Poluição veicular: lista já!

6 10 2009

mao

O Ministério do Meio Ambiente publicou na semana passada uma relação dos carros mais poluentes vendidos no Brasil. 250 modelos ano 2008 receberam uma nota verde (com base nas emissões de monóxido de carbono, hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio) e uma nota para a emissão de gás carbônico. Ambas são apresentadas em uma escala de zero a dez, como na escola. Consumidores conscientes têm, além do preço e das informações (às vezes bastante suspeitas) fornecidas pelos fabricantes, as duas notas divulgadas pelo Estado para considerar na hora de avaliar um veículo.

Como todo ranking, a lista do Ministério também é uma simplificação e, portanto, deve ser lida com cuidado. Poderíamos discutir aqui a metodologia utilizada para o cálculo da Nota Verde e questionar por que quesitos ficaram de fora dessa lista. No jornal de domingo e em seu blog, Marcelo Leite aponta que a relação não considera o ciclo completo do CO2 na natureza. Ele faz coro com especialistas que dizem que o mais correto seria diferenciar o CO2 emitido do carro a álcool do CO2 produzido pela queima de combustíveis fósseis. Mas o fato é que, mais de meio século após o primeiro automóvel ter saído de uma fábrica no Brasil, foi dado o primeiro passo e o debate lançado. Na verdade, um primeiro passo que até poderia ser considerado tímido, mas sempre em frente…

Na Alemanha – país que concentra as matrizes de Volkswagen, BMW, Mercedes-Benz, Porsche – essa lista existe desde 1989, quando os produtores ainda mal sabiam quanto os carros emitiam. A série histórica dessa lista mostra que os dez carros mais verdes da Alemanha emitiam 114 gramas de CO2 por quilômetro rodado em 2006. Hoje, os dez do topo da lista emitem em média 100 gramas.

Responsável pelo ranking é a organização não-governamental VCD, que teve de enfrentar não só a severa relutância de fabricantes em fornecer informações, como também a oposição de ecologistas, que viam mais males do que bens com a publicação da lista. Mas a lista começou a ser divulgada todo ano e os métodos de aferição do “balanço ambiental” foram aperfeiçoados, à medida que a ciência trazia novas descobertas sobre o impacto dos automóveis na natureza e no ser humano.

A pontuação final resulta da combinação de quatro critérios, combinados com pesos diferentes. Um dos critérios avaliados pela VCD é o nível de ruído emitido pelos automóveis – aspecto ainda não incorporado no Brasil. “Do ponto de vista estatístico, morrem mais alemães em consequência da poluição sonora gerada pelo tráfego do que em acidentes de trânsito em cidades”, justifica Axel Friedrich, ex-diretor do Umweltbundesamt, equivalente a um Ibama alemão.

Hoje até representantes do alto escalão da indústria dão depoimentos favoráveis à lista. A Volkswagen, por exemplo, soltou uma nota à imprensa comemorando resultados (nem tão bons assim) de seus produtos exatos dezoito minutos depois de a VCD divulgar o próprio ranking. Já no Brasil, a indústria automobilística pede cautela. Declarou um representante da Anfavea à Folha de S. Paulo: “Seria mais adequado aguardar”. Cinquenta e três anos já passaram e querem só mais um instantinho? Será que o planeta pode esperar? Quanto mais querem faturar e empurrar com a barriga a questão ambiental? Lista sim e lista já!

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 24/09/2009, às 17:15





Trem bão, ônibus ó-te-mo

1 09 2008

Quando este blog completar seu primeiro aniversário, deverei fazer uma breve viagem até Kassel, bem no meio da Alemanha. A distância de Hamburgo a Kassel é equivalente à de São Paulo a Ribeirão Preto, algo em torno de 320 quilômetros. Para superá-la, comprei um tíquete de trem, que, por um momento, tranqüilizou minha consciência ambiental com um gráfico.

As barrinhas acima, que me foram mostradas quando comprei o bilhete pela internet, mostram que minha viagem de trem compensa. De trem, economizarei energia, contribuirei menos para o aquecimento global e gerarei relativamente só um nico de material particulado (hoje em dia, o grande vilão da vida em grandes cidades). De acordo com a companhia de trem, minha viagem produzirá 40,9 kg a menos de CO2 do que de carro e 84,1 kg a menos do que de avião.

Será que compensa mesmo? George Monbiot, em um livro que em pouco tempo virou um clássico para quem quer discutir a fundo o aquecimento global*, tira a áurea verde do trem. Ele confirma que, se num passe de mágica, todo o Reino Unido abandonasse o carro e andasse de trem ou de ônibus, as emissões de carbono seriam reduzidas em 90%. Mas o mais impressionante vem agora: conforme os dados que Monbiot tomou do governo britânico, uma viagem de ônibus emite ainda menos CO2 do que de trem. Não deve ser à toa que ônibus não foi um meio de transporte considerado no balanço energético que vi quando comprei a passagem.

Mas pelo preço vale a pena? Também tenho lá minhas dúvidas. Dúvidas essas que ficam cada vez maiores com os planos de privatização dos trens alemães, que fazem a companhia querer alçar lucros cada vez maiores. O balanço do primeiro semestre já foi bem positivo para a empresa em comparação com o mesmo período do ano passado, mas mesmo assim o presidente Hartmut Mehdorn quer mais. Foi anunciado para o fim do ano um novo aumento de preços das tarifas, ajudando a deixar para trás a longa era do transporte – inclusive o de longa distância – como serviço público.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 28/08/2008, às 02:39