Ruas feitas para matar

19 03 2011

Ai que bom se o planejamento urbano fosse apenas uma questão de lógica… Fosse assim, não veríamos nossas ruas sendo projetadas para o desastre. Reduzir os limites de velocidade e estreitar as áreas para automóveis: esse deveria ser o norte do planejamento de transportes de quem quer pensar em mobilidade sustentável no sentido mais original da expressão.

Vamos aos fatos.

1) As autoridades que fazem o planejamento, a gestão e mesmo a operação do transporte urbano consideram o respeito ao cidadão, ao passageiro, ao cliente. Não duvido que, em busca de certificação, algumas delas até gravem a defesa da vida entre outros nobres valores em uma plaquinha de metal, exposta na portaria. “Segurança no trânsito” é a expressão que todo mundo gosta de usar e falar em palestras.

2) O risco de acidentes fatais aumenta quando se permite que veículos motorizados trafeguem muito rápido. É muito pouco provável que alguém – seja um pedestre, seja o motorista – morra em decorrência direta de uma colisão com um carro a 10 km/h. Mas se esse carro andar a 50 km/h, o quadro muda bastante: é provável que pelo menos  o pedestre se machuque gravemente. E a 90 km/h, a probabilidade de morte de um pedestre é certa.

3) Quanto mais larga a rua, maior a tendência de motoristas se sentirem livres para correr mais. É instintivo. Motoristas são impelidos a desenvolverem menores velocidades, se as ruas forem mais estreitas e sinuosas. Quanto mais largas e retas as ruas, maiores serão as velocidades e menor será o contato entre os moradores dos dois lados da rua. Não precisa nem de placa de trânsito para regulamentar, até porque se as normas não condizem com a forma geométrica da rua, não são respeitadas.

Agora, vamos ligar os fatos. Se a defesa da vida é mesmo um valor prezado e uma meta a ser perseguida pelas decisões em transportes, então por que não diminuir a velocidade permitida sobretudo nas vias que cruzam grandes aglomerados urbanos? Por que não diminuir a largura dos leitos destinados ao trânsito motorizado e ampliar o espaço para o trânsito de pedestres e de veículos não-motorizados, para o convívio dos moradores e para as áreas verdes?

Ainda não encontrei ninguém – repita-se: ninguém – que explique por que seguimos fazendo justamente o contrário no Brasil. (Se você me ajudar a colocar esse assunto em discussão, quem sabe podemos encontrar respostas…) E olhe que estamos falando do Brasil, onde os números de acidentes de trânsito não são insignificantes. Até gente acostumada com estatística de guerras, tsunamis, terremotos e epidemias se assusta com a carnificina nas ruas do país. É como se uma pequena bomba de Hiroshima caísse sobre o Brasil mais ou menos a cada dois anos, levando embora a vida de dezenas de milhares de pessoas. Isso sem falar nos feridos, nos custos materiais, etc. E, mesmo assim, apesar da tragédia, quase nada muda. Continuamos alargando avenidas, reprogramando os semáforos para dar maior fluidez aos automóveis, aumentando os limites de velocidades…

Deveria ser uma meta a ser ferrenhamente perseguida a redução das velocidades permitidas nas vias e o estreitamento das ruas. Note bem: não estou falando em estreitar cada uma das faixas de rolamento para que caibam mais carros em uma rua com a mesma largura, como a Companhia de Engenharia de Tráfego fez em São Paulo em uma época em que já era crescente o trânsito de motocicletas entre as faixas. Essa solução é ainda mais “criminosa”, tanto do ponto de vista urbanístico como da segurança de quem circula pela cidade. O que defendo é o estreitamento de toda a área por onde passam carros, motos e caminhões e a ampliação dos espaços especialmente para os pedestres. Em várias regiões da cidade, eles foram esmagados, prensados ou mesmo suprimidos, à medida que os espaços para a circulação de veículos eram aumentados.

Resistência a esse tipo de medida sempre vai haver. Já posso até imaginar os buzinaços, os discursos inflamados daqueles âncoras de rádios que só falam de trânsito e, claro, de todos os cidadãos que parecem só pensar em seus automóveis. Mas, da Alemanha, dois fatos recentes me fazem ainda ter a esperança de que podemos mudar os rumos do planejamento de transportes no Brasil.

