho consultivo também…
O Pró-Ciclista congrega secretarias e empresas da prefeitura com competências que afetam o uso da bicicleta como meio de transporte. Mas o grupo é executivo no sentido do fomento à bicicleta, e não no de executar efetivamente as ciclovias. Não conseguimos ainda constituir um grupo executivo no duro, capaz de promover licitações e construir ciclovias, porque um dos pressupostos deste grupo é o respeito às competências originárias de cada setor.
A inserção da bicicleta como meio de transporte e a destinação de áreas para a bicicleta implica uma coordenação de ações e, acima de tudo, uma mudança cultural. Trânsito como uma atividade coletiva é iminentemente cultural. Não se trata de montar ou promover um programa de obras. O que ambicionamos é essa mudança cultural. Nossa cultura vê a bicicleta como algo infantil: “não precisa, é firula”. Eu mesma me surpreendi com a dificuldade de realizar projeto cicloviário, em particular em uma zona de urbanização já consolidada. Temos que mexer na cabeça de todos esses gerentes das coisas públicas, para que seja possível dar o próximo passo.

E o grupo tem conseguido mudar a cabeça desses gerentes?
Não dá para comparar o que era e o que já está. As pessoas estão cada vez mais convencidas da necessidade de fomentar o uso da bicicleta. Mas nós mesmas somos motivos de gozação, em particular pelos setores mais importantes na estrutura da prefeitura. É um menosprezo absoluto. Não é piada.

O Pró-Ciclista tem uma visão comum do papel da bicicleta em uma cidade como São Paulo?
É uma visão “médio comum”. Como são várias empresas e vários tipos de prestação de serviço público, cada um tem uma visão por seu lado. O que é comum é o reconhecimento do padrão de competitividade da bicicleta em relação ao veículo individual motorizado. A inserção da bicicleta na distribuição modal pode provocar um rearranjo que vai favorecer o trânsito (porque minimiza a disputa pelo sistema viário), o transporte coletivo (porque pode alimentá-lo a um preço mais barato e reduzir o dano ambiental), a saúde da população, qualificar a paisagem urbana. Além do mais, a bicicleta é um veículo muito mais igualitário socialmente. Uma coisa é você vestido numa carapaça de BMW ou de Fusqueta velha. Na bicicleta, pode até haver uma diferença, mas ela é mais igualitária socialmente.

O que significa exatamente fomentar a bicicleta?
Fomentar implica essencialmente três grandes grupos de ação: proporcionar infraestrutura tanto para a circulação quanto para o estacionamento; promover o gerenciamento de tráfego de modo a permitir a inserção e o deslocamento adequado da bicicleta (em condições de segurança e eficiência); a educação do trânsito e a comunicação social. Temos duas diretrizes fundamentais: usar a bicicleta para a alimentação do sistema estrutural do transporte coletivo (mais barato e menos danoso ao meio ambiente) e nos deslocamentos intrarregionais de até 8 quilômetros. Ao fazer investimentos para bicicletas, necessariamente teremos de fazer investimento para pedestres. Do ponto de vista do tratamento infraestrutural, a bicicleta e o pedestre estão juntos e as características para sua circulação são muito mais similares do que a do carro. Além disso, ignorar o pedestre pode fazê-lo andar na ciclovia. Por fim, toda intervenção cicloviária tem que oferecer uma leitura de qualificação urbana, tem que corresponder a uma melhoria urbanística.

Como os projetos de ciclovias são definidos?
O planejamento cicloviário da cidade de São Paulo foi feito em 2005, baseado nos planos das subprefeituras. Mas ciclovia é sistema viário e há 38 órgãos da Prefeitura que podem ser produtores do sistema viário: as 31 subprefeituras e a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, a Secretaria da Infraestrutura Urbana, Emurb, Secretaria de Habitação, a Secretaria de Transportes, a CET e a SPTrans. Nosso grupo é buscado por essas instituições para informação e apoio. Afinal, a verba para bicicletas está aqui com a gente (o orçamento de 2009 é de R$ 15 milhões). Então eles vêm pedir dinheiro para fazer as obras. Mas a concretização dos projetos depende de vontade política dos produtores do espaço viário e de aprovação do órgão de trânsito local (a CET), que tem a competência de planejar, projetar, regulamentar e alterar o trânsito, inclusive dos ciclistas. É necessária a aprovação não do prefeito, mas do órgão de trânsito.

Então não seria mais fácil primeiro perguntar para a CET onde se pode fazer ciclovias e depois planejar?
Deveria haver umas cem pessoas cuidando disso na CET, mas só existem três. Eles não têm condições de dar conta sequer da demanda já existente.

A organização institucional da cidade de São Paulo para tratar a mobilidade de uma forma integrada é insatisfatória.
Insatisfatória! A própria Secretaria Municipal de Transportes tem o Departamento de Sistema Viário, o Departamento de Transporte Público, mas não tem um departamento de transporte não motorizado.

