Buracos de rua estão à venda em vila alemã

12 03 2010

Na Europa, um inverno rigoroso. No Brasil, muita água do céu. E em todos os lugares, o efeito visível nas ruas: buracos.


Na Alemanha, a situação das ruas ainda causa verdadeira indignação entre os motoristas. Passar por uma cratera em uma das principais ruas de Hamburgo trouxe a um aposentado um prejuízo equivalente a 1.300 reais ou dois terços de sua renda mensal – além, claro, do susto que chegou junto com o barulho. Assim como este senhor, dezenas de pessoas têm enviado queixas e pedidos de indenização à Prefeitura. Ao jornal, ele argumenta: “Agora eu vou ter que pagar por aquilo que a prefeitura deveria fazer e não faz? Isso só pode ser uma piada.”

Mas as chances de os reclamantes ganharem algo da prefeitura são remotas. Melhores perspectivas têm aqueles que juntam provas. O aposentado precisaria ter fotografado o buraco e coletado relatos de testemunhas. Enfim, realizar um levantamento digno de investigador, nem sempre possível e até perigoso, dependendo da via em que a depressão estiver localizada. E, mesmo assim, o reembolso não é certo.

Interessante, nesse caso, também é o modo como a prefeitura lida com as irregularidades no pavimento. Antes de tapar o buraco – “criminoso”, na opinião da vítima – a prefeitura também havia instalado placas informando sobre irregularidades na pista e obrigando os motoristas a reduzir a velocidade para 30 km/h. Por sua vez, um jornal local não tardou a publicar no Google Maps a localização e a descrição dos buracos na cidade. O mapa já foi acessado mais de 30 mil vezes. Isso sim é jornalismo de utilidade pública!

Ambas ideias (as placas e o mapa) deveriam ser apreciadas no Brasil, onde buracos muitas vezes custam vidas. (Aliás, não sei se buraco foi tema na ONU, mas a instituição acabou de declarar o período 2011-2020 como a Década de Ação para a Segurança nas Estradas. De São Paulo, dois repórteres relatam (link só para assinantes) que encontram 50 buracos em dez horas circulando pela cidade. Um resultado bem modesto diante da incrível velocidade com a qual os buracos se proliferam nas ruas da cidade. Surge um buraco a cada 50 segundos, segundo a prefeitura. O “déficit pavimentário” em São Paulo é crescente. Apesar dos esforços, 480 buracos deixam de ser tapados por dia pela prefeitura.

Mas a culpa não é só nosso verão extremamente chuvoso, que fragiliza o solo. A dimensão do problema dos buracos em São Paulo só pode ser compreendida com planejamento ruim, serviços mal executados e o jogo de empurra-empurra de responsabilidades com concessionárias de serviços públicos. Há quem diga que buracos nas ruas de São Paulo são a regra, não a exceção. Mas independentemente disso: são vistos com normalidade, mas nem por isso deixam de ser perigosos, inclusive para aqueles que não dirigem automóvel.

No Canadá, o orifício responsável pela quebra do Volkswagen de dois artistas foi também responsável pelo surgimento de uma forma mais lúdica – e nem por isso menos cidadã – de lidar com o problema. Graças a ele, Davide Luciano e Claudia Ficca começaram a enxergar novos usos para os buracos no asfalto: prato de espaguete, caixa térmica para cerveja, jardim, lago para pesca (foto)… Confira mais imagens sensacionais no site Hot Pothole Photography.

Ideia igualmente original vem da Alemanha. O prefeito de uma vila sem dinheiro suficiente para custear o recapeamento da rua principal recebeu de um amigo a sugestão de colocar à venda os buracos de suas ruas. À mostra na homepage da localidade, os buracos podem ser adquiridos a partir de 50 euros.

A conta é fácil: se São Paulo fizesse o mesmo, a cidade teria uma receita adicional de até R$ 1,7 milhão a mais por mês. Dinheiro que não cai do ceu. Mas brota do chão.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 04/03/2010, às 08:58





Contra furtos, as placas PET

11 10 2007
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Olhe só que número impressionante: o Brasil joga fora a cada ano 4.700.000.000 garrafas PET, como essas de refrigerante. Isso mesmo: 4,7 bilhões de garrafas vão parar em lixões, boiar em nossas águas ou entupir bocas-de-lobo. Apesar de ambientalistas apontarem a redução do consumo como a melhor saída, a reciclagem deste material é a solução que uma indústria catarinense de placas adotou para conciliar preocupação socioambiental com redução dos índices de furto.

