Checklist do transporte sustentável

20 03 2011

Você seguramente já ouviu falar em peak oil. Peak oil é o momento em que sua produção atinge seu máximo. Dali para a frente, a quantidade disponível de petróleo segue unissonamente ladeira abaixo até o momento final ou, como diria Tom Zé, “quando esse diacho de petróleo acabar”.

O peak oil traz importantes consequências para o futuro dos transportes – um setor largamente dependente de petróleo e um dos principais responsáveis por emissões de gases do efeito estufa. Com o encarecimento do petróleo e de seus derivados, mobilidade tende a se tornar um produto de luxo, quiçá até inacessível para muitas pessoas que hoje dependem do carro para chegar ao trabalho, para deixar seus filhos na escola.

Como preparamos nossas cidades para esse cenário? Resposta: do jeito menos inteligente possível. Construindo mais túneis e mais autoestradas. Atravancando a expansão do transporte coletivo de massa. Reduzindo impostos para a compra ou o uso de automóveis. Mantendo impostos altos para os combustíveis usados de maneira bem mais eficiente pelo transporte público. E, de vez em quando, lançando em caráter de teste um ônibus movido a hidrogênio aqui ou acolá.

Ou seja, com base nas decisões tomadas na área dos transportes e anunciadas pela mídia, parece que o Brasil ainda não ouviu nada semelhante a peak oil. Mobilidade sustentável continua sendo, no máximo, jogada de marketing – seja por parte das empresas que atuam no setor, seja por parte do poder público.

O problema não é o petróleo em si. Até porque não há alternativa energética capaz de colocar em movimento tantas pessoas e mercadorias, como as hoje postas em movimento com base no consumo de petróleo.

Portanto, a tarefa é ainda maior do que simplesmente trocar as matrizes energéticas. É necessário reestruturar as cidades de forma que seja possível viver, sem se deslocar tanto como hoje, na maior parte das grandes cidades brasileiras.

Na tabela acima, baseada em outra brochura bem bacana do World Future Council, você mesmo pode conferir o que sua cidade está fazendo ou já fez em busca da sustentabilidade no setor de transportes.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 18/11/2010, às 12:31

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O futuro da mobilidade

13 03 2008

Termina neste final de semana, em Berlim, a exposição “Reinício: Mobilidade sem Petróleo?”*. Quer dizer, a exposição desocupa um andar do Museu Nacional de Tecnologia, mas lança de vez o debate sobre um tema que mobiliza incontáveis organizações, repartições do governo e cidadãos em geral.

Patrocinada pela indústria automobilística, o evento lembra que o automóvel surgiu em meio ao desejo futurista de mais velocidade e a estudos de anatomia que dissecaram cavalos na busca de entender como seria possível locomover-se tão rápido. Até os anos sessenta, a trajetória de entusiasmo com o novo invento não encontrou grandes obstáculos. Mas, com o passar do tempo, as vozes críticas com relação ao automóvel ganharam força e se tornou bastante claro o paradoxo entre automóvel e meio ambiente.

Qual será o novo padrão de mobilidade do século 21? O que virá depois dos derivados de petróleo? Se, por um lado, é presunção demais querer ditar como será o futuro, por outro lado, é bastante razoável afirmar que, se a quantidade de automóveis continuar a crescer desse jeito no planeta inteiro, chegaremos logo mais ao limite. Faltará energia e espaço para tanto carro.

Como bem sabemos, São Paulo ruma firmemente nesta direção. Prova disso são os recordes de lentidão e de congestionamento, quebrados quase diariamente. Alguns poderiam argumentar que o cenário de “um carro por pessoa” pelo menos seria mais justo do que a situação atual, em que carro ainda é bem de luxo para muitos. Eu discordo. As reservas de petróleo não darão conta da sede da China e da Índia pelo recurso energético, além de tudo o que o mundo já consome. Com o preço do petróleo em alta (e tendendo a subir ainda mais), o acesso às viagens motorizadas continuará a ser distribuído desigualmente na sociedade e os mais pobres — mesmo que possuam o veículo — terão dificuldade crescente em pô-lo em movimento. Junto com o automóvel, comprarão uma falsa idéia de liberdade.

Antevendo esse beco sem saída, muita gente entende que a “hora da virada” se aproxima. A indústria aposta em protótipos com melhor aerodinâmica, mais leves, mais eficientes no uso de energia, que utilizam energias alternativas… A Volkswagen, por exemplo, já faz propaganda do EcoRacer. Pesando 850 kg — o que o qualifica como um “peso-pena” em comparação a outros modelos –, o EcoRacer faz cerca de 30 km por litro.

Esses investimentos são direcionados um público que não irá abandonar tão cedo um sonho de consumo transmitido entre gerações. Consumidores estão cada vez mais cientes da contribuição dos automóveis para o aquecimento global, mas não se esquecem tão facilmente da utilidade ou do prazer que um carro pode oferecer. Produtos como a “bicicleta híbrida” ainda são vistos com certa cautela.

