É pedestre? Jacu, azar o seu!

20 03 2011

O Brasil deve ser número um do mundo em inaugurações de obras viárias inacabadas. Veja-se o noticiário nessas últimas semanas, passeie-se pelas cidades: avenidas sem iluminação, ruas sem a sinalização obrigatória prevista pelo Código de Trânsito Brasileiro, grandes eixos viários com passarelas provisórias. Segurança no trânsito, cumprimento das leis ficam para depois. Ainda mais em ano eleitoral, o que importa é inaugurar.

Depois da Marginal do Tietê, entregue às escuras aos motoristas, São Paulo acaba de receber sem iluminação mais 13,2 quilômetros da Jacu-Pêssego, uma via perimetral de grande impacto para a circulação na metrópole. A avenida é um projeto viário desses que viram orgulho de político que atua em cidade para automóveis e que lida com cidadãos programados a pensar apenas em fluidez do Trânsito (com T maiúsculo, porque já é uma entidade). Depois da ponte estaiada, a Jacu-Pêssego já pode se candidatar a próximo cartão postal da cidade…

O que é escondido na propaganda política e raramente mostrado pela mídia é o impacto dessas obras para as comunidades lindeiras. Afora as reclamações sobre rachaduras em residências, o barulho e as noites mal dormidas, o “efeito-barreira” provocado por essas avenidas expressas é enorme. Dividem e separam partes de um mesmo bairro, antes conectadas: a dona Maria que morava do lado de cá e conhecia a dona Josefa do lado de lá não vão mais se falar como antigamente. Pelo mesmo motivo, a freguesia da mercearia do simpático seu Joaquim se transformará muito. E, com o passar do tempo, o seu Joaquim terá de fechar seu comércio, pois o terreno será assediado por revendedora de automóveis, filiais de redes de fast-food ou de posto de gasolina, quiçá até por um supermercado. Mas quem paga essa conta social?

Nem as passarelas previstas no projeto – e que poderiam mitigar esse efeito-barreira –  foram construídas. Afinal, na estrutura das “obras-primas” viárias brasileiras, passarelas, se é que constam, fazem parte do apêndice do apêndice do apêndice. Se forem construídas, ótimo. Mas se não forem, não há problema. O máximo que poderá acontecer são algumas mortes a mais de gente anônima para entrar nas estatísticas. Nada mais que isso.

Na Alemanha, reparo que os políticos ainda se esforçam em entregar a obra bonitinha, acabadinha, perfeitinha, para que não recebam (pelo menos de imediato) críticas da população. O Brasil segue caminho outro. Não importa o quão tosca é a concepção, a produção ou o acabamento do projeto. O que importa é a existência do projeto em si. É tudo nivelado por baixo. Uns diriam: Pelo menos ele saiu do papel. Ou então: melhor uma avenida do que “nada”. Será mesmo?

Conforme a mentalidade de nossos decisores, quem não é motorista ou quem não concorda com a lógica de crescimento da cidade voltada aos veículos particulares motorizados deve apenas prestar atenção no conselho que um policial rodoviário deu na televisão: “O pedestre precisa se conscientizar que ele tem algumas obrigações também. Como por exemplo, na rodovia, andar sempre pelo acostamento, se for fazer a travessia, em locais destinados a isso e de uma forma bastante rápida.”

É realmente lamentável. A sociedade brasileira precisa mostrar vontade para fazer cidades de outro jeito. Cidades em que pedestres, ciclistas, pessoas com mobilidade reduzida e cidadãos preocupados com a preservação da qualidade de vida e com a vivência comunitária também tenham voz. Uma boa oportunidade para levar essa discussão à frente representa é o evento que marca o Marco Zero da Década de Ações para a Segurança Viária no Brasil, a se realizar em 17 de novembro em São Paulo. O movimento Chega de Acidentes também publicou um manifesto, que pode ser lido e apoiado por você que clica aqui.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 04/11/2010, às 13:00

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Idéias para nossa cidade

3 04 2008

Um amigo me perguntou se eu participaria do fórum organizado pelo Movimento Nossa São Paulo, que vai acontecer entre 15 e 18 de maio. Eu gostaria muito, mas não poderei. Na verdade, eu gostaria mesmo é que eventos como esse tivessem um vínculo direto com o poder público. As subprefeituras não foram criadas para estreitar os laços com os cidadãos? De qualquer forma, pensei em apresentar algumas idéias ao fórum.

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1) Garantia, por lei, de um determinado estoque de área pública verde por área urbanizada em cada bairro da cidade. Caso contrário, os cidadãos estariam livres para pegar picaretas e quebrar estruturas de asfalto e concreto das ruas para transformá-las em “corredores verdes” (onde talvez haja espaço só para o trânsito local, em horários limitados). Eu não acho isso radical demais. Acho que, quando o Estado não faz, as pessoas deveriam ter o direito de fazer alguma coisa em nome de sua própria qualidade de vida. Além disso, árvores nunca são demais em uma cidade.

2) Criação do “Prêmio Barbeiragem do Ano” no site oficial da Prefeitura. Quem não tem medo de se locomover em São Paulo, que dê o primeiro clique! Câmeras de fotografia, celulares e, claro, câmeras de vídeo podem ser usadas para registrar a imprudência nas ruas e o quão longe estamos de um trânsito que assegure uma convivência pacífica nas ruas. Empresas poderiam ser convidadas para dar um prêmio em dinheiro ao autor do vídeo ou da foto mais votada pelo público, via internet.