Mas nesse momento temos o Alexandre de Moraes, que é presidente da CET, presidente da SPTrans, secretário dos Transportes…
São grandes orçamentos…

Ele concentra tudo e, pelo jeito, não transitoriamente. Não seria o momento de rearranjar essas estruturas?
Acho que você deve perguntar a ele. Mas é evidente que uma tal concentração de poder e orçamento é extremamente favorável às mudanças positivas que esperamos.

Quem é o ciclista em São Paulo?
Quem usa a bicicleta o faz por economia de dinheiro ou porque quer se transformar pessoalmente (seja por saúde, por emitir menos poluentes, porque está na moda…). Mas o ciclista, o coitado é um esquecido. Por isso, o comportamento anárquico e desrespeitoso, errado e ilegal. Eles andam na contramão, na calçada, não respeitam o sinal vermelho. O poder público, ao desatendê-los completamente, tem deles a resposta. A Prefeitura os ignora, eles nos ignoram. Temos que trazer os ciclistas da marginalidade para o conjunto da circulação, prestando serviço a eles.

Mas vocês já lançaram alguma campanha educativa?
Não, porque a cidade é grande e isso não pode ser fruto de um voluntarismo. Tem de haver uma estrutura, que ainda não existe.

Os ciclistas pedalaram pelados pela segunda vez neste final de semana. Para o Pró-Ciclista, é legítimo esse tipo de protesto?
Claro, é legitimíssimo! Porque põe a nu a questão da bicicleta e do transporte não motorizado.

E pintar a sinalização dita “clandestina” nas ruas?
Do ponto de vista de quem protesta é legítimo. O Código de Trânsito Brasileiro é público, mas não é observado pelo poder público. É uma forma de falar “deixa com a gente que a gente faz”. Mas entendo que pintar as faixas corresponde a um malefício. Porque o uso da sinalização do trânsito não é relacionado com o contexto geral. Pode gerar situações de risco muito graves. Isso é perigoso.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 19/03/2009, às 15:19

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3 Bs para um bom transporte

18 12 2008

Ontem ouvi com atenção o que Jürgen Heyen-Perschon tinha a dizer sobre o “colapso do trânsito em metrópoles de países em desenvolvimento”. Jürgen é o diretor executivo do braço europeu da ITDP, uma das mais respeitadas organizações especializadas em transporte com influência nos cinco continentes. A ITDP, por exemplo, foi uma das entidades que tentaram fazer dos transportes urbanos um dos Objetivos do Milênio das Nações Unidas, o que acabou não acontecendo.

A receita da ITDP para romper o ciclo de dependência ao automóvel nos países para o Terceiro Mundo – ou para as “economias emergentes” ou o “mundo em desenvolvimento” conforme o eufemismo que se queira ter – é simples e poderia ser resumida em 3 Bs.

O primeiro B vem de “bus rapid transit” (BRT), em português às vezes traduzido como “veículo leve sobre pneus”. Mas o que importa no BRT não é o peso do veículo (como o “VLP” sugere), mas a eficiência de um sistema de ônibus com alta freqüência e alta velocidade. Operando em faixas exclusivas, os ônibus do BRT realizam os trajetos em menos tempo que automóveis particulares ou ônibus comuns.O embarque e o desembarque acontecem rapidamente, porque o bilhete é adquirido fora dos veículos ou tudo acontece por cartões eletrônicos. E, para o BRT funcionar melhor ainda, o sistema pode usar combustíveis menos poluentes, pode promover a integração com meios de transporte não-motorizados, pode ter prioridade nos cruzamentos que encontrar pela frente e pode contar com um sistema de informação ao usuário por painéis eletrônicos. Para os entusiastas, o BRT seria uma alternativa tão atrativa quanto, mas bem mais barata que o metrô.

O segundo B abrevia bicicleta, meio de transporte não-motorizado que não pode faltar no discurso sustentável sobre mobilidade urbana. Vale a pena lembrar que, nas décadas de 1920 e 1930, 80% das viagens em algumas cidades européias eram feitas sobre duas rodas. O quadro mudou radicalmente no pós-guerra, por causa do automóvel. A idéia, agora, é tentar “recuperar terreno perdido” ou, em cidades de países em desenvolvimento, evitar que a motorização dê forma a lugares insustentáveis. Jürgen também cita um estudo que conclui que o custo de uma viagem de bicicleta é menor do que o custo de uma viagem a pé, se o valor do tempo gasto em movimento for monetarizado.

Por fim, uma boa síntese de tudo isso: Bogotá, onde uma profunda reestruturação urbana se deu a partir da reorganização dos sistemas de transporte. O BRT, conhecido pela marca Transmilenio, funciona de maneira exemplar há oito anos (aliás, o aniversário acontece na semana que vem). A expansão da infra-estrutura para ciclistas ”turbinou” o uso da bicicleta no dia-a-dia. São mais de 320 quilômetros de ciclovia na capital colombiana. Tudo isso não seria possível sem a liderança exercida pelo então prefeito Enrique Peñalosa, que, depois do sucesso do Transmilenio, já foi cotado até para presidente da Colômbia.

