Pegar ônibus e levar o dobro do tempo?

6 03 2008

É irracional andar de ônibus em São Paulo. Isso é o mínimo que se pode concluir, depois de ler Carros andam 2 vezes mais rápido que ônibus* no jornal O Estado de S. Paulo desta quinta-feira. Tirando quem tem tempo sobrando, quem está umbilicalmente ligado à causa ambiental ou quem é altruísta, ir de carro é, dada a economia de tempo, preferível a tomar ônibus. Ou então ir de bicicleta, com a qual também se vai mais rápido, conforme demonstrado mais de uma vez pelo desafio intermodal. Talvez a grande perversidade embutida nesta notícia é que quem não tem carro deverá continuar sonhando em ter um até poder comprá-lo – como o cortador de roupa Marcelo Xavier de Souza, ouvido pela reportagem. Melhor operação dos ônibus na região metropolitana? Nem se ouve falar nisso… A falta de atratividade do principal componente do sistema de transporte público na cidade é mais um elemento para desconfiar de que 2008 será um ano melhor para o trânsito.

Falando em trânsito, quantas vezes você já leu, em notícias de jornais e na internet neste ano, que São Paulo bateu mais um recorde de congestionamento? Juro que tentei contar, mas já perdi a conta. Por isso, também recomendo a urgente leitura do editorial Recordes de lentidão na mesma edição do Estado. Lá se pode ler algumas verdades sobre o papel da Companhia de Engenharia de Tráfego em nossa cidade. O texto cobra coerência do atual presidente da CET, Roberto Scaringella, e associa o caos diário na cidade com a progressiva perda de capacidade de planejamento da companhia.

Anos de ineficiência do transporte público em São Paulo também ajudam a entender o sucesso de vendas de automóveis no Brasil. Baseada em boa parte na venda dos modelos “populares” (os mais acessíveis a boa parte das famílias de classe média e baixa, que suaram e esperaram muito até poder ter um), a farra da indústria automotiva parece não ter hora para acabar. Ou melhor: talvez comece a murchar quando acabar a atual fase de crescimento econômico do País. Até lá, os Detrans terão muito trabalho para emplacar veículos. Eu gostaria de saber quais outros setores de nossa economia estão podendo comemorar altas tão expressivas no faturamento, como as multinacionais que vendem carros. Ou então, em quais outros países do mundo, as vendas de automóveis vão tão bem como no Brasil. Mais detalhes na notícia da Folha Online.

Também nesta semana, a Associated Press divulgou que acidentes de trânsito custam mais que o dobro do que os congestionamentos em cidades estadunidenses. Conduzida sob encomenda da indústria automobilística, a pesquisa afirma que o americano perde, em média, mais de mil dólares por ano com as batidas (sem contar as 43 mil mortes anuais nas vias). A pesquisa recomenda que os legisladores americanos dêem mais prioridade à segurança em projetos de transporte e aumente o rigor das punições a quem dirige bêbado, por exemplo.

* Carros andam 2 vezes mais rápido que ônibus

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 06/03/2008, às 11:21





É muito car(r)o!

24 01 2008

Estou bastante satisfeito. Acabo de receber a edição n° 115 da Revista dos Transportes Públicos, na qual consegui publicar um artigo científico. Aliás, meu primeiro deste tipo, ainda conseqüência de um ano de pesquisa sobre o pedágio urbano. O mesmo caderno traz um artigo que mostra como as despesas com transporte evoluiu no Brasil, nas últimas duas décadas. É bem interessante olhar os números compilados por dois pesquisadores do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada (IPEA), a partir de bases de dados públicas. Eles ilustram, por exemplo, que as famílias que vivem nas regiões metropolitanas brasileiras gastam mais com seus carros do que com educação. Está bem que nós, brasileiros, não gastamos muito com educação. Mas mesmo assim, é um dado que espanta. Ou não?