Salão Internacional do Automóvel, Genebra

Não chega a causar surpresa que o grande destaque do Salão Internacional do Automóvel de Genebra (que, aliás, também termina neste final de semana) não é um típico carro esportivo, mas o compacto indiano Tata Nano. Por tudo isso, continua difícil falar no futuro da mobilidade. Entretanto, eu arriscaria dizer que o futuro próximo não será da mobilidade sem petróleo, mas da mobilidade com bem menos petróleo. O que não deixa de ser perigoso social e ambientalmente.

* Site da exposição “Reinício: Mobilidade sem Petróleo?”

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 13/03/2008, às 14:47





6 milhões e um problemão

21 02 2008

Da Folha de S. Paulo de hoje: SP deve atingir hoje a marca de 6 milhões de veículos*. Eram 165 mil em 1960, 640 mil em 1970, 1,8 milhão em 1980… agora já são 6 milhões! O que significam esses 6 milhões? Significam que, desde o ano 2000, a cidade de São Paulo deu à luz mais carros que bebês. Também significam que qualquer outro meio de transporte está longe de ameaçar a supremacia do automóvel em nossa sociedade.

Para expor a dramaticidade da situação, façamos um cálculo simples. Tomo por base que um automóvel ocupa, em média, 15 metros quadrados. Então, no total, 90 km² do espaço municipal é permanentemente ocupado por automóveis. São mais de 12 mil campos de futebol forrados de plástico, fios e metal. Isso representa cerca de 10% da área urbana de São Paulo.

Mas automóveis são diferentes de máquinas de lavar ou geladeiras; eles precisam também de espaço para circular – o sistema viário – e espaço para estacionar longe de casa. Aí é que está o problema maior. Ruas, estacionamentos e tudo mais que os carros necessitam dominam a paisagem urbana. Estima-se, atualmente, que quase metade de nossa cidade seja dedicada a esses 6 milhões automóveis. Resta aos 11 milhões de habitantes a outra metade. Veja o absurdo: um objeto tem direito a quase duas vezes mais espaço que uma pessoa em nossa cidade! E nem nos damos conta disso!

Mas São Paulo não pode parar. Os meios de transporte motorizados são produtos essenciais para a economia andar. Se São Paulo não tem ônibus ou trens suficientes, não pode prescindir dos carros. Daí os congestionamentos, a poluição e outros malefícios embutidos no processo de produção de um dos grandes ícones do século 20.

Qual o futuro? Um mundo sem automóveis ou com automóveis “menos nocivos”? Aqui até os verdes estão divididos. Há quem ache que o automóvel só atrapalha: polui o ar, enfeia, ocupa espaço… Outros lembram que o carro tornou acessível lugares e experiências antes dificilmente inacessíveis e, assim, contribuíram para melhorar a qualidade de vida da população.

É cada vez mais unânime a sensação de que o excesso de automóveis representa um perigo. Paulistanos que o digam! A notícia triste é que, devido ao momento econômico do país, o número de automóveis – e o perigo que representam – deve continuar crescendo nos próximos anos…

a não ser que o preço do combustível dispare de uma vez. Nesta semana, o preço do petróleo foi às alturas. Meia dúzia de cheiques do Oriente Médio, a máfia russa, o governo venezuelano e as elites de outros países produtores vão a delírio; o resto do planeta, que ainda depende do “ouro negro”, vai a desespero. O Brasil atingiu a auto-suficiência da produção, produz carros flex fuel, empunha a bandeira dos biocombustíveis, mas está sujeito ao mercado internacional. O remédio, aqui, poderia ser o desenvolvimento de energias alternativas.

a não ser que o o trânsito acabe. Quando ninguém mais conseguir se movimentar, não haverá mais trânsito. Haverá apenas o não-trânsito. Estamos nos aproximando a passos largos do cenário em que falta espaço nas ruas para tanto carro. Com a exceção de quem diz gostar de ficar parado atrás de outro carro (Folha de S. Paulo, só para assinantes), os congestionamentos se tornarão uma tortura generalizada. O “Grande Nó” seria o símbolo do final dos tempos ou o sinal de que alguma coisa no meio do caminho deu errado.

a não ser que alguém faça alguma coisa antes. Como otimista, prefiro ainda acreditar nesta opção. Acredito na mudança de atitude de cada um. Acredito na eficácia das ações de conscientização promovidas por organizações da sociedade civil. E também acredito na política e na capacidade de os governantes mudarem o rumo das coisas. O trunfo aqui são políticas públicas responsáveis. E antes que alguém me pergunte: não, não acredito no coelinho da Páscoa.

* SP deve atingir hoje a marca de 6 milhões de veículos (só para assinantes)

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 21/02/2008, às 18:16