Corrupção, o grande vilão da sustentabilidade

11 06 2010

Uma das melhores formas de incentivar homicídios em São Paulo é deixar as autoescolas seguirem descaradamente o rumo da corrupção, à sombra de fiscalização ou controle. Lanço essa tese com base nas informações do repórter do UOL Arthur Guimarães, que não teve dificuldade para detectar esquemas fraudulentos em três das cinco escolas que visitou recentemente. É o tipo da notícia de deveria tirar o sono de todo cidadão que tem amor pela vida.

Pare e observe por um momento o tráfego na rua. Agora, tente adivinhar, quantos motoristas estão de fato habilitados a conduzir um veículo? E quantos não estão? Não tenho essa resposta. Mas e se jornalistas – ou, melhor ainda, aqueles que têm por dever controlar – visitassem todas as escolas da cidade? Quantas delas oferecem a habilitação a pessoas despreparadas por algumas dezenas de reais a mais? Sessenta por cento?


A Companhia de Engenharia de Tráfego divulgou nesta semana que 1.463 pessoas morreram no trânsito da cidade de São Paulo em 2009. Melhor dizendo: 1.463 morreram em consequência inequívoca do trânsito de veículos. Somem-se a eles os que morrem (ou tiveram a morte apressada) por causa da poluição atmosférica, mas que não são tabulados pela CET. Somem-se a eles as pessoas feridas, os ferimentos irreversíveis, os traumas, as dores familiares, as consequências para a sociedade. Feitas essas somas, concluiremos que, ainda que o número de mortes “em consequência indiscutível do trânsito de veículos motorizados” tenha diminuído, ele continua absurdamente elevado.

A pergunta que se faz então é: em que medida a carnificina provocada pelo trânsito nas ruas da cidade tem a ver com o mau preparo dos motoristas? O combate à corrupção ajudaria a reduzir o número de acidentes e de mortes? Estou absolutamente convicto disso, já que um trânsito humano é um dos pilares da mobilidade sustentável. Obter a habilitação para manipular qualquer arma – seja ela um revólver ou um carro – deveria ser uma das coisas mais difíceis e sérias. Enfim, o oposto da facilidade que o repórter constatou para se renovar a CNH em São Paulo.


Na Alemanha, é difícil e caro conseguir a habilitação. A maioria das pessoas que conheço por aqui reprovaram, pelo menos uma vez, no teste prático. O próprio exame teórico não deve ser menosprezado. No Brasil, as boas intenções de especialistas e legisladores – em parte consolidadas no Código de Trânsito Brasileiro – são desmoralizadas diante dos esquemas ilegais promovidos por autoescolas. Esquemas esses que nem as autoridades veem ou para os quais é feita vista grossa?

Para construir caminhos para a mobilidade sustentável, precisamos nos alimentar diariamente de ideias inovadoras, avaliar experiências em outros lugares e discutir as alternativas. Não raramente somos obrigados a sonhar. Mas, de minha parte, confesso que às vezes bate o desânimo. Que futuro pode-se esperar da mobilidade em uma sociedade, em que a corrupção está infiltrada até mesmo nas instituições que existem para educar ou naquelas (como o Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo, que há anos é alvo de suspeitas e investigações) que existem para prestar serviços ao cidadão? Maior respeito aos pedestres e ciclistas, shared space, redução da velocidade em zonas residenciais… tudo isso fica só no universo das remotas possibilidades, enquanto boa parte das instituições ligadas ao “sistema trânsito” estiverem atreladas à corrupção no Brasil.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 18/03/2010, às 10:21

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A hora de renovar a carta

4 10 2007

Nem vestibular, nem cerimônia religiosa. Para um número crescente dos moradores das grandes cidades feitas para automóveis, o rito que marca mesmo a passagem da adolescência à vida adulta é tirar a carta de motorista. Ah, a carta… Poder entrar no carro e sentir a cidade passar rápido por seu olhar e pelo pedal do acelerador. Escolher para onde ir, sem ter que fazer baldeação. Ir à balada de carro e voltar tarde sem ter de correr para chegar a tempo na estação de metrô ou depender dos ônibus noturnos.