Análises deste tipo são sempre bem-vindas, já que nossos deslocamentos abocanham parte considerável do orçamento doméstico, ficando atrás apenas de habitação e alimentação. Aliás, é bom que os desejosos de um planeta sustentável saibam que só em gasolina se gasta mais de 30% de todas as despesas com transporte!

Porém, ainda mais cativante – e ao mesmo tempo triste – é ver como os gastos com transporte urbano aumentaram em quase todas as regiões metropolitanas no Brasil. E sabe por quê? De um lado, o automóvel é um sonho de consumo que tem se realizado para muitos brasileiros, especialmente para os mais pobres. As despesas com veículo próprio cresceram bastante na virada do século e devem continuar de vento em popa, já que agora podemos sair dirigindo um automóvel e pagar por ele em 60, 72 ou 84 prestações. Você acha que já tem carro demais em nossas ruas? Prepare-se!

De outro lado, os ônibus exigem parcelas cada vez maiores de nossos orçamentos. Motivo: o preço das tarifas praticamente dobrou entre 2000 e 2005. E claro, os reajustes foram muito maiores do que o aumento dos salários, da inflação e do nível de qualidade dos serviços oferecidos. Ou seja, paga-se muito por muito pouco.

No meio do caminho, ficamos nós, preocupados com um mundo onde se mover é necessário, mas se mover desse jeito é problemático demais.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 22/11/2007, às 16:19





Desejos de Ano Novo

10 01 2008
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No último post, desejei um Feliz Natal, mas deixei de desejar um Feliz Ano Novo. Desculpem, falha de memória e falta de esperança de minha parte. Poderia eu ter sido menos pessimista após ler, dias antes do reveillón, os resultados da nova pesquisa de imagem do transporte público na Regiao Metropolitana de São Paulo?

Dificilmente. Quem mora na metropole paulistana está cada vez mais incontente com o transporte público, destaca a última pesquisa da Associação Nacional de Transportes Públicos. Na opinião dos 2.300 entrevistados, o metrô continua sendo o melhor meio de transporte, mas pela primeira vez a porcentagem de satisfeitos com o serviço ficou abaixo da marca de 90%. O que provocou mais descontentamento? Anos seguidos de trens superlotados nos horários de pico, a expansão em ritmo de tartaruga em uma cidade do tamanho de um mamute ou a superexposição na mídia dos erros de engenharia que provocaram um grande acidente em janeiro de 2007?

A pesquisa não diz. Mas, seja o que for, o atual índice de satisfação com o metrô (85%) ainda é duas vezes maior do que o dos ônibus municipais (42%). Os investimentos na renovação da frota realizados durante a gestão do prefeito Gilberto Kassab não conseguiram conter a crescente insatisfação dos usuários com o serviço. A porcentagem de ótimo/bom dos ônibus cai ano após ano, como mostra a tabela acima. O que significa que já passou da hora de introduzir melhorias estruturais no sistema (racionalização das linhas, melhor nível de conforto, mais segurança na viagem, etc.) É angustiante ter de constatar que justamente o meio de transporte que atende a maioria da população é o pior avaliado.

Os trens da CPTM e o serviço de ônibus intermunicipal agradam apenas a metade dos entrevistados. Em 2005, os principais motivos de queixa de quem viajava sobre os 270 km dos trilhos metropolitanos eram: “passageiros mal educados/abusados (69%), trem sempre lotado (66%), trem sujo e mal conservado (63%)”. Não é uma minoria que reclama das condições dos trens, mas um número bastante expressivo de seus usuários.

A pior avaliação do transporte público não sinaliza apenas que muito pode ser feito pelos meios coletivos. Em tempos de queda do desemprego e melhoria do nível de renda da populacao, esta má avaliação significa, mais cedo ou mais tarde, mais carros na rua. E, por conseqüência, mais congestionamentos, acidentes e poluição. De todo esse quadro, minha mágoa, minha aflição e, novamente, minhas desculpas.