Primeiro, o novo presidente da associação de ciclistas de Hamburgo, Dirk Lau, saiu na imprensa defendendo a velocidade máxima de 30 km/h em praticamente todas as ruas da cidade. Pode parecer maluquice? Ou maluquice seria continuarmos nos matando com um trânsito com velocidades inseguras para todos? E veja bem: a proposta é para Hamburgo, com índices de acidentes bem menores que nas cidades brasileiras, onde uma única morte é suficiente para provocar debates acalorados sobre segurança no trânsito. A própria prefeitura de Hamburgo não desqualifica a racionalidade da proposta. Pelo contrário, informa que tem trabalhado bastante para ampliar as regiões em que a velocidade máxima é 30 km/h. Em agosto, a prefeitura teria identificado 41 vias ou trechos viários onde seria possível implementar este limite de velocidade. E em sua cidade? O que será que a prefeitura ou a secretaria de transportes faz, neste sentido?

O segundo fato é o estreitamento do leito carroçável de uma rua no centrinho do bairro onde moro (foto). As obras ainda não acabaram, mas já é possível observar que veículos terão menos espaço para circular por aquela via. É claro que o estreitamento vem no bojo da inauguração de um novo terminal de ônibus e, por isso, o trânsito na rua deve ser reduzido. Mas, mesmo assim, por que não vemos no Brasil ruas serem reduzidas, mas apenas alargadas? Será que não estamos, assim, dando atenção apenas ao automóvel e fechando os olhos para a vida?

(Foto: Rua dará mais espaço para a vida. Thiago Guimarães)

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 14/10/2010, às 13:43





Desinstalar o “grande irmão” nas cidades

24 10 2010

Como você se sente no espaço público tendo seus movimentos registrados por câmeras de vídeo, sendo constantemente observado? No Brasil, parece que não estamos muito aí para isso. No geral, pensamos que o máximo que pode acontecer é aparecer em algum programa de televisão. Além disso, os altos índices de violência costumam ser álibi para tudo: muros mais altos, cercas elétricas, um exército de seguranças particulares e cada vez mais câmeras.

No outro extremo está a Alemanha, uma das nações mais ferrenhas na defesa de certos direitos civis. O país já conseguiu boicotar um censo demográfico nacional na década de 1980 e, até hoje, a coleta de impressão digital e as propostas de cartões ou documentos únicos são tabus. A adesão a redes sociais como o Orkut, o Facebook ou o Twitter acontece, no geral, com notável atraso e desconfiança em relação a outros países.

Câmeras de vídeo são o símbolo de um brutal ataque a direitos de personalidade. Mesmo assim, elas se fazem cada vez mais presentes no espaço público. Eu mesmo sou vigiado praticamente todos os dias. Basta pegar o metrô ou um ônibus para ser obrigado a deixar a imagem registrada. Até quando vou ao centro comercial do bairro, tenho de ceder minhas imagens a alguma companhia de segurança privada. O “Big Brother” em escala urbana está cada vez mais presente.

Mas a recente instalação de uma câmera de vídeo na região central de Oldenburgo, na Baixa Saxônia, foi a gota d’água que alguns ativistas esperavam. Eles estão convocando a população a trazer ferramentas – alicate, marreta, rebarbadora – para desmontar o equipamento no dia 5 de junho. Se bem que a principal ferramenta para esse desmonte é uma informação divulgada pelo governo daquele estado. Levantamento com 3.345 câmeras constatou que 99% delas funcionam em desconformidade com a legislação de proteção à privacidade. Ou faltam placas do tipo “Sorria, você está sendo filmado” ou os dados gravados não são apagados como deveriam. Até câmeras em provadores de roupas foram encontradas. O estado da Baixa Saxônia – onde o número de câmeras instaladas pelas prefeituras passou de 54, em 2001, para 498 – está sendo chamado de “BigBrother-Wonderland”, o paraíso do patrulhamento.

