Se beber, não pegue ônibus ou metrô

20 03 2011

Subi hoje o trem das 9:14, que, como de costume, só chegou às 9:24. No vagão, cinco mulheres na faixa dos 30 brindam com tacinhas de champanhe alguma coisa boa neste dezembro de tempo horrível. Sento-me ao lado de um passageiro que lê extremamente concentrado uma historinha banal. Alguma coisa errada até aqui?

Por enquanto não. Mas uma ofensiva contra o consumo de álcool em meios de transporte coletivo está em curso na Alemanha. Representantes dos governos de todos os estados federativos avaliam proibir completamente bebidas alcóolicas em ônibus, bondes e trens que servem as cidades alemãs.

As mulheres com champanhe logo pela manhã são uma exceção. Encontro quase todo dia passageiros que, depois de um supostamente duro dia de trabalho, marcam o início do sagrado descanso abrindo uma garrafa e brindando com o colega: “Prost!” Se estiverem sozinhos, não brindam, mas tomam do mesmo jeito. Cerveja faz parte do cotidiano de muita gente e não apenas dos visitantes de uma Oktoberfest.

O consumo moderado de álcool parece não ter nada de problemático. Complicado é ser molestado por algum bêbado dentro de um vagão em movimento. Ou pior: ser molestado por muitos deles, como em dias de jogo de futebol, quando as torcidas – com seus gritos de guerra, cores, hinos e algumas exaltações – emplacam o ritmo do meio de transporte.

A mobilização pela proibição vem na esteira de atos de violência que ocorreram nas dependências de metrôs de diversas cidades alemãs nos últimos tempos. Em Hamburgo, no começo do ano, ataques brutais provocaram a morte de um passageiro e ferimentos graves em outro. Tal proibição já vigora em algumas linhas do trem interurbano. De acordo com a operadora desses trechos, o número de delitos cometidos nos trens caiu 75% com a medida.

Críticos e partidos mais progressistas argumentam que o transporte público não pode limitar as liberdades e padronizar comportamentos, como tem sido feito já desde alguns anos. Proibido escutar música em volume alto, proibido comer comidas quentes, proibido transportar bicicleta nos horários de pico. Mas a maioria dos usuários do transporte público se inclina a aprovar a proibição, ainda que a relação entre álcool e violência não seja tão clara.

Essa discussão mostra uma face recente e cada vez mais importante da gestão de serviços de transporte coletivo, principalmente quando esses serviços precisam, em nome do meio ambiente, tornar-se ainda mais atrativos.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 02/10/2010, às 14:07





Saída verde para a crise

6 10 2009

Perspectivas para a mobilidade sustentável nos próximos anos estão sendo discutidas a fundo na Europa, sobretudo a partir dos profundos impactos da atual crise – que colocou General Motors, Volkswagen e companhia em um reviravolta ainda não acabado. Se a crise trouxe algo de positivo na Europa, isso foi a chance de gente com ideias não convencionais ser ouvida. Gente como os cientístas políticos Weert Canzler e Andreas Knie, autores de uma brochura bem bacana para a Fundação Heinrich Böll (que, aliás, também está presente no Brasil, mas não na área de mobilidade urbana).

fusca

Discutir mobilidade sustentável hoje trata disso: contribuir para a mudança de paradigma na forma como as pessoas se locomovem e, com isso, contribuir para emergir um novo modelo de sociedade. Para nossa sorte, esse debate não se restringe ao debate sobre o tipo de combustível que moverá os veículos, por mais sedutor que esse assunto possa ser. O que está em jogo, defendem Canzler e Knie, são inovações organizacionais e culturais. “Setores que até agora não se comunicavam precisam começar a fazê-lo, assim como adaptar seu modelo de negócios.” Vejamos o papel que cada um deles terá daqui para a frente:

