É pique!

12 09 2008

É, minha amiga, meu amigo… Este blog, quem diria, comemora neste sábado seu primeiro aniversário aniversário. Aliás, sopra velinha junto com o autor do blog e, mais importante ainda, no mesmo dia em que o atual Plano Diretor da cidade de São Paulo foi publicado. Mas o Plano é assunto para outro dia. Retomarei hoje o assunto que mais me animou nesses últimos doze meses de posts.

Sexta-feira participei de uma excursão a Bohmte. Bohmte — nem os alemães sabem disso — é a única cidade alemã que implantou o conceito shared space, que poderia ser revolucionário em áreas delimitadas de cidades feitas quase que exclusivamente para automóveis, como São Paulo.

Shared Space

Shared Space: humanização do trânsito por meio do estranhamento

Eu já havia lido sobre shared space, visto fotos, vídeos. Mas nada como sentir-se sem saber o que fazer em um lugar onde as regras convencionais de repente não existem mais. Confesso que até para atravessar a rua foi estranho. Mas a idéia é justamente essa: obter segurança para todos a partir do sentimento de insegurança de cada um.

Parece ilógico, contraditório. Mas como ninguém sabe muito bem o que podem fazer, todos se comportam com muito mais cautela. Resultado: menos acidentes, menos mortes no trânsito. Semáforos, placas de trânsito, faixas de pedestres — enfim, a maioria das regras — desativam em nosso inconsciente a cautela que deveríamos ter. Ao ver o sinal verde, o motorista se sente amparado pela lei e pisa fundo, sem atentar ao que os outros fazem. Mesma coisa, o pedestre na calçada e o ciclista na ciclofaixa. Porque cada um se sente literalmente “o dono do pedaço”, ocorrem acidentes.

Servindo um delicioso bolo de ameixa, o prefeito Klaus Goedejohann recebe por semana duas levas de gente interessada em conhecer o lugar sem placas. Ele explica que, na verdade, o código nacional de trânsito ainda vale: preferência de quem vem pela direita e atenção constante no trânsito. Além disso, não se trata apenas de arrancar placas. O piso vermelho, todo ele no mesmo nível, e uma sutil compressão do espaço disponível para os grandes veículos também fazem parte do projeto, assim como uma atenção especial a pessoas com deficiências.

O shared space se estende por 400 metros ao longo da principal rua da cidadezinha de 7 mil habitantes e chega literalmente até as portas da igreja. Por ali, passam cerca de 13 mil veículos por dia, dos quais mil caminhões e 40% trânsito de passagem. Ocorriam 35 acidentes por ano. Desde maio, quando tudo ficou pronto, ninguém se machucou, nenhuma batida aconteceu.

Em Bohmte, o projeto só saiu mesmo do papel depois de vencidos todos os entraves burocráticos. As obras começaram em 12 de setembro do ano passado. Todo o projeto custou 2,1 milhões de euros. De acordo com o prefeito, o mesmo valor que custaria a renovação da rua nos moldes tradicionais. A cidade mesmo arcou com pouco mais de 70% do custo. O resto foi financiado com fundos da União Européia, do governo alemão e de outros parceiros.

Pior que os custos: o prefeito teve de enfrentar sobretudo funcionários da administração acostumados com pistas para veículos, calçadas e ciclovias. Fazê-los entender que se tratava de algo novo foi um processo tão moroso e travado, que por pouco não colocou tudo a perder. A permissão para o shared space só veio depois que cidade se comprometeu a refazer tudo do jeito que era, caso o novo conceito não desse certo.

É cedo para falar em resultados. Mas não é essa uma bela história? Vale lembrar: na Alemanha, para uma população de 80 milhões de habitantes, existem 20 milhões de placas de trânsito. A maioria delas, supérflua ou desnecessária, de acordo com uma organização especializada em transporte.


Aproveitando que o assunto chegou com um belo infográfico nas páginas da Superinteressante desse mês, vamos retomar o assunto pedágio urbano. E retomamos com notícias fresquinhas de Londres: os congestionamentos no centro — onde a cobrança vigora desde fevereiro de 2003 — voltaram no nível de antes da introdução do pedágio. Os opositores da restrição estão no clima “Tá vendo? Eu falei que isso não ia dar certo…”

Mas esse dado quer dizer que o pedágio não adiantou em nada? Peralá! Também não é assim. A medida levantou um belo dindim para o transporte público da cidade e contribuiu decisivamente para diminuir o volume de tráfego de automóveis particulares. Menos carros circulando, menos poluição também. Resultados melhores ainda são observáveis na área ocidental, onde o pedágio só existe desde 2007.

Mas isso tudo a gente só descobre, depois de se debruçar sobre as mais de 200 páginas do novo relatório publicado pela agência de transportes londrina. Relatório esse que é muito mais uma peça de marketing político do que um trabalho científico que busca alguma objetividade. Por isso, é preciso cuidado. Respostas a perguntas cruciais são deixadas de lado e os resultados negativos são apresentados de um modo tão sutil, que até espanta.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 11/09/2008, às 17:01





A vez de Manchester

25 08 2008

Cidadãos da região metropolitana de Manchester, a terceira maior aglomeração do Reino Unido, estão prestes a ser convocados para uma votação histórica. Em um referendo, o povo dirá se quer ou não um pacote de investimentos para os transportes urbanos no montante de 3 bilhões de libras (algo em torno de R$ 9,25 bilhões). Detalhe: 2 bilhões de libras viriam de um fundo para transportes do governo britânico e o outro bilhão seria financiado via pedágio urbano de até 5 libras por dia, pagos pelos motoristas que trafegam no horário de pico.

