A síndrome das propostas ocas

3 10 2008

Caro eleitor, a hora chegou. Seja a grande festa da democracia, seja a mesma coisa de sempre, o domingo está aí. Pare e pense bem, compare bem os projetos dos candidatos… Opa! Projetos?? Não sou tão velho, nem tão sábio assim, mas nunca vi um debate de tão rara – e baixa – qualidade como o dessas eleições.

Enquanto São Paulo e as grandes cidades brasileiras são corroídas por problemas seriíssimos, os candidatos mal sabem o que defendem. Pelo contrário, algumas de suas idéias não resistem a um exame minimamente crítico. Ferem até o bom senso.

Sinto dizer, mas candidato nenhum apresentou um projeto, no melhor sentido do termo. Um projeto com fundamento e com metas, que delimite bem o problema a ser enfrentado, que explique por que e como algo deve ser feito, que aponte os recursos necessários. É exigir demais? Poderiam ter realizado isso, aproveitando sobretudo o potencial do alcance da internet e as possibilidades que esse meio apresenta. No entanto, as idéias mostradas na campanha eleitoral – se é que têm nível de elaboração suficiente para que possam ser chamadas de “propostas” – até agora são essas que nós aqui poderíamos ter numa conversa de bar e que ganharam uma roupagem elegante e dinâmica dos marqueteiros na propaganda no rádio, na TV e na internet.

A síndrome das propostas ocas parece afetar todos os candidatos, mas é ainda mais grave entre aqueles que já têm experiência administrativa. Afinal, aqueles que em bom português se chamam “macacos velhos” deveriam ter aprendido alguma coisa no trato com o bem público durante o tempo que ficaram no Executivo.

À frente da corrupção, esse tipo de picaretagem é, na minha opinião, a principal causa de desilusão com a política que os eleitores brasileiros expressam já tão precocemente. Em São Paulo, o baixo nível do debate público também está presente quando o assunto é mobilidade. Leves e soltas, as idéias dos candidatos trazem três tipos principais de armadilhas:

1. Falar bonito é o que importa. “Redimensionar o tempo de validade do bilhete único” demonstra perfeito domínio do idioma. Mas o que isso quer dizer? O bilhete valerá por mais ou por menos tempo? E principalmente: com base em que critérios será feita a mudança?

2. O ideal do prefeito realizador. “Construir novos terminais de ônibus” Onde, quantos e com que dinheiro são detalhes que, mesmo após os resultados das urnas, não serão revelados. O que importa é que serão construídos. E, como se não bastasse: serão novos!

3. Usar a lógica do leilão. Aqui, o candidato usou a mesma frase do concorrente, adicionando apenas um número. “Construir ao menos 8 novos terminais de ônibus.” Bom, se o candidato escreveu oito, supõe-se que saiba onde serão construídos. Ou será que oito é apenas seu número de sorte?

Apesar de tudo, não prego o voto nulo e acho importante comparecer às eleições e votar em alguém. Mas como escolher alguém? Um conselho prático? Aproveitar a manhã de sábado para comparar as diretrizes do programa de governo dos candidatos (a de quase todos pode ser encontrada na internet), fazer o difícil exercício de imaginar qual a cidade que eles imaginam e verificar qual das cidades imaginárias é a menos ruim. No domingo, digitar os números com atenção, apertar o botão verde e sair da urna dizendo “Seja o que Deus quiser”.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 02/10/2008, às 05:13

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Ao trabalho? Vá de bike! (parte 2)

8 05 2008

Vale a pena continuar a conversa com o cicloativista Leandro Valverdes, que começamos assim. Agora, ele explica por que as propagandas de automóveis são nocivas aos ciclistas e revela que ter um carro não está totalmente fora de seus planos.

Qual o maior inimigo dos ciclistas: os motoristas, a indústria automobilística ou os políticos?
Os três são inimigos “de respeito”, mas penso que há um maior, que é a propaganda. Assista a qualquer programa na TV em horário nobre e você verá slogans e mensagens como “ou você anda na linha, ou você anda no novo automóvel X”, “a vida na cidade é uma aventura” e por aí afora. A maior montadora do país não hesita em lançar uma campanha falando na preservação de “passarinhos”, “plantinhas” e “pôr-do-sol”. Uma outra montadora acha verossímil associar um de seus modelos ao termo “eco”, por mais insólito que isso possa parecer. Da mesma forma, uma fabricante de motos não se acanha em fazer um anúncio, em que seu último modelo, indestrutível, vai derrubando todo e qualquer obstáculo que cruza seu caminho pela frente. Infelizmente sabemos que é grande o número de vezes em que a incitação a um comportamento “arrojado”, “veloz” e “agressivo” atrás do volante termina em tragédia. Nas ruas há uma completa inversão de valores e os mais frágeis (pedestres, ciclistas, motociclistas) não têm preferência sobre os mais fortes (carros, ônibus e caminhões). Torço para que algum dia sejam aceitos processos contra os efeitos maléficos dessas propagandas, da mesma forma como hoje já se faz contra a indústria tabagista. A propaganda da indústria automobilística subverte a lógica das coisas sem medo de parecer ridícula.