  • A indústria automobilística deixaria de vender carros. Aliás, essa já não é há algum tempo a praia dela, mas sim o financiamento das vendas – que, conforme os autores, respondia por cerca de 70% do resultado econômico das empresas até o ano passado. Como um dos principais motores da economia mundial desde o pós-guerra, a indústria automobilística precisará (mais uma vez) se reinventar. E quanto antes melhor, já que a questão climática, a escassez de recursos não-renováveis e os problemas de mobilidade nas grandes cidades exigem urgência. Seu negócio passaria a ser vender serviços de mobilidade, dos quais o carro é apenas uma parte.
  • Empresas de transporte público assumiriam e operariam frotas de bicicletas e carros públicos. Em São Paulo, a atual divisão da cidade em capitanias onde operam as concessionárias deveria ser extinta para um planejamento integrado dos transportes públicos urbanos – os elementos centrais da mobilidade urbana do futuro.
  • Do setor energético viriam não só a oferta de novos produtos (fontes renováveis, por favor), mas novos modelos tarifários. Como não existe transporte sem consumo energético, o setor precisa de qualquer jeito ser envolvido em novos conceitos de mobilidade.
  • Tecnologia da informação. O que seria de nós sem ela? O potencial das TICs para articular, organizar, distribuir e racionalizar o transporte em cidades é um dos grandes trunfos da mobilidade pós-crise. Aqui também têm importante papel os sistemas de georreferenciamento.

Na visão dos autores, uma interessante alternativa para o futuro é o carro público. “Exatamente onde ônibus e trens não transitam, o carro público movido a eletricidade pode realizar serviço.” Sem emitir poluentes, o veículo não encontraria problema para trafegar por becos, cantos e curvas acentuadas em uma região delimitada. Esses veículos estariam disponíveis em pontos estratégicos, como nas proximidades de estacionamentos de veículos particulares, pontos de ônibus e estações de trem e metrô.


PS: Como meu passaporte vai logo mais perder a validade, comecei a xeretar no site da Polícia Federal o que devo fazer para ter um novo. Pelo moderno procedimento, preciso, além de juntar os documentos de sempre, preencher um formulário online. No campo profissão, o menu drop down mostrou centenas de ocupações exercidas em nosso país. Vi de tudo: de biscateiro a caixeiro-viajante, de garota de programa a capataz, de juiz de futebol a “do lar”, de “business” (!) a governador (!!). Na extensa lista, só não encontrei nem urbanista, nem planejador urbano, nem nada parecido com a área que estou procurando entender… Sintomático, não?

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 03/09/2009, às 15:27





Idéias para nossa cidade

3 04 2008

Um amigo me perguntou se eu participaria do fórum organizado pelo Movimento Nossa São Paulo, que vai acontecer entre 15 e 18 de maio. Eu gostaria muito, mas não poderei. Na verdade, eu gostaria mesmo é que eventos como esse tivessem um vínculo direto com o poder público. As subprefeituras não foram criadas para estreitar os laços com os cidadãos? De qualquer forma, pensei em apresentar algumas idéias ao fórum.

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1) Garantia, por lei, de um determinado estoque de área pública verde por área urbanizada em cada bairro da cidade. Caso contrário, os cidadãos estariam livres para pegar picaretas e quebrar estruturas de asfalto e concreto das ruas para transformá-las em “corredores verdes” (onde talvez haja espaço só para o trânsito local, em horários limitados). Eu não acho isso radical demais. Acho que, quando o Estado não faz, as pessoas deveriam ter o direito de fazer alguma coisa em nome de sua própria qualidade de vida. Além disso, árvores nunca são demais em uma cidade.

2) Criação do “Prêmio Barbeiragem do Ano” no site oficial da Prefeitura. Quem não tem medo de se locomover em São Paulo, que dê o primeiro clique! Câmeras de fotografia, celulares e, claro, câmeras de vídeo podem ser usadas para registrar a imprudência nas ruas e o quão longe estamos de um trânsito que assegure uma convivência pacífica nas ruas. Empresas poderiam ser convidadas para dar um prêmio em dinheiro ao autor do vídeo ou da foto mais votada pelo público, via internet.

