Sustentabilidade prostituída

27 03 2011

Feliz Ano Novo a todos que acompanham esse blog! E Feliz Ano Novo a quem desconfia do marketing em torno da palavra sustentabilidade. Se você tem um pé atrás quando lê sustentabilidade a torto e direito, você não está sozinho. Aqui em Hamburgo, esquenta o clima de desconfiança em torno dessa palavra. 2011 deve ser um bom ano para aprofundar as reflexões sobre esse conceito. Quer ver só?

Escrevi no último post que Hamburgo foi escolhida como a Capital Ecológica Europeia. Mas mesmo antes da virada de ano, organizações ambientalistas de peso como a Federação Alemã para a Defesa Ambiental (BUND) e o Greenpeace atiraram críticas ao modo como a cidade está se utilizando desse título.

A Federação, por exemplo, não se conforma com o fato de a Siemens – que quase sempre tem um dedo na construção de usinas nucleares e que quer se posicionar como líder mundial nesse filão – ser um dos principais patrocinadores de uma “cidade verde”. De acordo com os ecologistas, Hamburgo estaria prostituindo a sustentabilidade – por puro marketing. Os representantes da cidade acham isso um exagero.

É excelente que o conceito sustentabilidade tenha, nos últimos anos, ganhado espaço em diversas esferas – no Brasil, na Alemanha e em outros tantos lugares do mundo. A cada dia que passa, fica mais miúda a parcela daqueles que ignoram ou que tentam desqualificar a preocupação com o meio ambiente e com as mudanças climáticas. A primeira década deste século introduziu definitivamente o tema no mundo da política, dos negócios, da tecnologia e da cultura. Esse é um passo fundamental para as transformações importantes que ainda virão.

No entanto, as práticas continuam, em grande parte, as mesmas. Pelos relatos deste blog, percebemos que, no Brasil, os principais projetos urbanos na área dos transportes estão ainda presos a uma lógica que dá as costas para a temática ambiental. A novela da reforma do Código Florestal mostra que “sustentabilidade” é um conceito suficientemente maleável para ser usado até mesmo pelos setores do ruralismo mais atrelados à destruição dos biomas brasileiros. Atrás da palavra sustentabilidade, escondem-se e projetam-se atores das mais variadas matizes político-ideológicas e éticas. Separar o joio do trigo, isto é, diferenciar quem quer levar sustentabilidade mesmo a sério de quem quer só fazer firula com a nova palavra da moda, pode ser condição importante para por em funcionamento aquilo que se pretende com “sustentabilidade”.

Nesse sentido, as desavenças que se observa em Hamburgo podem ser iluminadoras, porque dão mais transparência em um terreno em que elas existem, mas raramente aparecem. Aliás, o próprio Partido Verde alemão atravessa, aos 30 anos, uma crise de identidade. Sua origem é próxima aos movimentos estudantil e feminista. Lutaram contra o ingresso da Alemanha na OTAN. Sempre foram contra a construção de usinas nucleares e a abertura de novas rodovias. Os verdes tinham um projeto humanista e internacionalista de emancipação, como relata Ludger Volmer em seu belo livro “Os Verdes”. Ainda têm?, pergunta o autor, pergunta a mídia e pergunta a opinião pública.

Hoje, o partido é a terceira maior força política na Alemanha e, conforme prognoses, deve ganhar terreno nas próximas eleições parlamentares. Mas, para isso, fez e ainda faz aliança justamente com as forças políticas que atravancam uma virada verde. É acusado não só de fisiologismo, mas de dar as costas ao movimento ambientalista e de esquecer seu próprio passado. Algo em comum com os partidos políticos brasileiros? Pois é…

Mas será que no Brasil vamos mesmo perguntar quem é sustentável para valer? A pergunta seria necessária, mas acho difícil. Somos muito bons em criar instituições cujos rótulos e embalagens nada dizem sobre suas práticas e conteúdos. Precisaremos encontrar jeitos realmente criativos para unir forças em torno de um projeto genuíno de sustentabilidade que, entre outras tarefas, tem a urgente missão de produzir outros tipos de cidades. Para isso, espero que nós todos entremos em 2011 com energia e inspiração.