Mas, para começar 2008 direito, vou pular sete ondinhas pensando em mobilidade urbana. O que desejo à nossa metrópole na virada do ano é o seguinte:

  1. Levar a sério o planejamento em transportes: participação da sociedade, embasamento de propostas com estudos confiáveis, cumprimento à risca dos planos pelo poder público
  2. Proteger a vida é o objetivo maior. Nas ruas, prioridade aos pedestres, aos ciclistas e aos usuários de transporte coletivo (nesta ordem, como manda o código de trânsito, aliás)
  3. Calçada esburacada é uma agressão à cidadania (e, principalmente, a idosos e portadores de deficiências físicas). Criar um mecanismo eficiente para a rápida adequação das calçadas da cidade.
  4. Melhorar o acesso à informação sobre mobilidade urbana, já que este é um dos mais graves problemas de São Paulo. Obrigar órgãos públicos, agências e empresas de transporte a publicar dados regularmente e prestar contas à população.
  5. Menor tolerância com os veículos mais poluidores: questão de saúde pública
  6. Linhas de ônibus mais racionais
  7. Implantação de projetos de transporte urbano/interurbano como catalisadores do desenvolvimento local

A lista poderia continuar, mas só são sete ondinhas, né? Um feliz 2008 a todos nós!


Em tempo: a mesma ANTP programou para 14 de fevereiro o evento “São Paulo combatendo o congestionamento: pedágio urbano e outras medidas”. Lamentavelmente, entrar no evento custa R$ 130, preço que faz da participação em um debate importante para nossa cidade praticamente um luxo. Estarão em pauta o nosso velho (e, ao mesmo tempo, pouco) conhecido rodízio de veículos, a viabilidade de introdução do pedágio urbano em São Paulo e experiências internacionais.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 10/01/2008, às 16:56





É muito car(r)o!

22 11 2007

Estou bastante satisfeito. Acabo de receber a edição n° 115 da Revista dos Transportes Públicos, na qual consegui publicar um artigo científico. Aliás, meu primeiro deste tipo, ainda conseqüência de um ano de pesquisa sobre o pedágio urbano. O mesmo caderno traz um artigo que mostra como as despesas com transporte evoluiu no Brasil, nas últimas duas décadas.

É bem interessante olhar os números compilados por dois pesquisadores do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada (IPEA), a partir de bases de dados públicas. Eles ilustram, por exemplo, que as famílias que vivem nas regiões metropolitanas brasileiras gastam mais com seus carros do que com educação. Está bem que nós, brasileiros, não gastamos muito com educação. Mas mesmo assim, é um dado que espanta. Ou não?

Análises deste tipo são sempre bem-vindas, já que nossos deslocamentos abocanham parte considerável do orçamento doméstico, ficando atrás apenas de habitação e alimentação. Aliás, é bom que os desejosos de um planeta sustentável saibam que só em gasolina se gasta mais de 30% de todas as despesas com transporte!

Porém, ainda mais cativante – e ao mesmo tempo triste – é ver como os gastos com transporte urbano aumentaram em quase todas as regiões metropolitanas no Brasil. E sabe por quê? De um lado, o automóvel é um sonho de consumo que tem se realizado para muitos brasileiros, especialmente para os mais pobres. As despesas com veículo próprio cresceram bastante na virada do século e devem continuar de vento em popa, já que agora podemos sair dirigindo um automóvel e pagar por ele em 60, 72 ou 84 prestações. Você acha que já tem carro demais em nossas ruas? Prepare-se!

De outro lado, os ônibus exigem parcelas cada vez maiores de nossos orçamentos. Motivo: o preço das tarifas praticamente dobrou entre 2000 e 2005. E claro, os reajustes foram muito maiores do que o aumento dos salários, da inflação e do nível de qualidade dos serviços oferecidos. Ou seja, paga-se muito por muito pouco.

No meio do caminho, ficamos nós, preocupados com um mundo onde se mover é necessário, mas se mover desse jeito é problemático demais.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 22/11/2007, às 16:19