O assunto toma novas proporções, quando o gigante da internet Google – com o modesto pretexto de querer organizar as informações disponíveis pelo mundo – começou praticamente a “escanear” cidades inteiras e divulgar suas fotos na internet. Com o Google StreetView, pode-se passear virtualmente por ruas de diversos países do mundo… mas não alemãs. A empresa e o governo chegaram a um acordo, e as fotos só poderão começar a ser publicadas, depois que casas, apartamentos, quintais e pessoas receberem um tratamento de imagem e ficarem irreconhecíveis. No Brasil, o relacionamento com o Google é outro. Ninguém faz auê com relação aos direitos individuais. Pelo contrário, o brasileiro tira sarro. O máximo que acontece é a republicação de curiosidades captadas pelo Google, como faz este site. A partir daí, podemos pensar o quanto queremos ser observados no Brasil.

Por que esse assunto interessa ao Pra lá e pra cá? Bem antes do 11 de setembro, segurança é tema obrigatório para conceber cidades brasileiras. Nenhum projeto pode vingar sem dar atenção ao tema que mais preocupa os moradores de áreas urbanas. No entanto, temos reagido a ele na maioria dos casos com uma exagerada fé em tecnologias que dão, no máximo, uma momentânea sensação de segurança. (Como mostra a recente tentativa de atentado terrorista nos Estados Unidos, câmeras podem ajudar a esclarecer atos ilegais – mas não a inibi-los.)

Instalam-se câmeras de vídeo e aparatos de segurança por toda a parte, como se fossem a única solução. Com isso, atropelam-se direitos que deveriam ser melhor protegidos, gastam-se montantes impressionantes no mercado da segurança, mas não se resolve a questão da violência urbana. Sem querer dar as costas para avanços tecnológicos, precisamos pensar com criatividade formas de reconquistar o espaço público e tornar ruas, praças, avenidas, parques mais atrativas tanto para quem mora e circula na cidade. De preferência, sem a companhia de nosso “grande irmão”.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 06/05/2010, às 12:10.





Corrupção, o grande vilão da sustentabilidade

11 06 2010

Uma das melhores formas de incentivar homicídios em São Paulo é deixar as autoescolas seguirem descaradamente o rumo da corrupção, à sombra de fiscalização ou controle. Lanço essa tese com base nas informações do repórter do UOL Arthur Guimarães, que não teve dificuldade para detectar esquemas fraudulentos em três das cinco escolas que visitou recentemente. É o tipo da notícia de deveria tirar o sono de todo cidadão que tem amor pela vida.

Pare e observe por um momento o tráfego na rua. Agora, tente adivinhar, quantos motoristas estão de fato habilitados a conduzir um veículo? E quantos não estão? Não tenho essa resposta. Mas e se jornalistas – ou, melhor ainda, aqueles que têm por dever controlar – visitassem todas as escolas da cidade? Quantas delas oferecem a habilitação a pessoas despreparadas por algumas dezenas de reais a mais? Sessenta por cento?


A Companhia de Engenharia de Tráfego divulgou nesta semana que 1.463 pessoas morreram no trânsito da cidade de São Paulo em 2009. Melhor dizendo: 1.463 morreram em consequência inequívoca do trânsito de veículos. Somem-se a eles os que morrem (ou tiveram a morte apressada) por causa da poluição atmosférica, mas que não são tabulados pela CET. Somem-se a eles as pessoas feridas, os ferimentos irreversíveis, os traumas, as dores familiares, as consequências para a sociedade. Feitas essas somas, concluiremos que, ainda que o número de mortes “em consequência indiscutível do trânsito de veículos motorizados” tenha diminuído, ele continua absurdamente elevado.

A pergunta que se faz então é: em que medida a carnificina provocada pelo trânsito nas ruas da cidade tem a ver com o mau preparo dos motoristas? O combate à corrupção ajudaria a reduzir o número de acidentes e de mortes? Estou absolutamente convicto disso, já que um trânsito humano é um dos pilares da mobilidade sustentável. Obter a habilitação para manipular qualquer arma – seja ela um revólver ou um carro – deveria ser uma das coisas mais difíceis e sérias. Enfim, o oposto da facilidade que o repórter constatou para se renovar a CNH em São Paulo.