3) Organização de um apitaço na frente do shopping Bourbon, o mais novo insulto às leis urbanísticas de São Paulo. Esse tipo de desrespeito à cidade é recorrente. Cinco anos atrás, era a Daslu o megaempreendimento que desrespeitava as normas de planejamento da cidade, como denunciava o professor da USP Cândido Malta Filho: “A Daslu é um caso emblemático para o futuro de São Paulo. Com a sua regularização ou fechamento administrativo por ilegalidade, está em jogo se prevalecerá o planejamento democrático aprovado em lei pela Câmara Municipal ou a vontade de poderosos cidadãos que querem que as leis vão se dobrando a sua vontade.” (Folha de S. Paulo, em 07/02/2003)

4) Ampliação do número de pontos de monitoramento da qualidade do ar na cidade e apoio a uma melhor divulgação dos resultados. São muito poucas as estações da Cetesb em uma cidade tão grande como São Paulo. Lembremos que, por trás do termo “poluição do ar”, há diversas substâncias tóxicas que precisam ser controladas mais de perto.

5) Possibilidade de punições — dentre elas, perda de mandato — a prefeitos e secretários municipais que “tiram da cartola” idéias não apresentadas em plano de governo. Não dá mais para aceitar a brincadeira de política que existe no Brasil. Os eleitores precisam saber o que seus eleitos vão fazer pelo bem público. O projeto de lei defendido pelo Movimento Nossa São Paulo e aprovado pelos vereadores paulistanos já representa um bom avanço nessa direção.

6) Para autoridades municipais e estaduais, abertura de um novo e extenso curso: “As diferenças entre coisas e pessoas — Como lidar com famílias em condições subnormais de moradia com o mínimo de dignidade?” As imagens do episódio na favela do Real Parque registradas pela equipe do Favela Atitude três meses atrás devem tirar as dúvidas de quem acha tal curso desnecessário. O último episódio dessa história pode ser conferido aqui.

7) Inversão das prioridades dos “marronzinhos”. Se é verdade que a CET é preocupada com a mobilidade na cidade como um todo e tem a segurança no trânsito como seu objetivo máximo, então as multas mais freqüentes deveriam ser para motoristas que mudam de pista sem dar seta, que páram ou estacionam sobre a faixa de pedestres ou abusos desse tipo. Fica a pergunta: você conhece alguém que já foi multado por mudar de faixa sem sinalizar?

8 ) Ínicio da organização de um movimento popular (mas popular mesmo!) para a melhoria do transporte público — verdadeira solução para os transportes — por meio da redução dos investimentos na expansão do sistema viário de São Paulo. Pelo jeito, a procura pelo transporte público e sua melhoria só acontecerão quando o trânsito for impossível. Mais corredores de ônibus (que diminuem o espaço disponível para os carros) e mais restrições à circulação e/ou ao estacionamento de automóveis particulares já!

E você? Também já ficou sabendo do fórum? Tem idéias para aumentar essa lista?

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 08/04/2008, às 6:59





Pegar ônibus e levar o dobro do tempo?

6 03 2008

É irracional andar de ônibus em São Paulo. Isso é o mínimo que se pode concluir, depois de ler Carros andam 2 vezes mais rápido que ônibus* no jornal O Estado de S. Paulo desta quinta-feira. Tirando quem tem tempo sobrando, quem está umbilicalmente ligado à causa ambiental ou quem é altruísta, ir de carro é, dada a economia de tempo, preferível a tomar ônibus. Ou então ir de bicicleta, com a qual também se vai mais rápido, conforme demonstrado mais de uma vez pelo desafio intermodal. Talvez a grande perversidade embutida nesta notícia é que quem não tem carro deverá continuar sonhando em ter um até poder comprá-lo – como o cortador de roupa Marcelo Xavier de Souza, ouvido pela reportagem. Melhor operação dos ônibus na região metropolitana? Nem se ouve falar nisso… A falta de atratividade do principal componente do sistema de transporte público na cidade é mais um elemento para desconfiar de que 2008 será um ano melhor para o trânsito.

Falando em trânsito, quantas vezes você já leu, em notícias de jornais e na internet neste ano, que São Paulo bateu mais um recorde de congestionamento? Juro que tentei contar, mas já perdi a conta. Por isso, também recomendo a urgente leitura do editorial Recordes de lentidão na mesma edição do Estado. Lá se pode ler algumas verdades sobre o papel da Companhia de Engenharia de Tráfego em nossa cidade. O texto cobra coerência do atual presidente da CET, Roberto Scaringella, e associa o caos diário na cidade com a progressiva perda de capacidade de planejamento da companhia.

