Quatro vezes sem carro

24 01 2008

A semana não começou bem. No mercado financeiro, ontem foi o dia em que as expectativas se transformaram em desesperança. Em Frankfurt, tamanho tombo no índice DAX não se via desde os atentados de 11 de setembro de 2001. Em Hamburgo, não muito longe das bolsas de valores, o pretenso Dia sem Carro também não foi bem. A começar pela má divulgação, que não permitiu que muitos – inclusive eu – participassem dos eventos programados das 11 às 18 horas. Pelo contrário: desinformado, sem notar nada de diferente pela cidade, estava na carona de um Golf.

Os jornais especulam se o minguado número de participantes teria sido consequência da chuva. Já os promotores do evento afirmam o que já era esperado. Que, mesmo com pouca gente, o dia valeu a pena para despertar a atenção do público para o problemão que anda junto com os automóveis. Foi quase o mesmo que o Oded Grajew declarou em 22 de setembro, em São Paulo. O que sai dos escapamentos coloca praias do norte da Alemanha em risco de desaparecer dentro de alguns anos.

Mas o Dia Sem Carro em Hamburgo teve três diferenças marcantes com relação ao que vimos em São Paulo, no ano passado. Primeiro, o poder público tomou mesmo a dianteira da organização do evento e parte das atividades puderam ocorrer no filé da cidade, com apoio político do primeiro escalão do governo. Ok, as eleições estaduais estão chegando, mas pelo menos a vontade política para algum compromisso está manifesta. O Dia Sem Carro faz parte de um conjunto de medidas de defesa ao clima a ser implementado entre 2007 e 2012.

Segundo: o principal mote da campanha em Hamburgo foi promover a imagem do trem como meio de transporte ambientalmente correto. Como se pode depreender do slogan “Bahn frei fürs Klima”, a ênfase é não só contra o carro, mas a favor de outra coisa no lugar — no caso, o transporte de massa sobre trilhos. Nada mal para uma cidade de 1,7 milhão de habitantes que está procurando expandir seus 100 km de linha com a inauguração de uma quarta linha de metrô.

E mais: neste dia, o transporte público pôde ser usado na faixa. Graças ao envolvimento das empresas de transporte público que também em São Paulo deveriam se mostrar interessadas em atrair mais usuários para o sistema. Dessa vez foi no inverno. O próximo será na primavera, dia 20 de abril. E depois, no verão e mais adiante no outono também. Quatro vezes por ano, em um esboço de um saudável – e, esperamos, não muito utópico – futuro, em que, voluntariamente, as pessoas optem por outra forma de locomoção.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 24/01/2008, às 14:40

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Os “pontos autos” do Dia Sem Carro

24 09 2007

Não foi dessa vez que o Dia Sem Carro foi de fato incorporado ao calendário dos paulistanos que costumam andar de carro. Apenas duzentas pessoas participaram da caminhada pela Avenida Paulista, que deveria ser o ápice do evento. Os organizadores não esconderam a frustração com a baixa adesão às dezenas de eventos programados para ontem.

A bela exposição da história das bicicletas, montada sobre o Elevado Costa e Silva, foi vista por raros visitantes sob um calor de mais de 30°C. Talvez por má divulgação. Moradores vizinhos ao Minhocão e motoristas mal sabiam do evento, apesar das notícias e propagandas nos meios de comunicação.

No Parque Villa-Lobos, uma apresentação de chorinho foi cancelada momentos antes de os músicos subirem ao palco. O pesquisador Paulo Saldiva simplesmente não deu as caras no Parque Ibirapuera para a decepção de algumas pessoas que estavam lá só para vê-lo. O especialista em poluição atmosférica perdeu a oportunidade de falar na hora certa e no local certo: durante o Dia Sem Carro, o ar do Ibirapuera registrou alta concentração de ozônio, fazendo com que a Cetesb disparasse alerta.