Na Alemanha, é difícil e caro conseguir a habilitação. A maioria das pessoas que conheço por aqui reprovaram, pelo menos uma vez, no teste prático. O próprio exame teórico não deve ser menosprezado. No Brasil, as boas intenções de especialistas e legisladores – em parte consolidadas no Código de Trânsito Brasileiro – são desmoralizadas diante dos esquemas ilegais promovidos por autoescolas. Esquemas esses que nem as autoridades veem ou para os quais é feita vista grossa?

Para construir caminhos para a mobilidade sustentável, precisamos nos alimentar diariamente de ideias inovadoras, avaliar experiências em outros lugares e discutir as alternativas. Não raramente somos obrigados a sonhar. Mas, de minha parte, confesso que às vezes bate o desânimo. Que futuro pode-se esperar da mobilidade em uma sociedade, em que a corrupção está infiltrada até mesmo nas instituições que existem para educar ou naquelas (como o Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo, que há anos é alvo de suspeitas e investigações) que existem para prestar serviços ao cidadão? Maior respeito aos pedestres e ciclistas, shared space, redução da velocidade em zonas residenciais… tudo isso fica só no universo das remotas possibilidades, enquanto boa parte das instituições ligadas ao “sistema trânsito” estiverem atreladas à corrupção no Brasil.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 18/03/2010, às 10:21





Viajar de avião é cada vez mais constrangedor

12 03 2010

Depois desse Natal, foi-se definitivamente o tempo em que se podia relaxar e deixar-se levar em uma viagem de avião. A década do medo nos aeroportos acaba de ser inaugurada, depois que um passageiro supostamente vinculado aos terroristas da Al-Qaeda ameaçou detonar um explosivo no último 25 de dezembro.

Como consequência dessa tentativa de atentado no espaço aéreo dos Estados Unidos, diversos países se mobilizaram e devem instalar ainda neste ano scanners de corpo inteiro em seus aeroportos. Heathrow, em Londres, deve ter esse portal. Quem fizer viagem aos Estados Unidos partindo da Holanda, também terá de se submeter ao equipamento provavelmente ainda neste mês. Com o apoio do sindicato dos policiais, a Alemanha planeja adotar scanners de pessoas de última geração em 2010, talvez com uma fase de teste já em 2009. Deve ser adotado um modelo de scanner que produz imagens com menos nitidez nas áreas íntimas.

Mas esse porém não deveria nos confortar. Ninguém discute que, para a detecção de armas, explosivos e substâncias ilegais, os equipamentos são mais eficazes do que as revistas manuais feitas pelos seguranças. Por outro lado, são bem menos discretos. O que está em jogo não são os requintes tecnológicos do scanner, mas até onde vai essa paranoia de segurança. Aliás, ela já me incomodava muito antes dos novos scanners e das intenções norte-americanas de se proibir totalmente a bagagem de mão. Em Bruxelas, todo mundo tem de desnudar os pés para embarcar. (Lá que eles deveriam oferecer as sandálias da humildade…) Não importa se você está vestindo um par de tênis, sapatos ou chinelos. Outra medida preventiva bem chatinha é a restrição aos transportes de líquidos.

A revista “Der Spiegel” conta o caso de um turista que queria levar para casa uma garrafa de vinho do Porto. A segurança disse que era proibido. Beber ou largar a garrafa ali mesmo no aeroporto. Era um Porto. O sujeito resolveu tirar a garrafa da bagagem e tomar o vinho. Mas a segurança voltou a barrar o passageiro. Porque agora ele estaria bêbado demais…

Além disso, fica cada vez mais difícil fazer uma viagem aérea sem ter que revelar a estranhos que portamos um marcapasso, uma prótese aqui, uma outra ali. Até onde estamos dispostos a abrir mão do direito à privacidade e outras liberdades por conta da segurança?

Claro que os brinquedinhos de segurança não devem ficar só nos aeroportos. Aos poucos, eles se libertam e preenchem outros espaços. Escâneres de corpo apontam a vanguarda dos acessos aos condomínios exclusivos em cidades como São Paulo. Eu mesmo não duvido que, logo mais, terei de aceitar posar nu para o porteiro se quiser visitar um amigo meu.

