Solidariedade no trânsito

22 05 2008

Em São Paulo, isso existe? No dia-a-dia, a gente chega a duvidar. O mais fácil é flagar uma bárbara “guerra de todos contra todos” no asfalto. Motoristas disputam espaço um com os outros, xingam-se, chegam a se orgulhar de suas barbeiragens e, a não ser quando enxergam um radar, não estão nem aí para os limites de velocidade. Desrespeitam as pessoas e a cidade. Motociclistas também têm culpa no cartório. Enquanto buzinam e gritam (olha o ponto em que a selvageria chegou!), trafegam em um espaço mínimo entre as fileiras de carros. Sua pressa é mais importante do que qualquer coisa. Motoristas de ônibus despejam passageiros no meio da rua, o caminhão de refrigerante parado na esquina… O trânsito em São Paulo é assim. Brutal, perigoso, fatal. Essa guerra civil tira a vida de quatro pessoas por dia. E pior: a gente tem a sensação de que todo mundo assiste e ninguém faz coisa alguma.

Nesse cenário, a solidariedade tem alguma chance? Sim, dirá o governo. Sempre que os congestionamentos parecem se tornar insuportáveis, as autoridades recorrem a ações que procuram despertar a “consciência cidadã”. Medidas educativas, que deveriam ser executadas regular e continuamente, procuram cativar a solidariedade dos motoristas. Afinal, se em cada automóvel fossem transportadas quatro ou cinco pessoas ao invés de uma ou duas, como hoje em dia, o problema do trânsito não seria tão agudo.

Ontem foi o dia do Mutirão da Carona, promovido pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Motoristas sozinhos dentro dos carros que passaram por cruzamentos importantes receberam uma “multa de brincadeira”, um incentivo para um comportamento mais solidário. O secretário Xico Graziano justifica que a decisão de dar carona para alguém poderia contribuir para reduzir os malefícios dos congestionamentos e da poluição atmosférica. Mas o secretário ressalva: “Não para qualquer um, na rua, é claro, mas sim para seu colega de trabalho, seu amigo, na empresa, na escola.” Solidariedade, sim. Mas uma solidariedade seletiva, por causa da insegurança… Mas a questão principal é: os paulistanos mudarão seu dia-a-dia a partir dessa ação?

Anos antes do Mutirão, pistas de ruas importantes da cidade foram reservadas para automóveis que transportavam duas pessoas ou mais. Com pequena adesão, o programa fracassou e foi suspenso. Hoje, as faixas solidárias não existem mais. Impera o “salve-se quem puder” nas ruas. Da mesma forma, o Mutirão corre o risco de ter um efeito limitado, por apostar muito em um repentino despertar da consciência ambiental da população e pouco nos fatores concretamente considerados para a tomada de decisão da realização de um trajeto.

No entanto, experiências adotadas em menor escala podem trazer bons resultados. A Lufthansa Technik, dedicada à manutenção de aeronaves, emprega cerca de 7 mil funcionários em Hamburgo e, já no começo da década de 1990, nem tinha como oferecer uma vaga de estacionamento para cada um deles. Então, foi desenvolvido um projeto de mobilidade que incluiu diversas ações. A empresa operou uma linha de ônibus para conectar o local de trabalho a meios de transporte público. As vagas de estacionamento foram priorizadas para os carros que serviriam a “comunidades de carona”. Infra-estruturas para o estacionamento de bicicletas foram instaladas. Informações sobre o programa, que continha outras medidas, foram disponibilizadas em locais estratégicos da empresa.

Entre 1991 e 2003, o número de trabalhadores que aderiram ao transporte público saltou de 360 para 1.590 e o uso da bicicleta passou de 400 para 650. Membros das comunidades de carona beiravam a marca de mil trabalhadores. Milagre? Não. Decisões racionais baseadas em medidas objetivas adotadas pela empresa. Em São Paulo, o governo poderia — talvez até no bojo desse Mutirão — incentivar que empresas, condomínios e vizinhanças pensem e implementem programas visando a um uso menos intensivo dos meios individuais motorizados. Seria melhor do que esperar que um milagre salve nossa metrópole.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 29/05/2008, às 11:54

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Ao trabalho? Vá de bike! (parte 2)

8 05 2008

Vale a pena continuar a conversa com o cicloativista Leandro Valverdes, que começamos assim. Agora, ele explica por que as propagandas de automóveis são nocivas aos ciclistas e revela que ter um carro não está totalmente fora de seus planos.