A Sinasc compra as garrafas de cooperativas de catadores. Reprocessadas, 30 garrafas de refrigerante se transformam em um metro quadrado de placa. O material não-metálico custa 30% menos do que o similar de alumínio. Também ganha em durabilidade de seus concorrentes ferrosos, já que está menos sujeito à oxidação. Promovendo essa sinalização alternativa, a empresa caminha para obter a certificação ISO 14000.

De acordo com o gerente de marketing e desenvolvimento, Rodrigo Colleone, as placas PET ainda representam pequena parcela do faturamento e menos de 10% do volume vendido pela Sinasc. “Ainda há muita resistência por parte das prefeituras”, diz. Apesar disso, a demanda cresce e o produto já está presente em Florianópolis e em fase de teste pelas autoridades de Curitiba.

A mais recente boa notícia que chegou para a Sinasc é que seu produto exclusivo pode, desde o mês passado, orientar motoristas, pedestres e ciclistas no Rio de Janeiro. A companhia de engenharia de tráfego carioca, que chegou ao cúmulo de registrar o furto de uma placa a 5,5m do solo em menos de 20 minutos depois de sua instalação, decidiu que aceitará as placas PET na cidade maravilhosa.


A imagem da placa aí em cima me foi enviada por André Pasqualini, cicloativista envolvido na organização da Bicicletada do Dia das Crianças, programada para amanhã mesmo, dia 12. “Garanto que será tão interessante quanto o dia sem carro”, afirma André.Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 11/10/2007, às 16:53





A hora de renovar a carta

4 10 2007

Nem vestibular, nem cerimônia religiosa. Para um número crescente dos moradores das grandes cidades feitas para automóveis, o rito que marca mesmo a passagem da adolescência à vida adulta é tirar a carta de motorista. Ah, a carta… Poder entrar no carro e sentir a cidade passar rápido por seu olhar e pelo pedal do acelerador. Escolher para onde ir, sem ter que fazer baldeação. Ir à balada de carro e voltar tarde sem ter de correr para chegar a tempo na estação de metrô ou depender dos ônibus noturnos.

Bom, verdade seja dita: eu mesmo nunca cheguei a pensar que um carro me traria mulheres bonitas ou essa liberdade toda que a propaganda da TV promete. Se cheguei a pensar nisso, foi só por algumas horas até ficar preso em algum engarrafamento por aí. Mas ter conseguido tirar a carta foi demais. Sinal de que a baliza que fiz durante a prova prática foi suficientemente boa para obter a tão sonhada habilitação.

Essas memórias voltaram com força algumas semanas atrás, quando quis renovar a carta. O primeiro desafio foi descobrir o que seria preciso fazer. Tente aqui você também. Eu acho que entendi, mas li de novo e fiquei com a pulga atrás da orelha. Então, preferi confirmar na clínica onde fiz a avaliação médica se deveria ou não fazer o exame psicotécnico.

Depois passei alguns dias me preparando para o exame teórico (que, se realizado no prédio do Detran, sai de graça). Resolvi estudar a partir das informações que já são públicas e da velha apostila da auto-escola que, não sei por que cargas d’água, havia guardado desde aqueles tempos. Foi bom, porque descobri que, de uns tempos para cá, alguém andou inventando placas! Isso mesmo. “Proibido retornar à direita” é uma das que não existiam quando eu era mais jovem. Se bem que, até hoje, acho que nunca vi alguém querendo fazer um retorno à direita…

Outras placas mudaram de nome. Você sabia que, oficialmente, não existe mais “mão dupla”, mas apenas “duplo sentido de circulação”? Ficou mais chique, mas será que a nova expressão vai pegar? Por sua vez, “Veículos lentos usem a faixa da direita” virou “Ônibus, caminhões e veículos de grande porte mantenham-se à direita”. Será que agora os motoristas de caminhão (inclusive os que dirigem rápido demais) entenderão que não podem ocupar todas as pistas da Marginal?

Mas o que mais me chocou foi o artigo 88 de nosso Código de Trânsito Brasileiro (que você pode encontrar aqui). Veja essa: “Nenhuma via pavimentada poderá ser entregue após sua construção, ou reaberta ao trânsito após a realização de obras ou de manutenção, enquanto não estiver devidamente sinalizada, vertical e horizontalmente, de forma a garantir as condições adequadas de segurança na circulação.” Acho que o pessoal da Prefeitura está precisando renovar a carta para compreender esse artigo. Ou você já viu alguma rua ficar fechada aos automóveis até ser pintada e receber todas as placas?

Renovar a carta é um mal necessário ou uma “perda de tempo”, na opinião de muita gente. Para mim, valeu a pena passar pela experiência de renovar a carta. É um belo jeito de conhecer melhor as regras e até virar fã de algumas delas.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 04/10/2007, às 08:28