Em Berlim, um amigo hondurenho teve de mostrar a cueca ao guarda para conseguir o acesso de visitante ao prédio do Parlamento Alemão. Não pense que ele não foi levado a uma sala e ali, com alguma privacidade, revistado. Um monte de gente viu a cor da cueca dele na entrada do saguão do Parlamento. Alguns museus e casas de cultura também são assim: segurança acima de tudo. Por coincidência, justamente nesses lugares as exposições nem costumam ser lá tão boas…

Antes de passar por portas giratórias (e normalmente ficar travado no meio delas), de me ver preso em uma espécie de gaiola antes que uma próxima porta seja aberta ou ter de ser revistado, penso duas vezes se devo seguir adiante. Até porque, como bem lembrou um executivo da Lufthansa, “até hoje nenhum terrorista foi preso, revirando-se bagagens de mão”.

Sei que, em muitos casos, um boicote a voos é impensável e que determinados trajetos são só praticáveis em avião. Mas a paranoia com a segurança (e a inevitável consequência do aumento das filas de embarque) é mais uma razão por que prefiro outros meios de transporte.


Nessa semana, estive tuitando um pouco sobre as anedotas do (anti)planejamento urbano no Brasil. Quatro fatos que merecem sua atenção:

1) Uma rua foi vendida para uma rede de supermercados, em Cuiabá. Mais aqui.

2) “Além dos tradicionais conselhos sobre cuidados com as bolsas, celulares e veículos, a PM passou a orientar neste ano que os turistas do litoral incluam nos procedimentos de segurança a elevação dos muros e mudança de portões de suas casas.” Mais aqui.

3) “Embora o governador do Rio, Sérgio Cabral, tenha defendido a ‘radicalização’ contra a ocupação desordenada das encostas de Angra dos Reis, moradores e ambientalistas de Ilha Grande recolhem, há quatro meses, assinaturas contra um decreto de Cabral que abriu uma brecha para novos imóveis na região.” Mais aqui.

4) “Ao fazer o balanço de sua pasta, Moraes afirmou que os índices de lentidão na cidade do ano passado estão no mesmo patamar de 2007, mas não apresentou números.” Mais aqui.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 07/01/2010, às 19:38





Quem é contra a segregação urbana?

11 12 2009

A pesquisa de Marcelo Lopes de Souza tem procurado respostas a essa pergunta e indicado caminhos bem interessantes. O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro acredita que a boa política urbana é aquela que aumenta a liberdade dos cidadãos. E os bons cidadãos não esperam soluções vindas do Estado, mas fazem parte de “uma esfera pública dotada de vitalidade”, como escreve no livro “Mudar a cidade” – obra que já havia citado em outra ocasião.

Condomínios exclusivos, o fechamento de ruas públicas, a induzida segregação das classes sociais menos abastadas em favelas, o domínio de traficantes sobre amplas partes do território urbano: esses são sinais de que os moradores de cidades brasileiras estão perdendo liberdade e qualidade de vida. Seria necessário refundar a democracia, a partir de uma compreensão “autonomista” de planejamento urbano, na qual movimentos sociais e ativismos desempenham um papel fundamental.

Abaixo seguem os melhores trechos da entrevista realizada por e-mail.

Em sua opinião, quais bons projetos para o desenvolvimento urbano estão em curso no Brasil atualmente?
Não vejo, atualmente, nada que eu considere muito animador. A atual conjuntura (diferentemente da dos anos 90) tem sido de uma enorme mediocridade. É claro que estou fazendo uma apreciação “no atacado”. E, mesmo enquanto coisas pontuais, não vejo nada que me suscite um “oh! Que bela experiência!”. É um período, por assim dizer, de “entressafra”… Eu bem que gostaria de dar alguns bons exemplos, mas a única coisa honesta é, no meu entendimento, sublinhar a necessidade de, pelo menos, se construir uma nova conjuntura.

Como implantar um projeto de planejamento urbano autonomista em uma sociedade altamente desigual, como a brasileira?