3) Organização de um apitaço na frente do shopping Bourbon, o mais novo insulto às leis urbanísticas de São Paulo. Esse tipo de desrespeito à cidade é recorrente. Cinco anos atrás, era a Daslu o megaempreendimento que desrespeitava as normas de planejamento da cidade, como denunciava o professor da USP Cândido Malta Filho: “A Daslu é um caso emblemático para o futuro de São Paulo. Com a sua regularização ou fechamento administrativo por ilegalidade, está em jogo se prevalecerá o planejamento democrático aprovado em lei pela Câmara Municipal ou a vontade de poderosos cidadãos que querem que as leis vão se dobrando a sua vontade.” (Folha de S. Paulo, em 07/02/2003)

4) Ampliação do número de pontos de monitoramento da qualidade do ar na cidade e apoio a uma melhor divulgação dos resultados. São muito poucas as estações da Cetesb em uma cidade tão grande como São Paulo. Lembremos que, por trás do termo “poluição do ar”, há diversas substâncias tóxicas que precisam ser controladas mais de perto.

5) Possibilidade de punições — dentre elas, perda de mandato — a prefeitos e secretários municipais que “tiram da cartola” idéias não apresentadas em plano de governo. Não dá mais para aceitar a brincadeira de política que existe no Brasil. Os eleitores precisam saber o que seus eleitos vão fazer pelo bem público. O projeto de lei defendido pelo Movimento Nossa São Paulo e aprovado pelos vereadores paulistanos já representa um bom avanço nessa direção.

6) Para autoridades municipais e estaduais, abertura de um novo e extenso curso: “As diferenças entre coisas e pessoas — Como lidar com famílias em condições subnormais de moradia com o mínimo de dignidade?” As imagens do episódio na favela do Real Parque registradas pela equipe do Favela Atitude três meses atrás devem tirar as dúvidas de quem acha tal curso desnecessário. O último episódio dessa história pode ser conferido aqui.

7) Inversão das prioridades dos “marronzinhos”. Se é verdade que a CET é preocupada com a mobilidade na cidade como um todo e tem a segurança no trânsito como seu objetivo máximo, então as multas mais freqüentes deveriam ser para motoristas que mudam de pista sem dar seta, que páram ou estacionam sobre a faixa de pedestres ou abusos desse tipo. Fica a pergunta: você conhece alguém que já foi multado por mudar de faixa sem sinalizar?

8 ) Ínicio da organização de um movimento popular (mas popular mesmo!) para a melhoria do transporte público — verdadeira solução para os transportes — por meio da redução dos investimentos na expansão do sistema viário de São Paulo. Pelo jeito, a procura pelo transporte público e sua melhoria só acontecerão quando o trânsito for impossível. Mais corredores de ônibus (que diminuem o espaço disponível para os carros) e mais restrições à circulação e/ou ao estacionamento de automóveis particulares já!

E você? Também já ficou sabendo do fórum? Tem idéias para aumentar essa lista?

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 08/04/2008, às 6:59





A escola em movimento

27 03 2008

O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. A Terra é o terceiro planeta mais próximo do Sol. Ninguém duvida de que esses conteúdos são importantes para um estudante. Mas por que não abordar em algumas aulas o tema da mobilidade? Por que não incluí-lo no currículo escolar?Na Alemanha, assim como em certas escolas no Brasil, as crianças passam por uma formação genérica sobre segurança no trânsito, da primeira à quarta série. Como se atravessa uma rua? O que significam os sinais de trânsito? Como andar de bicicleta na cidade? Estão aí algumas perguntas colocadas para a garotada.

No entanto, essa formação inicial não tem sido suficiente para tirar jovens e adolescentes do grupo mais suscetível aos acidentes de trânsito. E nem para fazer deles pessoas mais conscientes sobre suas opções cotidianas de transporte. Nos dois países, ser jovem significa maior risco. Os índices de motorização crescem ano a ano e, com eles, os problemas já bem conhecidos por quem vive em qualquer cidade grande brasileira. Trabalhar o tema da mobilidade sustentável do ensino fundamental ao ensino médio é a idéia do Curriculum Mobilität, projeto desenvolvido no estado da Baixa Saxônia.

Alunos na faixa dos 17 anos (idade mínima para tirar a carta) são preparados para o mundo da mobilidade (motorizada ou não, sustentável ou não) de uma forma bem abrangente. Professores de diversas matérias – além dos pais e até de policiais, agentes de trânsito, planejadores urbanos, entre outros profissionais – podem trabalhar juntos e apresentar os aspectos técnicos por trás de uma simples viagem de mobilete, os custos ambientais e sociais por trás de uma motocicleta ou refletir sobre o teor das mensagens transmitidas por propagandas de automóvel. Alguns temas dão pano para manga para aulas ao longo de semanas…

Pode estar em projetos como esse o caminho para o desenvolvimento de uma “cultura para o trânsito”, em um mundo em que mobilidade é, aparentemente, uma necessidade cada vez mais presente em nossas vidas. No Brasil, país que ainda ocupa uma posição vergonhosa nas estatísticas internacionais de acidentes de trânsito, talvez seja uma boa idéia educar, também na escola, crianças e jovens para lidar com a rua. Até porque eles estão muito mais próximos de carros, calçadas e placas do que de triângulos retângulos ou de reflexões sobre o sistema solar.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 20/03/2008, às 13:51

Sobre este tema, leia notícia Escolas terão aulas de trânsito, publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 15/02/2008.