Melhorar o transporte, todo mundo quer. Mas sob essa condição? Nesse momento, sociedade civil e governos estão divididos sobre a proposta. Os parlamentos de três localidades que compõem a metrópole se manifestaram contra o projeto. Outras seis cidades – incluindo Manchester, que concentra a maior parte dos problemas de tráfego – apóiam o plano anunciado pela entidade metropolitana AGMA.

Há quem pense que pedágio urbano em Manchester é bobagem. A opinião de um especialista em transportes: motoristas pagariam entre 800 e 900 libras a mais por ano para se deslocar ao centro da cidade e, mesmo assim, nem a qualidade do ar, nem o trânsito melhorariam. A associação Manchester Contra Pedágios taxou o dia do anúncio desse plano como “um péssimo dia para todos os motoristas do Reino Unido”.

O mentor desse bilionário plano de transportes defende a idéia dessa forma: “Manchester precisa de um moderno sistema de bondes, de trens urbanos mais velozes e, sobretudo, de menos carros nas ruas”. O plano prevê estender as linhas do transporte leve sobre trilhos por novos 22 quilômetros. Ainda de acordo com Lewis Atter, o crescente problema dos congestionamentos dentro e em volta de Manchester seria tanto um sinal do sucesso econômico da cidade como uma ameaça a seu futuro crescimento.

No fundo, Atter é um entusiasta de sua própria idéia, que chama de pedágio urbano de terceira geração — ainda melhor que o de Estocolmo e muito mais avançado que o de Londres. O sistema de cobrança seria sensível ao horário do dia, ao sentido de circulação dos automóveis e à área da cidade por onde eles circulam. Os veículos seriam identificados por um eficiente etiquetas eletrônicas. De fato, Manchester seria a primeira cidade a contar com um sistema tão aperfeiçoado de cobrança pelo uso das vias.

E o mais importante: nada feito às pressas. Se aprovado, o pedágio urbano de Manchester entraria em operação apenas em 2013, bem depois dos investimentos em transporte público e de seus efeitos positivos para a cidade. Lições para São Paulo: fomentar o debate público, dar voz aos cidadãos através de um mecanismo de participação direta, planejar mudanças estruturais no transporte em prazo independente do calendário eleitoral.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 14/08/2008, às 04:46





O que é, afinal, pedágio urbano?

20 04 2008

Diante dos sucessivos recordes de lentidão quebrados nos primeiros meses do ano, ganha visibilidade a opção do “pedágio urbano”. Infelizmente, até especialistas em trânsito e transporte se confundem quando usam a expressão. Ao contrário do que o termo sugere, pedágio urbano não deve ser confundido com qualquer pagamento feito por motoristas nas ruas de uma cidade. A idéia básica do pedágio urbano é fazer com que os motoristas arquem com a totalidade do ônus causado pelo excesso de veículos nas ruas (estimado pelo governo do Estado de São Paulo em R$ 4,1 bilhões por ano).

A expressão tem sido vinculada a formas de financiar a construção de determinados trechos viários. Criar uma praça de pedágio na Marginal do Pinheiros, conforme proposto pelo governador José Serra, é um exemplo dessa variante. As obras da nova pista seriam custeadas por quem dela se beneficia, e não por tributos arrecadados de toda a coletividade. No entanto, como a intenção é levantar fundos para a expansão da infra-estrutura viária, viagens de automóvel são estimuladas.

Pode-se cobrar pelo acesso à cidade, como acontece em cidades norueguesas. O vereador José Police Neto apresentou na Câmara dos Vereadores um projeto de lei propondo cobrar pedágio dos veículos não registrados em São Paulo que entram na Cidade pelo Rodoanel. Mas, nesses casos, o pedágio também é cobrado para financiar projetos viários. Portanto, não é um bom antídoto contra os congestionamentos.

Modelo de pedágio completamente diferente é o que existe em Cingapura, desde a década de 1970, e em Londres, desde fevereiro de 2003. Na capital britânica são cobradas £ 8 de quem trafega com seu veículo particular por uma área de 45 km², no centro da cidade. A milionária receita líquida da contribuição é destinada ao sistema de ônibus da cidade. Assim, o pedágio urbano londrino (em inglês, não por acaso denominado congestion charge) consegue combinar a redução dos congestionamentos com os investimentos em transporte público.

É evidente que o problema paulistano da mobilidade surge da falta de planejamento e da precária aplicação das leis urbanísticas. Mas hoje o combate aos congestionamentos se transformou fundamentalmente em uma luta contra o tempo: muito antes que políticas urbanas razoáveis surtam efeito ou que o transporte público consiga dar um salto quantitativo e qualitativo à altura das necessidades da metrópole, a Cidade literalmente travará.

Deve-se diferenciar o pedágio urbano, que tem o objetivo socioambiental de reduzir os congestionamentos, dos tradicionais meios de financiamento da expansão da infra-estrutura viária na Cidade. Somado a instrumentos participativos de planejamento urbano e a uma política conseqüente de investimentos em transporte público, o pedágio urbano pode ser parte da solução em São Paulo.

Originalmente publicado no Jornal da Tarde em 17/04/2008.