Bom, verdade seja dita: eu mesmo nunca cheguei a pensar que um carro me traria mulheres bonitas ou essa liberdade toda que a propaganda da TV promete. Se cheguei a pensar nisso, foi só por algumas horas até ficar preso em algum engarrafamento por aí. Mas ter conseguido tirar a carta foi demais. Sinal de que a baliza que fiz durante a prova prática foi suficientemente boa para obter a tão sonhada habilitação.

Essas memórias voltaram com força algumas semanas atrás, quando quis renovar a carta. O primeiro desafio foi descobrir o que seria preciso fazer. Tente aqui você também. Eu acho que entendi, mas li de novo e fiquei com a pulga atrás da orelha. Então, preferi confirmar na clínica onde fiz a avaliação médica se deveria ou não fazer o exame psicotécnico.

Depois passei alguns dias me preparando para o exame teórico (que, se realizado no prédio do Detran, sai de graça). Resolvi estudar a partir das informações que já são públicas e da velha apostila da auto-escola que, não sei por que cargas d’água, havia guardado desde aqueles tempos. Foi bom, porque descobri que, de uns tempos para cá, alguém andou inventando placas! Isso mesmo. “Proibido retornar à direita” é uma das que não existiam quando eu era mais jovem. Se bem que, até hoje, acho que nunca vi alguém querendo fazer um retorno à direita…

Outras placas mudaram de nome. Você sabia que, oficialmente, não existe mais “mão dupla”, mas apenas “duplo sentido de circulação”? Ficou mais chique, mas será que a nova expressão vai pegar? Por sua vez, “Veículos lentos usem a faixa da direita” virou “Ônibus, caminhões e veículos de grande porte mantenham-se à direita”. Será que agora os motoristas de caminhão (inclusive os que dirigem rápido demais) entenderão que não podem ocupar todas as pistas da Marginal?

Mas o que mais me chocou foi o artigo 88 de nosso Código de Trânsito Brasileiro (que você pode encontrar aqui). Veja essa: “Nenhuma via pavimentada poderá ser entregue após sua construção, ou reaberta ao trânsito após a realização de obras ou de manutenção, enquanto não estiver devidamente sinalizada, vertical e horizontalmente, de forma a garantir as condições adequadas de segurança na circulação.” Acho que o pessoal da Prefeitura está precisando renovar a carta para compreender esse artigo. Ou você já viu alguma rua ficar fechada aos automóveis até ser pintada e receber todas as placas?

Renovar a carta é um mal necessário ou uma “perda de tempo”, na opinião de muita gente. Para mim, valeu a pena passar pela experiência de renovar a carta. É um belo jeito de conhecer melhor as regras e até virar fã de algumas delas.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 04/10/2007, às 08:28





500? Não, quase isso

20 09 2007

Uma verdadeira enxurrada de notícias interessantes foi publicada na primeira metade desta semana. (Abaixo há uma listinha.) A que chama mais a atenção foi reportagem de capa no jornal O Estado de S. Paulo no último domingo. Nele, lê-se: “Embora a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) costume informar que 500 veículos entram em circulação em São Paulo por dia, o número é bem maior. Tomando por base dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) de janeiro a julho, são emplacados em média 635 carros e 235 motocicletas por dia”, escreveram Rodrigo Brancatelli e Fabiane Leite.

A notícia prossegue, fazendo um alerta para o aumento da emissão de poluentes em São Paulo — que já é a sexta do mundo no quesito pior ar para respirar, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. A Universidade de São Paulo projeta que, em 13 anos, aumentará o nível de diversos poluentes associados ao uso de carros e motocicletas. Dióxido de nitrogênio: +72,6%. Material particulado: +72%. Ozônio: +74%. Números realmente assustadores para quem já sofre de doenças respiratórias ou para quem quer evitar visitar um pronto-socorro nos próximos anos.

No entanto, essa notícia tem um outro lado não devidamente explorado. Como assim a CET transmite à população e aos jornalistas um dado errado? Todas as reportagens sobre trânsito veiculadas pela imprensa nos últimos anos repetiram à exaustão a informação de 500 emplacamentos por dia. E só agora se descobre que o número é, na verdade, 74% maior?! A CET não se pronuncia sobre essa, digamos, “margem de erro”?