A fórmula dos 3Bs (esclarecida ao longo de uma hora e meia) me pareceu simples demais para gerar convincentes soluções para as 23 megacidades que existirão já em 2015. A dimensao territorial de megacidades como limite à expansão ilimitada do BRT, a impossibilidade de transporte de bicicletas no BRT, conflitos entre pedestres e ciclistas, assim como relevantes questões relativas à educação para o trânsito foram deixadas um pouco de lado.

Além disso, para cada Peñalosa bem-sucedido, inúmeros outros políticos fazem carreiras fazendo justamente o contrário: cidades para carros. Em São Paulo e nas outras capitais brasileiras, alguns desses políticos até participaram das eleições nesse ano… Mesmo com essas observações, seria bom se os três Bs funcionassem com uma essencial bússola nas secretarias de transporte que existem no Brasil.


Surpresas da semana

1. A Volkswagen ganhou o prêmio de marca mais sustentável da Alemanha. Motivo para isso seria o pioneirsmo da empresa no desenvolvimento de tecnologias amigas do meio ambiente.

2. SP terá garagens para estimular integração entre metrô e carro. A notícia saiu na “Folha de S. Paulo de hoje”. Para quando? “Os primeiros (estacionamentos) serão nas estações Imigrantes, com 117 vagas, provavelmente entre Natal e Ano Novo, e Itaquera, com 587 vagas, no primeiro trimestre de 2009.” O grifo é por minha conta. Não me pergunte se não daria para planejar melhor.

3. “O Estado de S. Paulo” de ontem: CET passa a cumprir lei após 11 anos. “Onze anos após a entrada em vigor do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) anunciou ontem que agora passará a cumprir pontos fundamentais da lei, no que diz respeito à segurança de pedestres.” Continue a ler e tire suas próprias conclusões.

4. E no “Estado” de hoje: Onze anos depois de introduzido o rodízio, a prefeitura foi agora obrigada pela Justiça a sinalizar a área onde vale a restrição. Notícia digna de link.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 11/12/2008, às 10:20





O casamento perfeito

17 04 2008

Marseille, França

Andar de bicicleta pelo bairro até uma estação de metrô e, na volta para casa, pegar o metrô e depois pedalar. Essa combinação – tão gostosa como goiabada com queijo fresco – está para ser descoberta em São Paulo. Pelo menos, é o que se pode ler no texto de Alencar Izidoro, na “Folha de S. Paulo” de hoje.

Escreveu o repórter: “Os passageiros do metrô de São Paulo terão bicicletas à disposição em algumas estações do centro e da avenida Paulista. Eles poderão utilizá-las de graça por um período curto – estimado entre 20 e 30 minutos – e terão de pagar uma tarifa de aluguel para mantê-las por mais tempo.” Mas quando poderemos experimentar metrô com bicicleta? A partir de julho, promete o secretário de transportes metropolitanos, José Luiz Portella.

Eu acho essa idéia – a ser viabilizada por meio da parceria com uma seguradora de veículos – muito boa. Na Europa, um montão de cidades já descobriu que dá certo colocar as magrelas à disposição do público. Além disso, os projetos mais recentes e inovadores apostam nem tanto na expansão das redes de transporte, mas em sua integração.

Por exemplo, Marselha. Eu nunca fui para lá, mas estou encontrando semelhanças interessantes entre Marselha e nossa São Paulo. O centro da segunda maior cidade francesa é abarrotado de carros. Conseguir vaga para estacionar é tão difícil, que alguns largam os carros na rua para dar uma corridinha até a loja ou a padaria. Bicicleta é o meio de transporte usado por apenas 1% de quem se movimenta diariamente dessa cidade portuária, com um relevo não muito plano. Não há favelas, mas a segregação social também é explícita. Nos bairros do norte da cidade – como Les Arnavaux e La Rose, que, até os anos 1980, eram tradicionais vilas operárias – os problemas sociais são bem mais profundos.

E o que fará Marselha nos próximos anos? Com investimentos da ordem de 230 milhões de euros, a estação de trem St. Charles deverá se transformar em um pólo multimodal: transporte sobre trilhos de alta velocidade aliado a metrô, ao ônibus e aos novos bondes que circulam no centro da cidade. Bicicletas também deverão estar à disposição de quem desembarca por ali.

Ao todo, serão colocadas mil bicicletas em 55 locais próximos a estações de metrô ou bonde. De acordo com o projeto original, 100 quilômetros de ciclovias devem existir na cidade até o final deste ano. Para os marselheses, a descoberta do potencial do transporte sobre trilhos com o veículo não motorizado de duas rodas deverá lembrar o delicioso casamento entre azeitonas e um bom vinho rosé.


Fresquinho no Jornal da Tarde de hoje, artigo em que tento desfazer o mal-entendido em torno do “pedágio urbano”.

Artigo originalmente publicado no Planeta Sustentável em 17/04/2008, às 8:47