Na sua opinião, os paulistanos são resistentes ou preconceituosos com relação à bicicleta como meio de transporte?
As duas coisas. A maior adversidade para quem usa a bicicleta como meio de transporte em São Paulo – porque não tem carro ou porque não quer utilizá-lo – não é sua topografia, seu gigantismo, seu clima, nem mesmo sua poluição: é o comportamento descuidado, por vezes até hostil, de parte de seus motoristas. No trânsito, ouve-se de tudo. De palavrões, que são a coisa mais corriqueira, até frases que incomodam mais, como um patético “Eu pago IPVA” ou, principalmente, “Sai da rua”. O motorista tende a negar ao ciclista o direito de trafegar na mesma via que ele.

O que levaria você a voltar a ter um automóvel?
A partir do momento que eu tiver filhos pequenos, acho que me verei obrigado a comprar um, mas pretendo utilizá-lo da forma mais racional possível. Mas quem sabe um dia eu consigo levar meus filhos para a escola assim? Ou, mais provável, talvez tenha que esperar para fazer isso com os meus netos, mas não custa sonhar. O fato é que em 2008 estamos, sem dúvida, passando por um ponto de mudança. Nunca se falou tanto de trânsito, que virou tema central dos candidatos à prefeitura. Torçamos para que seja uma mudança na direção certa.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 08/05/2008, às 05:27





O transporte urbano nas eleições

1 03 2008

Eleições municipais em outubro. Ainda não se sabe quem serão os candidatos à Prefeitura da capital paulista e, muito menos, quais seus programas de governo. Mas a venda de soluções milagrosas para os congestionamentos e o transporte público precário sempre foi um trunfo na propaganda política. A imagem do prefeito realizador de grandes obras viárias, a promessa do asfaltamento como forma de clientelismo urbano e projetos visionários – a exemplo do aerotrem – já fazem parte do folclore paulistano.

Neste ano, o que deverá ser sugerido para melhorar a mobilidade em São Paulo? Propostas interessantes ao alcance de um prefeito são a revisão do traçado das linhas de ônibus, a extensão dos corredores exclusivos, o aperfeiçoamento da integração tarifária, a construção de uma ciclorrede e o pedágio urbano (cobrar uma taxa dos motoristas que trafegam em determinada área, em certos horários).

O atual prefeito Gilberto Kassab (DEM) declarou mais de uma vez que, nesta gestão, o pedágio urbano está fora de cogitação. No entanto, Kassab já se mostrou disposto a realizar experimentos na gestão do trânsito da Cidade, como suspender o rodízio durante as férias escolares de julho passado e introduzir faixa exclusiva para motociclistas. Nada disso deu certo, o que não significa que, em um eventual segundo mandato, Kassab deva desistir de buscar opções, como os recém-implantados ‘corredores virtuais’.

Candidato forte nas pesquisas de intenção de voto é o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Além do trânsito, o pedágio urbano poderia aliviar um problema que tem ocupado o centro da propaganda tucana: a situação fiscal do Estado. Alckmin teria, ainda, a oportunidade de trabalhar próximo ao governador José Serra para superar impasses históricos na gestão de um problema metropolitano. Resta saber se um projeto de cooperação intergovernamental seria mais forte que as fissuras internas a seu partido.

Já a atual ministra do Turismo Marta Suplicy (PT) poderia, durante a hipotética campanha, retomar o plano de ampliação dos corredores de ônibus iniciado em sua gestão (2001-2004) e evitar fazer menção ao túnel feito às pressas. A ex-prefeita poderia ainda colher os frutos políticos do hoje unânime bilhete único. Medidas mais duras contra automóveis também não estão descartadas, uma vez que o mais recente estudo sobre a implantação do pedágio urbano em São Paulo foi feito durante sua administração.

Cabe alertar o eleitor que o problema metropolitano dos transportes é mais complexo do que marqueteiros podem fazer acreditar. Soluções eficientes e duradouras não serão obtidas por um só político em 4 anos, pois estão atreladas a políticas integradas, ao planejamento de longo prazo e à mudança de comportamento dos cidadãos.

Artigo originalmente publicado no Jornal da Tarde em 27/02/2008