Na Avenida Paulista (que, aparentemente, tinha o tráfego normal para um sábado), manifestantes tentaram, com criatividade, convencer motoristas a desembarcar dos automóveis. No final da tarde, tomaram uma das faixas da avenida para caminhar do Conjunto Nacional ao SESC Paulista. Ao contrário do combinado, os ciclistas — um tanto quanto sectários — não se juntaram à marcha.

Além disso, justamente nesse dia, uma das bicicletadas terminou em confusão com a Polícia Militar. Conforme a jornalista e ciclista Renata Falzoni, que diz ter gravado tudo em vídeo, até gás de pimenta foi disparado contra os ciclistas que estavam no seu devido lugar, ou seja, na rua.

O Dia Sem Carro não teve um ponto alto, mas, paradoxalmente, tristes “pontos autos”: dois graves acidentes de trânsito com vítimas. Um logo pela manhã causou ferimentos em seis pessoas. E o outro levou à UTI um ex-jogador de futebol. O congestionamento nas Marginais também se fez presente durante alguns momentos do Dia Mundial Sem Carro. Observando as vagas de estacionamento em seu prédio, um amigo meu ironizou: “É o dia sem carro na garagem”.

Por volta das 17h30, o empresário Oded Grajew discursou para poucos, frisando que o movimento era apartidário. Logo em seguida, o secretário do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, não resistiu e também subiu à tribuna. Avaliou que o Dia Sem Carro de 2007 foi melhor que o do ano passado e que o próximo será ainda melhor. Na opinião dele (e na minha também), o Dia, mesmo com todos os problemas, valeu a pena.

Valeu a pena, porque mostrou que alguém — pelo menos alguém — está incomodado e preocupado com os problemas relacionados ao trânsito em São Paulo. Valeu a pena, porque jogou uma luz para a continuidade desse tipo de iniciativa nos anos que vêm. Valeu a pena, porque mostra que sempre é melhor tentar amadurecer nossa consciência cidadã do que esperar que uma situação crítica de congestionamentos e de poluição atmosférica bata à nossa porta.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 24/09/2007, às 13:20





Minha agenda para o dia 22

21 09 2007

São dezenas de eventos ocorrendo simultaneamente em diferentes pontos da cidade durante o Dia Mundial Sem Carro. Com essa rica programação e confiando na previsão de que não choverá e a temperatura ficará entre 19°C e 31ºC, fica até difícil escolher o que ver. Mas eu montei uma agenda para esse sábado. Sugiro que você veja aqui o que combina mais com seu perfil e também participe!

O despertador tocará cedo. No comecinho da manhã, quero conferir a exposição “Pedalando para o futuro” no Elevado Costa e Silva, vulgo Minhocão. E quero espezinhar bastante aquela via, que é o símbolo-mor do modelo de cidade feita para carros e contra pessoas.

Às 11 horas, gostaria de ouvir o que tem a dizer sobre mobilidade urbana Eric Ferreira, do Instituto de Energia e Meio Ambiente. Ele dará uma aula pública na entrada do Parque Villa-Lobos. A verdade é que estarei lá com certa dor no coração, já que também gostaria de assistir à apresentação do professor Ladislau Dowbor, que acontecerá simultaneamente no Minhocão.

Claro que meu fim-de-semana não fica bom sem um passeio pelo Parque do Ibirapuera. Pretendo chegar lá por volta do meio-dia e meia, também para ouvir o médico Paulo Saldiva e, em seguida, ver o grupo de artistas que coordenará o psicodrama da cidade, programado para acontecer a partir das 15h30. Por ali, pretendo fazer uma pausa, tomar uma água de coco e comer um lanche, já que ninguém é de ferro.Às 16h30, quero participar da caminhada pela Avenida Paulista. Entre tudo o que está programado para acontecer, acho a caminhada o evento mais democrático. Fora que caminhar pela Paulista sempre tem um quê de reinvidicação, de ocupação simbólica de uma via cuja marca registrada é o vaivém de carros. É um importante ato para nos lembrar de que o Dia Mundial Sem Carro é, sobretudo, uma mobilização internacional de pessoas por mais qualidade de vida nas grandes cidades.