Não se trata de implantar propriamente um “projeto” (em sentido técnico estrito), mas sim de desencadear um processo. Sem movimentos sociais importantes e com capacidade de mobilização, isso não existirá. Isso pressupõe coisas como a capacidade de organizações da sociedade civil de promoverem iniciativas consistentes em matéria de desalienação/conscientização, construção de circuitos econômicos alternativos (independentemente do Estado, na medida do possível) etc. Não há receita para isso. Há indícios e evidências de que movimentos autogestionários estão surgindo, no Brasil e em outros países, desde os anos 90; é o que tenho chamado de a “nova geração” dos “novos movimentos sociais”. Podemos, perfeitamente, caminhar cada vez mais para um aprofundamento da sociedade disciplinar e de controle, em que cada vez mais gente estará disposta a abrir mão não apenas da sua privacidade, mas sim de várias liberdades, em nome da “segurança”, estando a “insegurança” relacionada, em larga medida, com a manutenção e o aprofundamento dos fossos econômico-sociais e social-psicológicos. Mas é possível que, exatamente em função da crise, respostas emancipatórias continuem a emergir, tornando-se mais fortes e influentes. A história dirá.

Ativistas e movimentos sociais também podem mais atrapalhar do que contribuir para o planejamento urbano em uma perspectiva autonomista?
É lógico que, por um lado, organizações de movimentos sociais não são infalíveis, e, por muitas razões, erros podem ser cometidos. Além do mais, elas não são todas iguais: existem organizações mais “horizontais” (e até mesmo autogestionárias), enquanto que outras são bastante “verticais” (hierárquicas, centralistas)… O que desejo ressaltar é que, no meu entendimento, a iniciativa de transformações emancipatórias realmente substanciais haverá de ser, basicamente, de movimentos sociais e não do Estado, ainda que, por razões pragmáticas, seja muito importante, para os próprios movimentos, aproveitar a margem de manobra propiciada por certas iniciativas estatais.

Cabe sempre ao mercado um papel nocivo no processo de planejamento urbano?
O que se tem visto, como “parceria público-privado”, em matéria de aliança entre o Estado e o capital privado, é uma exacerbação do que, do meu ponto de vista, sempre houve: o Estado socializa custos e realiza investimentos que, depois, darão origem a ganhos largamente capturados de forma privatizada e “oligarquizada”. E isso tem sido assim nos EUA, no Brasil, na Inglaterra… É o próprio “neoliberalismo urbano”, que tem sido chamado, também, de “empreendedorismo urbano” ou “empresarialismo urbano”.

No mês passado, os vereadores paulistanos aprovaram uma lei específica para o fechamento de ruas em áreas residenciais. No primeiro turno de votação, nenhum parlamentar se manifestou contrariamente. Se políticos não o fazem, o que os cidadãos paulistanos podem fazer para frear a segregação sócio-espacial na cidade?
Esse é apenas mais um capítulo de uma novela, que começou há muito tempo e que ainda está longe de terminar. Muitos logradouros públicos já vêm sendo fechados há anos e não raro com autorizações dadas pelo Executivo municipal, em várias cidades. “Privatiza-se”, de certo modo, o espaço público, em nome da “privacidade” e da “segurança”. Inconstitucional, em última análise  –  mas, e daí? Vejamos a enorme quantidade de contradições e atritos, e de “ilegalidades legalizadas”, que se vão multiplicando pelo Brasil afora. Por exemplo: muitíssimos “condomínios fechados” são, na realidade, loteamentos fechados; e, à luz da Lei 6.766/1979, são ilegais, pois loteamentos, que abrigam logradouros públicos em seu interior (e nisso diferem dos verdadeiros condomínios), não podem ser fechados. E o que se faz? Tenta-se, de toda forma, em nome do “realismo”, legalizar esse tipo de situação no Congresso Nacional, por meio de lei, o que facilitará, ainda mais, a proliferação de (pseudo)condomínios. E aí faço a pergunta: será que os paulistanos (ou os cariocas, os belo-horizontinos etc.) estão, no momento, muito interessados em frear a segregação sócio-espacial? Ou será que, prisioneiros de um imaginário conservador (cada vez mais modelado pelos interesses da sociedade de controle em que vivemos), não estão, cada vez mais, aderindo à mentalidade de “dos males, o menor”?? Quem, de fato, está interessado em denunciar tais ilegalidades, em reverter a segregação e a autossegregação??