Anos de ineficiência do transporte público em São Paulo também ajudam a entender o sucesso de vendas de automóveis no Brasil. Baseada em boa parte na venda dos modelos “populares” (os mais acessíveis a boa parte das famílias de classe média e baixa, que suaram e esperaram muito até poder ter um), a farra da indústria automotiva parece não ter hora para acabar. Ou melhor: talvez comece a murchar quando acabar a atual fase de crescimento econômico do País. Até lá, os Detrans terão muito trabalho para emplacar veículos. Eu gostaria de saber quais outros setores de nossa economia estão podendo comemorar altas tão expressivas no faturamento, como as multinacionais que vendem carros. Ou então, em quais outros países do mundo, as vendas de automóveis vão tão bem como no Brasil. Mais detalhes na notícia da Folha Online.

Também nesta semana, a Associated Press divulgou que acidentes de trânsito custam mais que o dobro do que os congestionamentos em cidades estadunidenses. Conduzida sob encomenda da indústria automobilística, a pesquisa afirma que o americano perde, em média, mais de mil dólares por ano com as batidas (sem contar as 43 mil mortes anuais nas vias). A pesquisa recomenda que os legisladores americanos dêem mais prioridade à segurança em projetos de transporte e aumente o rigor das punições a quem dirige bêbado, por exemplo.

* Carros andam 2 vezes mais rápido que ônibus

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 06/03/2008, às 11:21





Desejos de Ano Novo

10 01 2008
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No último post, desejei um Feliz Natal, mas deixei de desejar um Feliz Ano Novo. Desculpem, falha de memória e falta de esperança de minha parte. Poderia eu ter sido menos pessimista após ler, dias antes do reveillón, os resultados da nova pesquisa de imagem do transporte público na Regiao Metropolitana de São Paulo?

Dificilmente. Quem mora na metropole paulistana está cada vez mais incontente com o transporte público, destaca a última pesquisa da Associação Nacional de Transportes Públicos. Na opinião dos 2.300 entrevistados, o metrô continua sendo o melhor meio de transporte, mas pela primeira vez a porcentagem de satisfeitos com o serviço ficou abaixo da marca de 90%. O que provocou mais descontentamento? Anos seguidos de trens superlotados nos horários de pico, a expansão em ritmo de tartaruga em uma cidade do tamanho de um mamute ou a superexposição na mídia dos erros de engenharia que provocaram um grande acidente em janeiro de 2007?

A pesquisa não diz. Mas, seja o que for, o atual índice de satisfação com o metrô (85%) ainda é duas vezes maior do que o dos ônibus municipais (42%). Os investimentos na renovação da frota realizados durante a gestão do prefeito Gilberto Kassab não conseguiram conter a crescente insatisfação dos usuários com o serviço. A porcentagem de ótimo/bom dos ônibus cai ano após ano, como mostra a tabela acima. O que significa que já passou da hora de introduzir melhorias estruturais no sistema (racionalização das linhas, melhor nível de conforto, mais segurança na viagem, etc.) É angustiante ter de constatar que justamente o meio de transporte que atende a maioria da população é o pior avaliado.

Os trens da CPTM e o serviço de ônibus intermunicipal agradam apenas a metade dos entrevistados. Em 2005, os principais motivos de queixa de quem viajava sobre os 270 km dos trilhos metropolitanos eram: “passageiros mal educados/abusados (69%), trem sempre lotado (66%), trem sujo e mal conservado (63%)”. Não é uma minoria que reclama das condições dos trens, mas um número bastante expressivo de seus usuários.

A pior avaliação do transporte público não sinaliza apenas que muito pode ser feito pelos meios coletivos. Em tempos de queda do desemprego e melhoria do nível de renda da populacao, esta má avaliação significa, mais cedo ou mais tarde, mais carros na rua. E, por conseqüência, mais congestionamentos, acidentes e poluição. De todo esse quadro, minha mágoa, minha aflição e, novamente, minhas desculpas.

