Seu bairro na internet

24 10 2010

O Brasil digital não para de crescer. Qualquer estatística confirma que o número de pessoas com acesso à internet, o número de possuidores de telefone celular, aqueles com banda larga em casa, no trabalho ou na escola cresce em ritmo acelerado. Será que esse tsunami de “inclusão digital” pode ajudar na construção de cidades mais humanas? Será que o uso de mídias digitais pode ajudar a fortalecer os laços comunitários entre os moradores e a preparar melhor os bairros para o futuro? Tenho certeza que sim. O principal é encontrar meios de usar a energia que demonstramos ter em redes sociais como Twitter, Facebook e Orkut (muitas vezes de modo fútil) e as ferramentas adequadas para o empoderamento local.

Claro que, apesar dos avanços, ainda tem muita gente sem acesso à internet, aos mimos que a Apple coloca à venda e à vastidão de informações que circulam pela rede. Mas nem tudo é questão de dinheiro ou de acesso.

Na Alemanha, há anos, associações de bairros, ativistas e movimentos urbanos, assim como organizações públicas e prefeituras procuram entender como utilizar a internet para motivar os cidadãos a participar dos assuntos coletivos do bairro. Isso não acontece, logicamente, apenas por meio de um site com fotos bonitas e um texto publicitário no estilo “Aqui é o melhor lugar do mundo para se viver”. Era preciso encontrar as ferramentas certas para os propósitos certos. Então, diversos pilotos foram iniciados, mas nenhum chegou a ter grande repercussão. Até que o governo federal alemão, no bojo de um projeto de pesquisa, propôs a pergunta: Como a qualidade de vida e a sustentabilidade dos bairros podem ser fortalecidas por meio de inovações tecnológicas?

Como resposta, surgiu a Q+ (Quartier.plus), a plataforma do bairro na internet. Desenvolvida ao longo de um processo colaborativo ao longo de uma série de workshops, a Q+ é considerada o mais amplo sistema para o desenvolvimento local sustentável. Ela combina gestão de conteúdos (o clássico Content Management System) com funções de redes sociais. “Como um dos critérios principais para o desenvolvimento da plataforma era sustentabilidade, o software livre Drupal é utilizado como cerne do sistema”, explicam os coordenadores do projeto no último número da revista Raumplanung.

O desenvolvimento do sistema foi relativamente barato diante de tudo o que oferece. Pela plataforma, é possível publicar notícias sobre cursos e eventos locais e apontar em um mapa onde eles ocorrerão, entrar em contato com outros moradores, propor ou participar de fóruns e pesquisas de opinião, divulgar pequenos anúncios ou montar uma pequena feira de trocas para incentivar a economia local, compartilhar fotos, vídeos e outras mídias ou mesmo organizar a reserva de salas e equipamentos disponíveis à comunidade. O uso dessas funções básicas ajudam a fortalecer identidades locais, favorecem o debate e o encontro de soluções para problemas comuns e facilitam a formação de redes sociais que são a base para processos de troca mais intensivos e de transformações mais duradouras.

Em bairros que concentram problemas sociais, a plataforma é mais um incentivo para o envolvimento dos cidadãos com as questões públicas e para o entendimento comum. Já há sinais de que, em alguns lugares, a Q+ se transforma em uma espécie de base para uma convivência pacífica entre grupos de moradores (por exemplo, entre os mais novos e o mais velhos), a partir de seu envolvimento com as questões pertinentes ao bairro.

O projeto foi apresentado oficialmente em Berlim, no mês passado, e a plataforma poderá em breve ser baixada (gratuitamente) do site do projeto. O processo de desenvolvimento e as potencialidades da plataforma são um bom exemplo do modo como comunidades de cidades brasileiras poderiam ampliar as bases de sua organização, para além do marketing oficial e de modo independente de prefeituras e afins. Afinal, como a revolução da sustentabilidade será conduzida de modo descentralizado, bairros e quarteirões, condomínios e vilas terão de se deparar, daqui para a frente, com um crescente número de decisões e assumir posições frente a elas.