(Imagem: o solzinho que diz não à energia nuclear é um símbolo verde dos anos 70. Hoje é bastante disseminado na Alemanha em forma de adesivos, bandeiras, camisetas, entre outros.)

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 06/01/2011, às 16:20





Descaso com a sustentabilidade

6 10 2009

No último post, escrevi que a indústria automobilística não apoiava a iniciativa do governo brasileiro de publicar informações sobre a emissão de gases dos veículos. Em vez disso, clamava por cautela. Considerando a postura das montadoras diante de esforços para trazer mais transparência aos danos ambientais e à saúde pública causados por automóveis, fica a pergunta: é legítimo esse pedido de cautela?

Uma equipe de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor tentou o diálogo com os fabricantes. No início de agosto, o IDEC enviou questionários por e-mail e correspondência impressa, solicitando informações sobre o nível de emissão de poluentes, sobre o grau de eficiência energética dos veículos e sobre os esforços da indústria brasileira para reduzir a emissão de poluentes.

Às seguintes empresas foram destinados questionários: Volkswagen do Brasil Ltda., Fiat Automóveis S.A., General Motors do Brasil Ltda., Ford Motor Company Brasil, Peugeot Citroen do Brasil S.A., Honda Automóveis do Brasil Ltda., Renault do Brasil S.A., Toyota do Brasil Ltda., Nissan do Brasil Automóveis Ltda. e Hyundai – Caoa Mont. de Veículos S.A.

Ao IDEC, as montadoras Toyota e Volkswagen pediram cautela. Demandaram um prazo maior para enviar as respostas. O prazo foi prorrogado duas vezes, mas até hoje nenhuma pergunta foi respondida. A Honda repassou a batata quente à Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que não reagiu. Os outros fabricantes ignoraram o pedido de informação. “Apesar de promessas e solicitação de adiamento de prazo para resposta, nenhuma montadora respondeu ao questionário do Idec”, conta a pesquisadora pesquisadora Adriana Charoux.

Fornecer informações ao consumidor brasileiro não seria custoso. Afinal, as matrizes dessas indústrias, nos países desenvolvidos, já dispõem dessa informação. A equipe do IDEC encontrou parte delas inclusive na internet. Daí o IDEC constatar que a indústria automobilística brasileira opera um “duplo padrão de informação” ou, trocando em miúdos, trabalha com dois pesos e duas medidas: a sociedade não sabe o que compramos, mas eles sabem bem o que vendem.

Mas o que explica a não adesão em massa do setor? Por que as empresas silenciam quando o assunto é meio ambiente e saúde pública? Esse silêncio pode ser interpretado como uma tentativa de encorbertar dados desagradáveis à imagem dessas empresas? O IDEC entende essa postura como um claro sinal de falta de compromisso com o consumidor brasileiro e como um descaso com o desenvolvimento sustentável. “As empresas preferem investir em publicidade sobre sustentabilidade a informar o consumidor sobre como ele, através da redução do consumo, pode colaborar no combate às mudanças climáticas”, afirma Adriana.

Até mesmo informações sobre a emissão de monóxido de carbono que deveriam, por lei, constar nos manuais dos veículos são omitidas. Portanto, também o Estado brasileiro silencia, faz vista grossa à legislação e não fiscaliza. Orientado ao crescimento econômico e à geração de empregos, o governo brasileiro reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados sobre a venda de veículos e transformou o Brasil em um dos melhores mercados de carros novos do mundo em tempos de recessão mundial. Poderia ter reduzido o IPI de modo seletivo, beneficiando apenas as montadoras que se enquadram na lei. Abriu mão da arrecadação de impostos, favoreceu de modo indiscriminado todas as montadoras, que continuam dando banana para o consumidor que quer saber o que está comprando e para o meio ambiente.

O IDEC promete, junto às montadoras, seguir tentando garantir ao consumidor “a informação que lhe é de direito”. O instituto não descarta a opção de, no futuro,  entrar com uma ação judicial para proteger os interesses dos consumidores. Mas tentará primeiro os meios extrajudiciais e administrativos. Provavelmente precisará de cautela. Muita cautela.

