Idéias para nossa cidade

3 04 2008

Um amigo me perguntou se eu participaria do fórum organizado pelo Movimento Nossa São Paulo, que vai acontecer entre 15 e 18 de maio. Eu gostaria muito, mas não poderei. Na verdade, eu gostaria mesmo é que eventos como esse tivessem um vínculo direto com o poder público. As subprefeituras não foram criadas para estreitar os laços com os cidadãos? De qualquer forma, pensei em apresentar algumas idéias ao fórum.

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1) Garantia, por lei, de um determinado estoque de área pública verde por área urbanizada em cada bairro da cidade. Caso contrário, os cidadãos estariam livres para pegar picaretas e quebrar estruturas de asfalto e concreto das ruas para transformá-las em “corredores verdes” (onde talvez haja espaço só para o trânsito local, em horários limitados). Eu não acho isso radical demais. Acho que, quando o Estado não faz, as pessoas deveriam ter o direito de fazer alguma coisa em nome de sua própria qualidade de vida. Além disso, árvores nunca são demais em uma cidade.

2) Criação do “Prêmio Barbeiragem do Ano” no site oficial da Prefeitura. Quem não tem medo de se locomover em São Paulo, que dê o primeiro clique! Câmeras de fotografia, celulares e, claro, câmeras de vídeo podem ser usadas para registrar a imprudência nas ruas e o quão longe estamos de um trânsito que assegure uma convivência pacífica nas ruas. Empresas poderiam ser convidadas para dar um prêmio em dinheiro ao autor do vídeo ou da foto mais votada pelo público, via internet.

3) Organização de um apitaço na frente do shopping Bourbon, o mais novo insulto às leis urbanísticas de São Paulo. Esse tipo de desrespeito à cidade é recorrente. Cinco anos atrás, era a Daslu o megaempreendimento que desrespeitava as normas de planejamento da cidade, como denunciava o professor da USP Cândido Malta Filho: “A Daslu é um caso emblemático para o futuro de São Paulo. Com a sua regularização ou fechamento administrativo por ilegalidade, está em jogo se prevalecerá o planejamento democrático aprovado em lei pela Câmara Municipal ou a vontade de poderosos cidadãos que querem que as leis vão se dobrando a sua vontade.” (Folha de S. Paulo, em 07/02/2003)

4) Ampliação do número de pontos de monitoramento da qualidade do ar na cidade e apoio a uma melhor divulgação dos resultados. São muito poucas as estações da Cetesb em uma cidade tão grande como São Paulo. Lembremos que, por trás do termo “poluição do ar”, há diversas substâncias tóxicas que precisam ser controladas mais de perto.

5) Possibilidade de punições — dentre elas, perda de mandato — a prefeitos e secretários municipais que “tiram da cartola” idéias não apresentadas em plano de governo. Não dá mais para aceitar a brincadeira de política que existe no Brasil. Os eleitores precisam saber o que seus eleitos vão fazer pelo bem público. O projeto de lei defendido pelo Movimento Nossa São Paulo e aprovado pelos vereadores paulistanos já representa um bom avanço nessa direção.

6) Para autoridades municipais e estaduais, abertura de um novo e extenso curso: “As diferenças entre coisas e pessoas — Como lidar com famílias em condições subnormais de moradia com o mínimo de dignidade?” As imagens do episódio na favela do Real Parque registradas pela equipe do Favela Atitude três meses atrás devem tirar as dúvidas de quem acha tal curso desnecessário. O último episódio dessa história pode ser conferido aqui.

7) Inversão das prioridades dos “marronzinhos”. Se é verdade que a CET é preocupada com a mobilidade na cidade como um todo e tem a segurança no trânsito como seu objetivo máximo, então as multas mais freqüentes deveriam ser para motoristas que mudam de pista sem dar seta, que páram ou estacionam sobre a faixa de pedestres ou abusos desse tipo. Fica a pergunta: você conhece alguém que já foi multado por mudar de faixa sem sinalizar?

8 ) Ínicio da organização de um movimento popular (mas popular mesmo!) para a melhoria do transporte público — verdadeira solução para os transportes — por meio da redução dos investimentos na expansão do sistema viário de São Paulo. Pelo jeito, a procura pelo transporte público e sua melhoria só acontecerão quando o trânsito for impossível. Mais corredores de ônibus (que diminuem o espaço disponível para os carros) e mais restrições à circulação e/ou ao estacionamento de automóveis particulares já!

E você? Também já ficou sabendo do fórum? Tem idéias para aumentar essa lista?

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 08/04/2008, às 6:59

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É verdade, está vermelho!

1 11 2007

Verde: siga adiante. Amarelo: atenção. Vermelho: pare! Sério mesmo: tem que parar!! Parece que os motoristas paulistanos se acostumaram a ignorar o sinal, nos primeiros segundos de rubro. O farol está fechado, mas os carros continuam passando na maior cara-de-pau.

Com isso, vamos nos acostumando um quarto tempo do semáforo, que faz mudar o sentido de todas cores. O verde significa, na prática, “pé na tábua”. O amarelo, “vai, que é sua”. Os primeiros quatro ou cinco segundos de vermelho representam um “pode ir, que ainda dá”. E só então, vem o vermelho mesmo. “Está fechado. Mas, se não vier nenhum carro e se não tiver guarda à vista, acelere.”

Nesses tempos em que a pressa se socializou, ninguém espera até o próximo verde. Todo mundo pode se espichar para ver se o sinal da rua perpendicular já ficou amarelo. Em caso afirmativo, já comece a acelerar. Você logo verá sinal verde, mas por que deixar para depois o que você já pode fazer agora?

Quebrar a regra do semáforo, no entanto, não significa apenas deixar de observar uma norma cristalizada quase no mundo inteiro. Em primeiro lugar, significa submeter os pedestres a uma condição de insegurança extrema e, assim, transformar as ruas em um espaço privativo daqueles que mais podem. Apertar o cerco contra quem desobedece ao sinal vermelho é uma das principais atitudes que autoridades poderiam tomar para proteger a vida e resguardar o respeito que deveria vigorar em nossas ruas.

Em Hamburgo (segunda maior cidade da Alemanha), a não obediência ao vermelho provocou nove mortes, ferimentos graves em 137 pessoas e leves em 1376 cidadãos nos últimos três anos. Ao todo, foram 56 mil notificações de desrespeito ao sinal. Diante desse quadro, uma das lideranças do sindicato dos policiais de trânsito propõe pena mais rígida: “Quem mais de uma vez furar o sinal que está vermelho por mais de um segundo deveria realizar um teste psicológico”, defende Joachim Lenders. O policial observa que as atuais multas de € 50 e € 125 parecem não assustar mais os motoristas.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 01/11/2007, às 09:49