Que tal organizar uma bolsa de caronas com a ajuda de softwares desse tipo? Ou monitorar a qualidade das infraestruturas de transporte no bairro, como calçadas e ruas? E trocar informações sobre arquitetura sustentável, abrir um fórum para conversar sobre reúso de água, sobre a redução da produção de lixo? E enriquecer o site com links e textos para projetos bacanas em outros bairros?

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 27/05/2010, às 14:30

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Desinstalar o “grande irmão” nas cidades

24 10 2010

Como você se sente no espaço público tendo seus movimentos registrados por câmeras de vídeo, sendo constantemente observado? No Brasil, parece que não estamos muito aí para isso. No geral, pensamos que o máximo que pode acontecer é aparecer em algum programa de televisão. Além disso, os altos índices de violência costumam ser álibi para tudo: muros mais altos, cercas elétricas, um exército de seguranças particulares e cada vez mais câmeras.

No outro extremo está a Alemanha, uma das nações mais ferrenhas na defesa de certos direitos civis. O país já conseguiu boicotar um censo demográfico nacional na década de 1980 e, até hoje, a coleta de impressão digital e as propostas de cartões ou documentos únicos são tabus. A adesão a redes sociais como o Orkut, o Facebook ou o Twitter acontece, no geral, com notável atraso e desconfiança em relação a outros países.

Câmeras de vídeo são o símbolo de um brutal ataque a direitos de personalidade. Mesmo assim, elas se fazem cada vez mais presentes no espaço público. Eu mesmo sou vigiado praticamente todos os dias. Basta pegar o metrô ou um ônibus para ser obrigado a deixar a imagem registrada. Até quando vou ao centro comercial do bairro, tenho de ceder minhas imagens a alguma companhia de segurança privada. O “Big Brother” em escala urbana está cada vez mais presente.

Mas a recente instalação de uma câmera de vídeo na região central de Oldenburgo, na Baixa Saxônia, foi a gota d’água que alguns ativistas esperavam. Eles estão convocando a população a trazer ferramentas – alicate, marreta, rebarbadora – para desmontar o equipamento no dia 5 de junho. Se bem que a principal ferramenta para esse desmonte é uma informação divulgada pelo governo daquele estado. Levantamento com 3.345 câmeras constatou que 99% delas funcionam em desconformidade com a legislação de proteção à privacidade. Ou faltam placas do tipo “Sorria, você está sendo filmado” ou os dados gravados não são apagados como deveriam. Até câmeras em provadores de roupas foram encontradas. O estado da Baixa Saxônia – onde o número de câmeras instaladas pelas prefeituras passou de 54, em 2001, para 498 – está sendo chamado de “BigBrother-Wonderland”, o paraíso do patrulhamento.

O assunto toma novas proporções, quando o gigante da internet Google – com o modesto pretexto de querer organizar as informações disponíveis pelo mundo – começou praticamente a “escanear” cidades inteiras e divulgar suas fotos na internet. Com o Google StreetView, pode-se passear virtualmente por ruas de diversos países do mundo… mas não alemãs. A empresa e o governo chegaram a um acordo, e as fotos só poderão começar a ser publicadas, depois que casas, apartamentos, quintais e pessoas receberem um tratamento de imagem e ficarem irreconhecíveis. No Brasil, o relacionamento com o Google é outro. Ninguém faz auê com relação aos direitos individuais. Pelo contrário, o brasileiro tira sarro. O máximo que acontece é a republicação de curiosidades captadas pelo Google, como faz este site. A partir daí, podemos pensar o quanto queremos ser observados no Brasil.

Por que esse assunto interessa ao Pra lá e pra cá? Bem antes do 11 de setembro, segurança é tema obrigatório para conceber cidades brasileiras. Nenhum projeto pode vingar sem dar atenção ao tema que mais preocupa os moradores de áreas urbanas. No entanto, temos reagido a ele na maioria dos casos com uma exagerada fé em tecnologias que dão, no máximo, uma momentânea sensação de segurança. (Como mostra a recente tentativa de atentado terrorista nos Estados Unidos, câmeras podem ajudar a esclarecer atos ilegais – mas não a inibi-los.)

