Shared space

25 08 2008

No rigoroso inverno de 2005 (ano em que a Rússia registrou quarenta graus negativos), fiquei inconformado com uma situação banal que vivenciei no cruzamento de duas ruas no norte da Alemanha. Já era noite e fazia um frio desgraçado. De frente para a faixa de pedestres, sem ver carro algum vindo de nenhum dos lados, tive de esperar o verde por dois intermináveis minutos. Afinal, não podia dar mau exemplo a crianças que poderiam estar me espiando de alguma janela ou aos velhinhos, de quem sou vítima freqüente de abordagens ao estilo puxão-de-orelha…

Ora, a regra em primeiro lugar, acima do bom senso… Primeiro pensei: típico alemão. Mas depois ponderei. Se no Brasil as regras também fossem rigorosamente obedecidas (40 km/h são quarenta e não oitenta; vermelho não é verde; etc.), poderíamos ter menos acidentes, menos mortes. Bem que valeria a pena perder dois minutos em nome da segurança, da educação para o trânsito e do bem-estar coletivo.

Mas será que a hiperregulamentação traz de fato mais segurança? Alguns estudos sugerem que não. Faixa de segurança, placas, semáforos… Essa parafernalha toda pode produzir uma sensação de segurança que não condiz com a real incidência de acidentes. Seria tão perigoso atravessar uma rua com ou sem sinalização. Mais ainda: seria mais perigoso atravessar uma rua do que andar entre veículos, em um espaço compartilhado por todos os participantes do trânsito.

Essa é a idéia central do conceito de shared space. Arrancam-se todas as placas, semáforos. Saem de cena os sinais convencionais e a tradicional separação do espaço público em calçada, via, ciclovia. Ganha espaço o olho no olho. No começo pode parecer estranho. Mas é exatamente essa a idéia bastante badalada em Hamburgo, que pode ser primeira grande cidade européia a implantar o projeto. Cinco distritos da cidade — inclusive o meu — se inscreveram para ter a “rua para todos”. Na metrópole, o shared space seria acompanhado de três simples regras: respeito, preferência para quem vem da direita e velocidade máxima de 30 km/h para os automóveis.

O holandês Hans Moderman é considerado o inventor da idéia de conceber um espaço público compartilhado por todos os meios de transporte e privilegiar as regras sociais de convivência em detrimento das leis de trânsito. Antes de falecer, em janeiro deste ano, Moderman costumava dizer que a formação do espaço viário influencia mais o comportamento das pessoas do que placas.

Ele dizia o seguinte: “Quando as pessoas entram numa igreja, elas se comportam como em uma igreja. Se vão à discoteca, comportam-se de outra forma. Se quisermos que as pessoas se comportem como em uma igreja, não podemos construir discotecas. Mas nós, planejadores de transporte, construímos discotecas demais…”

Com recursos da União Européia, o shared space foi implantado em áreas estratégicas de sete cidades — na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, no Reino Unido e na Dinamarca. Nelas, a velocidade dos carros diminuiu, mas, sem luzes vermelhas (às vezes, acesas à toa), a fluidez melhorou.

Em São Paulo, o shared space seria possível e desejável? Poderia ancorar um processo pedagógico, no início, em vias e cruzamentos não muito movimentados, mas em locais estratégicos. A libertação da cidade de parte dos problemas de trânsito poderia vir junto com um conceito emancipatório, que transfere a responsabilidade pela convivência nas ruas àqueles que deveriam ser os principais interessados: os próprios cidadãos.


Recomendo também o excelente post do Sakamoto em 22 de julho.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 24/07/2008, às 17:07

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É verdade, está vermelho!

1 11 2007

Verde: siga adiante. Amarelo: atenção. Vermelho: pare! Sério mesmo: tem que parar!! Parece que os motoristas paulistanos se acostumaram a ignorar o sinal, nos primeiros segundos de rubro. O farol está fechado, mas os carros continuam passando na maior cara-de-pau.

Com isso, vamos nos acostumando um quarto tempo do semáforo, que faz mudar o sentido de todas cores. O verde significa, na prática, “pé na tábua”. O amarelo, “vai, que é sua”. Os primeiros quatro ou cinco segundos de vermelho representam um “pode ir, que ainda dá”. E só então, vem o vermelho mesmo. “Está fechado. Mas, se não vier nenhum carro e se não tiver guarda à vista, acelere.”

Nesses tempos em que a pressa se socializou, ninguém espera até o próximo verde. Todo mundo pode se espichar para ver se o sinal da rua perpendicular já ficou amarelo. Em caso afirmativo, já comece a acelerar. Você logo verá sinal verde, mas por que deixar para depois o que você já pode fazer agora?

Quebrar a regra do semáforo, no entanto, não significa apenas deixar de observar uma norma cristalizada quase no mundo inteiro. Em primeiro lugar, significa submeter os pedestres a uma condição de insegurança extrema e, assim, transformar as ruas em um espaço privativo daqueles que mais podem. Apertar o cerco contra quem desobedece ao sinal vermelho é uma das principais atitudes que autoridades poderiam tomar para proteger a vida e resguardar o respeito que deveria vigorar em nossas ruas.