Minha hipótese é que informar bem o cidadão nunca foi o forte do poder público no Brasil — e particularmente da CET. Mas, para ninguém sair dizendo que parti para a generalização de um caso isolado, cito outro exemplo. Dia desses procurei os índices de lentidão nos horários de pico da manhã e da tarde. Eu tinha a série de dados até agosto de 2000, mas gostaria de atualizar a tabela. Busquei a informação no site da Companhia. Como eu esperava, não as encontrei. Resolvi telefonar para lá. Perguntaram a mim de onde eu era e me pediram para formalizar o pedido por escrito. Esperei, esperei um retorno. Não me responderam. Depois de outro e-mail, disseram-me que a série havia sido descontinuada. Passeando pela internet outro dia, deparei-me, sem querer, com a informação de que precisava, com todos os números que eu procurava, até 2006. E nos créditos, claro, constava “Fonte: CET”. Era óbvio que só eles podiam fornecer essa informação.

Isso mostra, no mínimo, o pouco caso que o órgão responsável por administrar o trânsito de São Paulo faz para informar bem os cidadãos sobre um dos principais problemas da metrópole paulistana. Qualquer cidade que realmente quer buscar soluções para a mobilidade urbana parte do princípio da transparência e facilitar o acesso a informações básicas. Nos países desenvolvidos, as políticas públicas estão sustentadas sobre um arsenal de estudos e dados públicos disponíveis para os gestores das políticas de trânsito e transporte, para a comunidade acadêmica e para cidadãos em geral, não importando “de onde são”. Mas no Brasil não é assim. Com raras exceções (uma iniciativa na contramão é o projeto São Paulo em Movimento), os administradores públicos parecem preferir esconder informações a torná-las efetivamente acessíveis a todos. E nesse jogo de esconde-esconde e de brincadeira com números, é que a qualidade do ar de São Paulo “caminha para virar emergência de saúde pública”, como escreve o Estadão.


É como se, de repente, os meios de comunicação despertassem para o tema. A começar pela infeliz novidade vinda dos túneis da Linha 4 do Metrô (sim, ela de novo!). Erros de engenharia provocaram um desalinhamento de 80 centímetros dos túneis cavados a partir de pontos diferentes e que deveriam se encontrar. Um desvio de até 10 centímetros seria razoável, disseram os especialistas ouvidos pela Folha de S. Paulo na quarta-feira (19). O mesmo periódico traz ainda — embora sem o mesmo entusiasmo — a notícia do anúncio de construção de uma ciclovia de 15 km no Butantã. É esperar para ver.Também no dia 19, o Jornal da Tarde dá como manchete um título que pode causar estranhamento à primeira leitura: “Trânsito de SP é o que menos mata no País”. São Paulo registra 2,8 mortes por 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é 8,5/100 mil. O JT publica as sensações de um repórter que fugiu da rotina e tentou andar de bicicleta em São Paulo, além de um artigo criticando a falta de investimento em sinalização nas ruas — é o poder público contrariando as leis.

Na terça-feira, ouvi o Milton Jung fazendo entrevistas com especialistas de trânsito na CBN, vi a repórter do Cultura Meio-Dia conversando com um coordenador (sic) do movimento Nossa São Paulo e até o Lobão mediando um debate bem propício para a MTV: muita gente em torno da mesa, certa desorganização e quase nenhum raciocínio desenvolvido em profundidade. Mas valeu a intenção.Por fim, dois artigos na Folha: domingo (16), o empresário Oded Grajew preencheu a página 3 em defesa do Dia Mundial Sem Carro. Três dias depois, Marcelo Coelho revela uma posição paradoxal, um pouco esquiva, mas certamente bastante representativa. Escreve o colunista: “Para resumir, tenho a sensação de ser um pouco otário se participar desses Dias Sem Isto ou Aquilo, e ao mesmo tempo sei que sou otário no meu cotidiano, feito de Dias Com Isto e Mais Alguma Coisa”.

Acompanho o tema na mídia há um tempinho e confesso que me surpreendi com a quantidade de notícias. Seria tudo isso conseqüência do auê em torno do Dia Sem Carro? Ou só porque estamos na Semana Nacional do Trânsito? Ou os fatos em si justificam tudo isso? Por via das dúvidas, continuemos de olhos abertos.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 20/09/2007, às 10:08