Instalam-se câmeras de vídeo e aparatos de segurança por toda a parte, como se fossem a única solução. Com isso, atropelam-se direitos que deveriam ser melhor protegidos, gastam-se montantes impressionantes no mercado da segurança, mas não se resolve a questão da violência urbana. Sem querer dar as costas para avanços tecnológicos, precisamos pensar com criatividade formas de reconquistar o espaço público e tornar ruas, praças, avenidas, parques mais atrativas tanto para quem mora e circula na cidade. De preferência, sem a companhia de nosso “grande irmão”.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 06/05/2010, às 12:10.





A sociedade do GPS

9 02 2009

Comecei a participar de um projeto bem interessante: estou ajudando a construir uma ferramenta georreferenciada de acessibilidade para a região metropolitana de Frankfurt. Se tudo der certo, até o final do ano, a ferramenta estará pronta e acessível para diversas entidades que operam e planejam transportes e outros serviços de utilidade pública naquela parte da Alemanha.

Por trás do complicado nome (eu mesmo não estou muito seguro sobre o nome correto disso), está um princípio bem simples: localizar os equipamentos públicos e outros locais estratégicos com ajuda de coordenadas geográficas e combinar essa base de dados com as informações digitalizadas sobre o sistema viário e o sistema de transportes na região. Assim, poderemos descobrir, por exemplo, se as escolas dessas cidades estão realmente próximas dos alunos ou se, em alguma cidade, deveria ser aberto um colégio. Poderemos saber se os serviços médicos de urgência conseguem atender chamadas de emergência em um intervalo de, digamos, cinco minutos.

Junto com colegas do Instituto de Transportes e Logística de Hamburgo, pretendemos fazer uma análise bem refinada da acessibilidade do Aeroporto de Frankfurt, um dos principais hubs da Europa continental. Até mesmo o atualíssimo projeto de construção de um novo ramal do transporte público da capital financeira alemã estará em análise. Quem será que esse projeto beneficia?

A primeira etapa desse trabalho é alimentar uma base de dados com o posicionamento exato de teatros, hospitais, shopping centers, entre outros estabelecimentos. No mês que vem, começamos a fazer algumas análises e fazer algumas experiências. E, assim, começo a ser um produtor de informações georreferenciadas e não só um consumidor delas (se bem que passar um tempinho no site do Google Maps é bem bacana…)

Na Alemanha, salta aos olhos que informações georreferenciadas e sistemas de posicionamento global (GPS) viraram uma mania. Neste Natal, mesmo com todas as advertências de que a recessão em 2009 é das mais sérias, houve quase corre-corre para garantir um navegador GPS para o carro. (Eles custam a partir de 200 reais.) Além disso, a mais nova geração de celulares com a função GPS deve, em breve, tornar a posição de cada cidadão identificável pelo espaço. Maravilha da tecnologia? Nem tanto, como alerta a atual edição de uma revista de curiosidades científicas.

A começar por quem tem o controle de tudo isso: os Estados Unidos. Basta o Pentágono “apertar um botão” para que o sistema básico de 24 satélites estacionados a 20 mil quilômetros sobre nossas cabeças deixe de prestar serviços civis. Aí sim conheceríamos o verdadeiro “caos aéreo”. Londres também não é mais a mesma desde os atentados terroristas. Os cartões Oyster usados no transporte público contêm chips que armazenam dados pessoais dos passageiros. O usuário comum pode ter seus movimentos acompanhados pelo serviço secreto britânico. Por fim: o GPS também já chegou a empresas. Nos Estados Unidos, 10% das firmas monitoram sua frota de veículos (e, por tabela, seus funcionários) à distância.

Sobre a ferramenta, ainda não pensei como ela pode ser usada com maldade. Por enquanto, trabalho empenhado no projeto, acreditando que, com a convergência de tecnologias móveis de comunicação e sistemas de informação georreferenciadas, poderemos descobrir, apenas tirando um celular do bolso, onde fica o médico mais próximo ou em quanto tempo chega o ônibus para um determinado lugar e quanto tempo durará a viagem. Muita ingenuidade de minha parte?

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 22/01/2009,  às 19:26