Qual o maior inimigo dos ciclistas: os motoristas, a indústria automobilística ou os políticos?
Os três são inimigos “de respeito”, mas penso que há um maior, que é a propaganda. Assista a qualquer programa na TV em horário nobre e você verá slogans e mensagens como “ou você anda na linha, ou você anda no novo automóvel X”, “a vida na cidade é uma aventura” e por aí afora. A maior montadora do país não hesita em lançar uma campanha falando na preservação de “passarinhos”, “plantinhas” e “pôr-do-sol”. Uma outra montadora acha verossímil associar um de seus modelos ao termo “eco”, por mais insólito que isso possa parecer. Da mesma forma, uma fabricante de motos não se acanha em fazer um anúncio, em que seu último modelo, indestrutível, vai derrubando todo e qualquer obstáculo que cruza seu caminho pela frente. Infelizmente sabemos que é grande o número de vezes em que a incitação a um comportamento “arrojado”, “veloz” e “agressivo” atrás do volante termina em tragédia. Nas ruas há uma completa inversão de valores e os mais frágeis (pedestres, ciclistas, motociclistas) não têm preferência sobre os mais fortes (carros, ônibus e caminhões). Torço para que algum dia sejam aceitos processos contra os efeitos maléficos dessas propagandas, da mesma forma como hoje já se faz contra a indústria tabagista. A propaganda da indústria automobilística subverte a lógica das coisas sem medo de parecer ridícula.

Na sua opinião, os paulistanos são resistentes ou preconceituosos com relação à bicicleta como meio de transporte?
As duas coisas. A maior adversidade para quem usa a bicicleta como meio de transporte em São Paulo – porque não tem carro ou porque não quer utilizá-lo – não é sua topografia, seu gigantismo, seu clima, nem mesmo sua poluição: é o comportamento descuidado, por vezes até hostil, de parte de seus motoristas. No trânsito, ouve-se de tudo. De palavrões, que são a coisa mais corriqueira, até frases que incomodam mais, como um patético “Eu pago IPVA” ou, principalmente, “Sai da rua”. O motorista tende a negar ao ciclista o direito de trafegar na mesma via que ele.

O que levaria você a voltar a ter um automóvel?
A partir do momento que eu tiver filhos pequenos, acho que me verei obrigado a comprar um, mas pretendo utilizá-lo da forma mais racional possível. Mas quem sabe um dia eu consigo levar meus filhos para a escola assim? Ou, mais provável, talvez tenha que esperar para fazer isso com os meus netos, mas não custa sonhar. O fato é que em 2008 estamos, sem dúvida, passando por um ponto de mudança. Nunca se falou tanto de trânsito, que virou tema central dos candidatos à prefeitura. Torçamos para que seja uma mudança na direção certa.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 08/05/2008, às 05:27





Ao trabalho? Vá de bike!

30 04 2008

O Pra lá e pra cá aproveita a ocasião do Dia do Trabalho para perguntar: seu trajeto de todos os dias até o local de trabalho é feito de modo sustentável? O jornalista e cicloativista Leandro Valverdes, de 30 anos, conta um pouco de sua experiência como ciclista em São Paulo, explica por que a bicicleta é, além de mais sustentável, mais humana que o automóvel e ainda ressalta: para abandonar a dependência ao automóvel e começar a pedalar, ninguém precisa do preparo físico de um atleta.

Você pedala de fato vinte quilômetros por dia até chegar ao trabalho e outros vinte para voltar para casa?
Para ser mais exato, a média de cada trecho (de casa para o trabalho e vice-versa) é 18 km. Depende um pouco do caminho escolhido, mas na maior parte das vezes eu opto pelo caminho mais longo. Tal escolha só é possível, porque um ciclista sabe exatamente o tempo que levará entre um ponto da cidade e outro. E isso nenhum motorista paulistano consegue fazer! Sem pressa alguma e sem ser um atleta, mantém-se uma média de 17 km/h, que é semelhante senão superior à velocidade de um veículo motorizado na cidade. Eu procuro fazer meu trajeto por ruas dentro dos bairros, mesmo que o preço dessa escolha seja um número maior de ladeiras.