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 22/10/2009, às 18:32





Perigo na garupa

14 08 2009

Nas ruas estreitas, sinuosas e pouco planas das favelas, ele já é realidade há um bom tempo. Graças à ausência do Estado, nasceu, cresceu e evoluiu clandestinamente. Hoje é uma opção de transporte em mais da metade dos municípios brasileiros. Mas agora – só agora! –  o mototáxi ganha reconhecimento em Brasília e em breve poderá circular conforme leis municipais nos quatro cantos do país.

Na cada vez mais travada São Paulo, o mototáxi é apontado como o coringa que pode livrar o cidadão dos congestionamentos diários. Quer chegar rápido? Vá de moto. Motocicletas são veículos ágeis, tão rápidos como os carros no fluxo livre e que não ficam no fim da fila do engarrafamento. Entrecortam, trocam de faixa, tiram uma lasca do espelho retrovisor, concentram-se na “pole position” na esquina quando o sinal está fechado. (Aliás, para muitas motos, nem há sinal vermelho: ganha um brinde quem nunca tiver flagrado um entregador de pizza ou de qualquer outra coisa furando o vermelho…)

Desde o começo dessa história, está claro que, em Brasília, a regulamentação da profissão de mototaxista é irreversível. Não porque o mototáxi é um fato consumado e, assim, a lei teria que reconhecer a realidade. Em primeiro lugar, a medida é até coerente com a obsessão do governo federal pelo crescimento econômico a qualquer custo (sabe-se lá quantos empregos serão criados com a medida…) e com a incapacidade dos municípios de desenvolverem opções sérias e inteligentes para o transportes nas nossas cidades. Investimentos em transporte público sobre trilhos e em meios sustentáveis de locomoção? Deixemos o mundo acabar para depois pensar nisso.

A aprovação de leis nas cidades será uma questão de tempo. O vereador tucano Ricardo Teixeira já divulgou sua idéia para a cidade de São Paulo. Mototáxi? Sim, mas só na periferia! É bem interessante acompanhar os bastidores, as entrelinhas e as contradições dessa história. Pois, por mais que se tente, não dá para esconder a violência do trânsito paulistano que mata quatro pessoas por dia e que motociclistas fazem parte do topo dessas estatísticas. São e deverão continuar sendo atores e vítimas dessa violência. Afinal, o que mais aconteceu em São Paulo, depois do fracasso das faixas exclusivas para motos? Então, por que permitir mototáxis, se ainda nem conseguimos assegurar condições mínimas de segurança para a circulação de motocicletas em geral? Adicionar mototaxistas no explosivo cotidiano da mobilidade das grandes cidades brasileiras não mostra apenas o poder do conservadorismo (“já é assim mesmo, tem que regulamentar”) e da informalidade em nosso país. Em primeiro lugar, ridiculariza qualquer um que defende, com base em argumentos, a segurança no trânsito como valor central de uma política de mobilidade minimamente razoável. Que venha o mototáxi!

(Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 16/07/2009, às 16:27)





É pique!

12 09 2008

É, minha amiga, meu amigo… Este blog, quem diria, comemora neste sábado seu primeiro aniversário aniversário. Aliás, sopra velinha junto com o autor do blog e, mais importante ainda, no mesmo dia em que o atual Plano Diretor da cidade de São Paulo foi publicado. Mas o Plano é assunto para outro dia. Retomarei hoje o assunto que mais me animou nesses últimos doze meses de posts.

Sexta-feira participei de uma excursão a Bohmte. Bohmte — nem os alemães sabem disso — é a única cidade alemã que implantou o conceito shared space, que poderia ser revolucionário em áreas delimitadas de cidades feitas quase que exclusivamente para automóveis, como São Paulo.

Shared Space

Shared Space: humanização do trânsito por meio do estranhamento

Eu já havia lido sobre shared space, visto fotos, vídeos. Mas nada como sentir-se sem saber o que fazer em um lugar onde as regras convencionais de repente não existem mais. Confesso que até para atravessar a rua foi estranho. Mas a idéia é justamente essa: obter segurança para todos a partir do sentimento de insegurança de cada um.