Em Hamburgo (segunda maior cidade da Alemanha), a não obediência ao vermelho provocou nove mortes, ferimentos graves em 137 pessoas e leves em 1376 cidadãos nos últimos três anos. Ao todo, foram 56 mil notificações de desrespeito ao sinal. Diante desse quadro, uma das lideranças do sindicato dos policiais de trânsito propõe pena mais rígida: “Quem mais de uma vez furar o sinal que está vermelho por mais de um segundo deveria realizar um teste psicológico”, defende Joachim Lenders. O policial observa que as atuais multas de € 50 e € 125 parecem não assustar mais os motoristas.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 01/11/2007, às 09:49





Contra furtos, as placas PET

11 10 2007
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Olhe só que número impressionante: o Brasil joga fora a cada ano 4.700.000.000 garrafas PET, como essas de refrigerante. Isso mesmo: 4,7 bilhões de garrafas vão parar em lixões, boiar em nossas águas ou entupir bocas-de-lobo. Apesar de ambientalistas apontarem a redução do consumo como a melhor saída, a reciclagem deste material é a solução que uma indústria catarinense de placas adotou para conciliar preocupação socioambiental com redução dos índices de furto.

A Sinasc compra as garrafas de cooperativas de catadores. Reprocessadas, 30 garrafas de refrigerante se transformam em um metro quadrado de placa. O material não-metálico custa 30% menos do que o similar de alumínio. Também ganha em durabilidade de seus concorrentes ferrosos, já que está menos sujeito à oxidação. Promovendo essa sinalização alternativa, a empresa caminha para obter a certificação ISO 14000.

De acordo com o gerente de marketing e desenvolvimento, Rodrigo Colleone, as placas PET ainda representam pequena parcela do faturamento e menos de 10% do volume vendido pela Sinasc. “Ainda há muita resistência por parte das prefeituras”, diz. Apesar disso, a demanda cresce e o produto já está presente em Florianópolis e em fase de teste pelas autoridades de Curitiba.

A mais recente boa notícia que chegou para a Sinasc é que seu produto exclusivo pode, desde o mês passado, orientar motoristas, pedestres e ciclistas no Rio de Janeiro. A companhia de engenharia de tráfego carioca, que chegou ao cúmulo de registrar o furto de uma placa a 5,5m do solo em menos de 20 minutos depois de sua instalação, decidiu que aceitará as placas PET na cidade maravilhosa.


A imagem da placa aí em cima me foi enviada por André Pasqualini, cicloativista envolvido na organização da Bicicletada do Dia das Crianças, programada para amanhã mesmo, dia 12. “Garanto que será tão interessante quanto o dia sem carro”, afirma André.Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 11/10/2007, às 16:53





A hora de renovar a carta

4 10 2007

Nem vestibular, nem cerimônia religiosa. Para um número crescente dos moradores das grandes cidades feitas para automóveis, o rito que marca mesmo a passagem da adolescência à vida adulta é tirar a carta de motorista. Ah, a carta… Poder entrar no carro e sentir a cidade passar rápido por seu olhar e pelo pedal do acelerador. Escolher para onde ir, sem ter que fazer baldeação. Ir à balada de carro e voltar tarde sem ter de correr para chegar a tempo na estação de metrô ou depender dos ônibus noturnos.

Bom, verdade seja dita: eu mesmo nunca cheguei a pensar que um carro me traria mulheres bonitas ou essa liberdade toda que a propaganda da TV promete. Se cheguei a pensar nisso, foi só por algumas horas até ficar preso em algum engarrafamento por aí. Mas ter conseguido tirar a carta foi demais. Sinal de que a baliza que fiz durante a prova prática foi suficientemente boa para obter a tão sonhada habilitação.

Essas memórias voltaram com força algumas semanas atrás, quando quis renovar a carta. O primeiro desafio foi descobrir o que seria preciso fazer. Tente aqui você também. Eu acho que entendi, mas li de novo e fiquei com a pulga atrás da orelha. Então, preferi confirmar na clínica onde fiz a avaliação médica se deveria ou não fazer o exame psicotécnico.

Depois passei alguns dias me preparando para o exame teórico (que, se realizado no prédio do Detran, sai de graça). Resolvi estudar a partir das informações que já são públicas e da velha apostila da auto-escola que, não sei por que cargas d’água, havia guardado desde aqueles tempos. Foi bom, porque descobri que, de uns tempos para cá, alguém andou inventando placas! Isso mesmo. “Proibido retornar à direita” é uma das que não existiam quando eu era mais jovem. Se bem que, até hoje, acho que nunca vi alguém querendo fazer um retorno à direita…

Outras placas mudaram de nome. Você sabia que, oficialmente, não existe mais “mão dupla”, mas apenas “duplo sentido de circulação”? Ficou mais chique, mas será que a nova expressão vai pegar? Por sua vez, “Veículos lentos usem a faixa da direita” virou “Ônibus, caminhões e veículos de grande porte mantenham-se à direita”. Será que agora os motoristas de caminhão (inclusive os que dirigem rápido demais) entenderão que não podem ocupar todas as pistas da Marginal?

Mas o que mais me chocou foi o artigo 88 de nosso Código de Trânsito Brasileiro (que você pode encontrar aqui). Veja essa: “Nenhuma via pavimentada poderá ser entregue após sua construção, ou reaberta ao trânsito após a realização de obras ou de manutenção, enquanto não estiver devidamente sinalizada, vertical e horizontalmente, de forma a garantir as condições adequadas de segurança na circulação.” Acho que o pessoal da Prefeitura está precisando renovar a carta para compreender esse artigo. Ou você já viu alguma rua ficar fechada aos automóveis até ser pintada e receber todas as placas?

Renovar a carta é um mal necessário ou uma “perda de tempo”, na opinião de muita gente. Para mim, valeu a pena passar pela experiência de renovar a carta. É um belo jeito de conhecer melhor as regras e até virar fã de algumas delas.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 04/10/2007, às 08:28