Transporte e exclusão: São Paulo capitulou

27 03 2011

As leitoras deste blog que comentaram o último post estão cobertas de razão: nada muda só na base de conversa. Mais do que persuadir, é preciso fazer. Fazer significa melhorar e priorizar o transporte coletivo e incentivar modos de transporte não-motorizados. Daí ser absolutamente incompreensível o que acontece em São Paulo neste exato momento. Enquanto a prefeitura aumenta de uma vez só em 11% a tarifa dos ônibus (mais ou menos o dobro do percentual da inflação), o governo estadual anuncia que vai frear o ritmo de expansão do metrô – que já opera no limite do limite da capacidade e viveu momentos de puro sufoco em 2010. Diante disso, o projeto de expansão de ciclovias e o festivo anúncio do ônibus movido a hidrogênio soam piada.

Enfim, estamos no caminho certo de mais congestionamentos nas ruas, mais transtornos operacionais na rede metroviária, mais poluição, mais problemas de saúde, mais problemas ambientais… E mais exclusão para aqueles que não puderem recorrer à alternativa de adquirir um meio de transporte individual e para quem terá de desembolsar 3 reais para cada uma viagem nos ônibus, nas condições que conhecemos. A exclusão causada e promovida por falta de opções de transporte virou recentemente manchete de jornal na Alemanha: “Desempregados e sem dinheiro para se locomover”, saiu no Tageszeitung. Pois é: até na Alemanha, cresce a preocupação com gente com condições cada vez mais limitadas de sair de casa ou do bairro onde mora.

A reportagem conta a história de Anke Irmer, 42 anos, mãe de quatro criancas e moradora de uma pequena vila, no norte do país. Em 2003, Anke perdeu seu emprego fixo como vendedora. Depois de várias tentativas – leia-se vários dias investidos na leitura das páginas de classificados, na redação de currículos e em uma outra entrevista de emprego – ela desistiu. Assim como outras milhares de pessoas, Anke nao consegue mais um contrato de emprego “normal”. É considerada muito velha para a maioria das vagas.

O marido recebe do Estado uma pensão, depois que sofreu um acidente de trabalho. Somando todos os rendimentos, a família conta com menos de 2.500 euros (5.700 reais) por mês. Isso dá quase dez vezes mais que a teórica linha de pobreza de 2 dólares por dia. Mas, para os padrões alemães, a família Irmer é considerada pobre.

Anke precisa fazer malabarismo para fechar o mês sem se endividar. Na maioria das vezes, o truque não funciona, e a família fica no vermelho. O que está em jogo, porém, não é apenas a capacidade de adquirir bens materiais, mas principalmente a possibilidade de continuar participando plenamente da sociedade.

Na pequena vila onde moram, há pouco o que fazer e o transporte público, quando existe, é oferecido em horários muito restritos. Mas como manter um carro? Como financiar a mobilidade, quando o dinheiro nao dá? Anke e sua família bem que tentam. Marvin, o filho mais velho, de 13 anos, adora jogar futebol. Para chegar ao clube, precisa pedalar cinco quilômetros e meio. Sua irmã, Sarah, tem uma vez por semana aula de flauta, a sete quilômetros de distância. Sarah também usa a bicicleta para vencer essa distância que, convenhamos, é de gente grande. Só os caçulas, de 7 anos, costumam ser levados à ginástica pela mãe, de carro.

A reportagem, enfim, ilustra como transporte e inclusão social caminham juntos. O transporte coletivo de qualidade e barato tem uma função fundamental ao conectar localidades e ao diminuir distâncias para postos de trabalho e serviços básicos para amplas parcelas da população. Só mesmo no privilegiado Brasil, onde me contaram que não existe exclusão social, podemos tornar o acesso ao transporte público cada vez mais difícil. E ainda atirar bala de borracha à queima-roupa em manifestante que diz alguma coisa contra…

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 27/01/2011, às 17:40

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Exclusão em movimento

22 05 2008

Na semana passada, reclamei do preço do metrô de São Paulo. Pela extensão da rede e pelo poder aquisitivo dos trabalhadores paulistas, o preço do bilhete é amargo mesmo. Mas faltou ver o lado bom do metrô de São Paulo. Apesar dos 3 milhões de passageiros diários, o metrô mantém a imagem do mais seguro, confortável e confiável meio de transporte de nossa metrópole. E merece.

Em comparação com terminais de ônibus, as estações do trem metropolitano ou mesmo garagens e estacionamentos de automóveis, as estações de metrô apresentam-se bem mais limpas e organizadas. O usuário costuma encontrar facilmente um funcionário para uma informação ou uma ajuda qualquer. Embora faltem elevadores em estações das linhas mais antigas, escadas rolantes são bem distribuídas e quebram um galho para muita gente. As composições devoram as distâncias entre as estações em velocidade de causar inveja em qualquer motorista durante o dia. Às vezes, as próprias estações (como a Alto do Ipiranga, uma das últimas a serem inauguradas) são respeitáveis exemplos de bom gosto arquitetônico. Até há pouco tempo, eu mesmo estaria dizendo que se há algo que funciona em São Paulo, é nosso metrô.

Na Europa Central, a realidade é outra: o transporte urbano sobre trilhos representa, na opinião de muitos, um lugar da segregação. Ao contrário das cidades brasileiras — onde a exclusão está demarcada territorialmente — os trens metropolitanos de Berlim ou Hamburgo (foto) se identificam com grupos de escolares e de jovens ouvindo MP3 em alto volume, com bêbados, com migrantes, com marginais, com desempregados e com todos aqueles que não têm alternativa no dia-a-dia. É comum ter de passar por túneis escuros e aguardar em plataformas estreitas pelos trens com janelas alvejadas por vândalos. Pessoas com deficiências e idosos são os que mais sofrem em estações construídas ao sabor de uma centenária salada de épocas e estilos.

Daí não ser surpresa saber que os meios públicos transportam apenas 8% dos alemães. A bicicleta responde por 9%. Aproximadamente 23% das viagens são feitas a pé. E os meios motorizados individuais respondem pelos 60% restantes. O automóvel é o meio de transporte favorito em Roma, em Londres e até na verde Copenhague.

Portanto: deve-se mesmo lamentar que o bilhete de metrô em São Paulo seja um dos mais caros do mundo. Por outro lado, não basta que o metrô seja barato e não basta que trilhos serpenteiem por toda a cidade. A conquista do espaço público por meios de transporte públicos passa também por uma queda-de-braço entre símbolos. Quase no mundo inteiro, o ícone do automóvel e de seu poder é ainda mais forte do que o discurso da mobilidade sustentável.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 22/05/2008, às 10:14