Assista a uma parte da palestra da pesquisadora Lisa Gunn, também do IDEC, durante as atividades do Dia Mundial Sem Carro em São Paulo, leia reportagem da Revista do IDEC sobre o tema e leia notícia da Folha Online sobre o recorde de vendas de veículos sob IPI reduzido.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 01/10/2009, às 14:55





Quem é verde põe o dedo aqui

20 12 2007

Falar hoje em sustentabilidade é fácil — ou, pelo menos, é bem mais comum do que há trinta anos. Mas ainda émuito complicado tirar algo sustentável do discurso e pôr em prática. No centro desta dificuldade está o transporte de pessoas. Pelo menos, é o que se conclui a partir de uma leitura da imprensa alemã.

Reportagem do jornal Frankfurter Rundschau destaca que o projeto internacional de redução das emissões de dióxido de carbono pode emperrar na Alemanha. Motivo: a chanceler Angela Merkel já se manifestou contra a política que prejudicaria a indústria automobilística. A justificativa oficial é que a Comissão Européia apresentou novos (e mais exigentes) patamares de redução de poluentes. O governo alemão justifica que a indústria não conseguiria atingir os patamares propostos (no máximo 120 gramas por quilômetro rodado em 2012).

O ministro do Meio Ambiente até tentou tirar a coloração verde do debate. “As diretrizes propostas pela União Européia não têm nada a ver com a redução da emissão de CO2. Trata-se de uma querela comercial contra as montadoras nacionais”, disse o ministro na televisão. Já a líder do Partido Verde, Renate Künast, aproveitou a oportunidade para criticar duramente Merkel. Nas palavras de Künast, Merkel não passa de uma vira-casaca, um fantoche do lobby das montadoras, um obstáculo ao aumento dos impostos aos carros e não tem a menor vontade de mudar o limite de velocidade nas estradas alemãs.

Essa história me provoca, por três motivos. Primeiro, demonstra que mobilidade deve continuar sendo um dos temas quentes para quem quer pensar um planeta, um país, uma cidade sustentável. Sensacional!

Segundo ponto: o fato de tudo isso acontecer na Alemanha é bem significativo. Mostra que uma sociedade pode entrar e se aprofundar no debate sobre sustentabilidade, sem se enjoar dele. Os alemães são famosos por terem três, às vezes quatro, lixeiras na cozinha. Separam papel, de restos de comida, de embalagens e de “outros”. 5% da área cultivável do país já é destinada a produtos orgânicos e essa parcela deve crescer. Agora, estão na onda de construir casas que não consomem tanta energia. E nem por isso estão se furtando da discussão sobre os automóveis… A questão da sustentabilidade é a número 2 no ranking de grandes preocupações na Alemanha, atrás apenas do desemprego. No Brasil, estas idéias vão ganhando força e mobilizando esforços. Espera-se que o debate sobre sustentabilidade e sobre mobilidade se manifeste como um ciclo virtuoso, assim como em outros países.

E também muito importante: temos cada vez mais chances de repensar o significado de sustentabilidade. Atualmente, sustentabilidade virou uma bandeira de todo mundo. Atravessa o discurso da maioria dos partidos políticos, de empresas, uma infinidade de ONGs, etc. Mas o fato de ninguém ser “contra” a sustentabilidade não traz só vantagens. O debate veio à tona, mas talvez o genuíno sentido da sustentabilidade tenha se perdido no meio desse emaranhado. Como vimos, a indústria automobilística fala em sustentabilidade, a União Européia tem políticas para isso, os verdes e os conservadores se pronunciam preocupados com o meio ambiente… e, no entanto, não há acordo. Afinal, quem é verde? Questionar quem, na política e na sociedade, luta de fato pela sustentabilidade ou refletir até que ponto se pode ser sustentável é excelente. Esclarece, desmitifica.

Sei que falar de política nesta época do ano não é o ideal. Mas, nesses tempos propícios para reflexão, até que é bom colocar os pingos nos Is (e os tremas sobre os Us, enquanto os tremas ainda existem…). Um feliz Natal a tod@s!

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 20/12/2007, às 19:59