O fim do dia, penso em passar na Praça do Ciclista – que, apesar de ser assim chamada, na verdade, nem é uma praça (mas um canteiro central) e nem tem oficialmente esse nome. Ela fica na Avenida Paulista, entre a Rua da Consolação e a Rua Bela Cintra. Estão planejadas uma sessão de vídeos e, em seguida, uma festa, a partir das 20 horas. Se tudo ocorrer bem, o Dia Sem Carro tem mais é que ser festejado mesmo.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 21/09/2007, às 16:31





É sábado, mas é hoje também

20 09 2007

O Dia Mundial sem Carro acontece no sábado, 22. Mas hoje à tarde ocorrerá, na prática, a inauguração simbólica do evento. Chama-se Desafio Intermodal essa espécie de competição entre diferentes meios de transporte.

Usuários de carro, bicicleta, ônibus, trem ou metrô devem partir às 18 horas da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini em direção ao Viaduto do Chá. Repito: será às 18 horas, então já se pode imaginar quem perderá e quem sairá ganhando. Ainda bem que a graça do Desafio nem é seu resultado final, mas poder compartilhar diferentes percepções da cidade durante o caminho.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 20/09/2007, às 10:34





É sábado!

16 09 2007

Você já imaginou como seria São Paulo sem carros? O que seriam de todos os complexos viários dessa cidade? A 23 de Maio conseguiria suportar aquele silêncio todo? E as Marginais poderiam virar um grande calçadão? Sinceramente, eu mal consigo imaginar. Mas o pessoal do movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade não só pensou nisso, como também quer que nos libertemos do automóvel pelo menos por um dia no ano. Esse dia é sábado que vem, dia 22.

A idéia do Dia Mundial Sem Carro não é nova. Em São Paulo, tentou-se fazer o mesmo em outros anos, mas o evento não colou: sempre teve poucos adeptos, pouco impacto e pouca visibilidade. Pelo que tudo indica, nesse ano será diferente. Mais de 300 organizações e centenas de cidadãos já aderiram à mobilização. Não se sabe bem se a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) está entre os apoiadores, visto que o órgão se recusou a interditar o tráfego de veículos em quase todas as vias solicitadas pelas lideranças do movimento.

No Conjunto Nacional, nos parques Villa-Lobos e Ibirapuera, sobre o Minhocão e em outros locais públicos ocorrerão dezenas de atividades, que devem culminar com uma caminhada pela Avenida Paulista por volta das 16 horas. A programação completa das atividades ainda está para ser divulgada.

Das reuniões preparatórias para o Dia sem Carro têm participado pessoas dos quatro cantos da cidade, de diversas profissões e com as mais diferentes visões sobre o uso do automóvel. Há cidadãos moderados, que vêem problema apenas no abuso do carro no dia-a-dia. Para esses, congestionamentos afligem, mas o modo de vida atrelado ao uso do automóvel não chega a incomodar. Entusiastas das bicicletas, fãs de ônibus elétricos, defensores de melhores calçadas também têm comparecido regularmente aos encontros semanais. E há quem seja radicalmente contra uma máquina que, para eles, não gera benefício nenhum.

O 22 de setembro será resultado dessa mistura de idéias, dessa pluralidade de visões. No evento, deverá prevalecer o estilo informativo e pedagógico sobre ímpetos combativos e moralizantes. Por bem, o movimento não terá a pretensão de encaminhar às autoridades do município nenhum projeto apressado para a questão dos transportes. De fato, o maior ganho que o Dia Sem Carro pode trazer para São Paulo é mesmo cumprir seu objetivo imediato: fazer com que muita gente — inclusive você — abandone o carro no primeiro dia da primavera e sinta a cidade de um outro jeito.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 16/09/2007, às 14:55