Mas, para começar 2008 direito, vou pular sete ondinhas pensando em mobilidade urbana. O que desejo à nossa metrópole na virada do ano é o seguinte:

  1. Levar a sério o planejamento em transportes: participação da sociedade, embasamento de propostas com estudos confiáveis, cumprimento à risca dos planos pelo poder público
  2. Proteger a vida é o objetivo maior. Nas ruas, prioridade aos pedestres, aos ciclistas e aos usuários de transporte coletivo (nesta ordem, como manda o código de trânsito, aliás)
  3. Calçada esburacada é uma agressão à cidadania (e, principalmente, a idosos e portadores de deficiências físicas). Criar um mecanismo eficiente para a rápida adequação das calçadas da cidade.
  4. Melhorar o acesso à informação sobre mobilidade urbana, já que este é um dos mais graves problemas de São Paulo. Obrigar órgãos públicos, agências e empresas de transporte a publicar dados regularmente e prestar contas à população.
  5. Menor tolerância com os veículos mais poluidores: questão de saúde pública
  6. Linhas de ônibus mais racionais
  7. Implantação de projetos de transporte urbano/interurbano como catalisadores do desenvolvimento local

A lista poderia continuar, mas só são sete ondinhas, né? Um feliz 2008 a todos nós!


Em tempo: a mesma ANTP programou para 14 de fevereiro o evento “São Paulo combatendo o congestionamento: pedágio urbano e outras medidas”. Lamentavelmente, entrar no evento custa R$ 130, preço que faz da participação em um debate importante para nossa cidade praticamente um luxo. Estarão em pauta o nosso velho (e, ao mesmo tempo, pouco) conhecido rodízio de veículos, a viabilidade de introdução do pedágio urbano em São Paulo e experiências internacionais.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 10/01/2008, às 16:56





Nada como o conforto do automóvel

8 11 2007

Quanto pior o transporte público, mais gente tende a usar o transporte particular. Óbvio. Não tão óbvio é descobrir como a sociedade toma essa decisão e em que medida as pessoas abandonam o transporte coletivo, se ele for deficiente. Folheando um livro sobre planejamento de transporte urbano, acabo de ver o resultado de uma pesquisa que trata exatamente disso. O estudo não é tão novo assim, mas traz algo muito interessante.Mediu-se a parcela das viagens feitas com transporte público em nove situações. Estas situações retratam, grosso modo, a qualidade das viagens feitas com transporte público (boa, média ou ruim) combinada com a qualidade das viagens por transporte individual motorizado (boa, média ou ruim). Se o transporte público é considerado bom e o individual, ruim, 80% usam o transporte público. Na situação inversa, com longas esperas no ponto de ônibus, e uma cidade facilmente acessível por automóveis e motocicletas, o transporte público é a opção de apenas 36%.

Importante é notar o tombo da parcela de passageiros transportados por meios públicos quando as viagens de automóvel são feitas relativamente em boas condições. Se as viagens de transporte motorizado individual passarem da qualidade mediana para a melhor qualidade, o transporte público perde entre 16% a 23% dos usuários. Isso é muita gente! Ironicamente, o tombo é mais forte, no cenário em que o transporte público é bom… Assim, a pesquisa mostra que o conforto e a liberdade proporcionados pela viagem de carro são imbatíveis, caso a viagem e a busca por uma vaga de estacionamento não demandem extraordinário esforço. É por isso que soa um pouco falso o discurso dos cidadãos que dizem largar o carro na garagem a partir do dia em que o transporte público em sua cidade melhorar.

Mas o raciocínio inverso também é válido. Por que, então, não piorar as viagens de automóvel e, assim, atrair entre 16% e 23% dos cidadãos ao sistema de transporte público? Para os ônibus andarem mais rápido e serem mais utilizados, faz bastante sentido pensar em algum jeito de tirar automóveis das ruas. Como afirma o autor desse livro que estou lendo, apenas medidas de conscientização não vão alterar de modo substantivo o comportamento das pessoas. A conscientização deve ocorrer lado a lado com a melhoria da oferta de transporte coletivo e de restrições da utilização do transporte motorizado individual.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 08/11/2007, às 06:00