Como seus colegas de trabalho reagem a essa “aventura”?
A reação tende a ser uma mistura de incredulidade, admiração e curiosidade. Nos últimos tempos, com as sucessivas quebras de recordes de congestionamento em São Paulo – que, sem usar nenhuma dose de futurologia, serão batidos outras tantas vezes nos próximos meses –, eu tenho ouvido frases como “que inveja, você não fica parado neste trânsito”. Inveja em muitos casos injustificável, já que ao preço de talvez uns cinco tanques de combustível, eles poderiam comprar uma bicicleta e usá-la para ir ao serviço, nem que fosse uma vez por semana. Já há até um dia ideal para se fazer isso: o do rodízio de veículos. Mas aí surgem as desculpas. A principal delas fala da ausência de vestiários no local do trabalho. Contra esta, tenho pouco argumentos para responder. Afinal, o que fazer se no prédio onde trabalhamos há até um heliponto, mas não há um vestiário para quem optar por chegar de bicicleta?

O que levou você a vender seu carro, três anos atrás?
Fui quebrando aos poucos a dependência que todos temos em relação ao automóvel. Antes de vender, eu já vinha restringindo bastante o uso. Em 2004, ano eleitoral, houve uma piora sensível nos congestionamentos. E o lançamento do Bilhete Único também foi um impulso para eu deixar mais o carro em casa. Chegava a fazer mais de quatro baldeações no período de duas horas permitido, tentando chegar com a mesma rapidez e aos mesmos lugares que o carro me levava. Às vezes, conseguia até equiparar esse tempo do automóvel, mas geralmente não. Mas utilizar ônibus era certamente mais barato e menos estressante. Aos poucos, passei a utilizar também a bicicleta para ir a determinados lugares, conforme a distância, horário, condições do tempo, se havia lugar para estacionar a bicicleta…

O começo dessa nova rotina exigiu muito preparo físico, muita habilidade para pedalar com segurança?
Uma coisa importante a ser desmistificada é que quem usa bicicleta como meio de transporte não precisa ser atleta e, muito menos, não precisa ter uma bicicleta cara, “de corrida”, último modelo. (Veja, por exemplo, a visão completamente equivocada de um “ciclista urbano” contida neste infográfico.)
Claro que no caso de quem pedala diariamente 40 quilômetros e daí para cima, é necessário ter um certo preparo físico. Mas isso se ganha com o tempo, assim como a habilidade para pedalar com segurança. Quem se sentir inseguro no começo poderá sempre contar com a colaboração e boa vontade de ciclistas mais experientes. Quem quiser pode mandar uma mensagem para o email da Bicicletada e ver quantas pessoas se oferecerão para ajudar nas primeiras pedaladas, dando dicas de segurança e indicando caminhos.

Ao andar de bicicleta, você se relaciona com a cidade de um jeito diferente?
Com certeza, não só com a cidade, mas principalmente com seus habitantes. A bicicleta humaniza o trânsito, meio em que as relações entre as pessoas estão o mais “desumanizadas” possível. O ritmo é outro. O ciclieta avança “quarteirão por quarteirão”, como costumamos dizer. Um semáforo verde um pouco mais distante é um sinal para se parar de pedalar e aproveitar a inércia da bicicleta, e não pisar no acelerador, como qualquer motorista faria.
E essa diferença, de um ritmo lento e constante, em oposição ao “acelera-e-pára” dos automóveis, possibilita uma percepção muito mais rica em detalhes do caminho que se está fazendo. Sobra tempo para se observar as peculiaridades de cada bairro, rua e até dos moradores. Quem pode dizer que conhece, diariamente, uma pessoa no trânsito? Um ciclista pode. Não há um dia em que não recebo e retribuo pelo menos dez cumprimentos nas ruas. Toda a solidariedade que falta entre os motoristas tem de sobra entre quem usa bicicleta.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 30/04/2008, às 17:15