Parece ilógico, contraditório. Mas como ninguém sabe muito bem o que podem fazer, todos se comportam com muito mais cautela. Resultado: menos acidentes, menos mortes no trânsito. Semáforos, placas de trânsito, faixas de pedestres — enfim, a maioria das regras — desativam em nosso inconsciente a cautela que deveríamos ter. Ao ver o sinal verde, o motorista se sente amparado pela lei e pisa fundo, sem atentar ao que os outros fazem. Mesma coisa, o pedestre na calçada e o ciclista na ciclofaixa. Porque cada um se sente literalmente “o dono do pedaço”, ocorrem acidentes.

Servindo um delicioso bolo de ameixa, o prefeito Klaus Goedejohann recebe por semana duas levas de gente interessada em conhecer o lugar sem placas. Ele explica que, na verdade, o código nacional de trânsito ainda vale: preferência de quem vem pela direita e atenção constante no trânsito. Além disso, não se trata apenas de arrancar placas. O piso vermelho, todo ele no mesmo nível, e uma sutil compressão do espaço disponível para os grandes veículos também fazem parte do projeto, assim como uma atenção especial a pessoas com deficiências.

O shared space se estende por 400 metros ao longo da principal rua da cidadezinha de 7 mil habitantes e chega literalmente até as portas da igreja. Por ali, passam cerca de 13 mil veículos por dia, dos quais mil caminhões e 40% trânsito de passagem. Ocorriam 35 acidentes por ano. Desde maio, quando tudo ficou pronto, ninguém se machucou, nenhuma batida aconteceu.

Em Bohmte, o projeto só saiu mesmo do papel depois de vencidos todos os entraves burocráticos. As obras começaram em 12 de setembro do ano passado. Todo o projeto custou 2,1 milhões de euros. De acordo com o prefeito, o mesmo valor que custaria a renovação da rua nos moldes tradicionais. A cidade mesmo arcou com pouco mais de 70% do custo. O resto foi financiado com fundos da União Européia, do governo alemão e de outros parceiros.

Pior que os custos: o prefeito teve de enfrentar sobretudo funcionários da administração acostumados com pistas para veículos, calçadas e ciclovias. Fazê-los entender que se tratava de algo novo foi um processo tão moroso e travado, que por pouco não colocou tudo a perder. A permissão para o shared space só veio depois que cidade se comprometeu a refazer tudo do jeito que era, caso o novo conceito não desse certo.

É cedo para falar em resultados. Mas não é essa uma bela história? Vale lembrar: na Alemanha, para uma população de 80 milhões de habitantes, existem 20 milhões de placas de trânsito. A maioria delas, supérflua ou desnecessária, de acordo com uma organização especializada em transporte.


Aproveitando que o assunto chegou com um belo infográfico nas páginas da Superinteressante desse mês, vamos retomar o assunto pedágio urbano. E retomamos com notícias fresquinhas de Londres: os congestionamentos no centro — onde a cobrança vigora desde fevereiro de 2003 — voltaram no nível de antes da introdução do pedágio. Os opositores da restrição estão no clima “Tá vendo? Eu falei que isso não ia dar certo…”

Mas esse dado quer dizer que o pedágio não adiantou em nada? Peralá! Também não é assim. A medida levantou um belo dindim para o transporte público da cidade e contribuiu decisivamente para diminuir o volume de tráfego de automóveis particulares. Menos carros circulando, menos poluição também. Resultados melhores ainda são observáveis na área ocidental, onde o pedágio só existe desde 2007.

Mas isso tudo a gente só descobre, depois de se debruçar sobre as mais de 200 páginas do novo relatório publicado pela agência de transportes londrina. Relatório esse que é muito mais uma peça de marketing político do que um trabalho científico que busca alguma objetividade. Por isso, é preciso cuidado. Respostas a perguntas cruciais são deixadas de lado e os resultados negativos são apresentados de um modo tão sutil, que até espanta.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 11/09/2008, às 17:01