Sete teses para continuar a conversa

15 05 2011

Em setembro de 2007 inaugurei este blog com o texto “Esquentando os motores, os pedais, os sapatos…” Agora, chegou a hora. Não, não é hora de arrefecer os motores, de parar de pedalar ou de colocar os sapatos de molho. O debate sobre mobilidade urbana sustentável está apenas começando… Mas, depois de quase quatro anos escrevendo semanalmente sobre mobilidade urbana, sinto que esse espaço cumpriu sua missão.

Eu me despeço (apenas temporariamente… na internet a gente sempre se vê por aí) de todos aqueles que estiveram de alguma forma presentes, tornando o Pra lá e pra cá um projeto possível.

Confesso que escrever sobre transportes não é tarefa fácil. Tratar mobilidade com seriedade implica encarar o emaranhado de relações entre transporte, urbanismo, cultura, economia e política. Tratar mobilidade com independência implica desconfiar de “verdades” que ouvimos quase todos os dias e desagradar alguns interesses. Tratar mobilidade com paixão implica escolher bem o tema a ser desenvolvido.

Não acho que tratei com a devida seriedade, independência e paixão todos os temas, todas as semanas. Só espero que algumas das reflexões publicadas aqui tenham valido a pena, provocando outras reflexões, mais aprofundadas.

E, para seguirmos adiante, deixo aqui sete teses e a certeza de que a mobilidade sustentável é imprescindível para um planeta sustentável…

Tese 1: No reino do não-planejamento e do vale-quase-tudo chamado Brasil, não se encontra terreno muito fértil para legítimos projetos de urbanismo sustentável. Os motivos são óbvios.

Tese 2: Se os grandes centros urbanos brasileiros continuarem sendo os modelos de desenvolvimento urbano seguidos por cidades médias e pequenas, teremos um problema gigantesco no futuro.

Tese 3: Enfrentar de verdade a matança provocada pelo trânsito motorizado brasileiro é o melhor jeito de levar sustentabilidade ao pé da letra, preparando o planeta para as gerações futuras.

Tese 4: O principal problema não é corrupção, nem falta de dinheiro. É a falta de coragem de inovar, de corrigir erros e de mudar rumos.

Tese 5: Projetos sustentáveis demandam participação e discussão com a sociedade. É imprescindível Levar em conta as posições e opiniões dos cidadãos de igual para igual. E não se pode esquecer que para muitos falta uma educação urbanística. Cidadania é a palavra-chave.

Tese 6: Sem planos conduzidos do começo ao fim, projetos de transportes urbanos são tirados ou postos na gaveta ao gosto do político de plantão. Desafios ambientais requerem mudar radicalmente esse tipo de prática política.

Tese 7: No Brasil e no exterior há um crescente volume de projetos e pessoas posando de terno e gravata como bastiões da mobilidade sustentável. Separar o joio do trigo é tarefa árdua, Desconfiar é cada vez mais necessário.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 29/04/2011, às 11:39





Um trem de ideias sustentáveis

15 05 2011

Partiu hoje da plataforma 12 da estação ferroviária de Altona, em Hamburgo, uma composição especial: o Trem das Ideias. Com ele, vai a exposição itinerante que permite ao visitante connhecer experiências e projetos que deverão deixar alguma marca no século 21. Neste momento, o trem ruma à Escandinávia. Mas também passará por capitais como Paris, Barcelona e Amsterdã.

Mobilidade ocupa posição de destaque nesta exposição, organizada pela Capital Ecológica da Europa em 2011. Logo na entrada do primeiro vagão, o visitante é convidado a subir em uma StadtRad, a bicicleta pública de Hamburgo, e fazer um passeio virtual pela cidade. Mais adiante, os mais aficcionados podem se colocar na pele de um maquinista e simular uma viagem de trem. A questão sobre o modo de transporte mais apropriado para o transporte urbano é trazida ao ponto pela pergunta: Que sentido faz colocar em movimento um objeto de uma tonelada para transportar um corpo que tem, em média, 70 quilos?

Para esta pergunta, a resposta é relativamente clara. Mas várias outras são deixadas para uma reflexão coletiva. É possível uma rede internacional descentralizada de energia renovável? Até que ponto seria factível transformar ruas bastante importantes para o trânsito de automóveis em áreas verdes servidas por transporte público?

Ao longo do passeio pelo trem, é possível conhecer um pouco sobre interessantíssimos projetos em curso neste momento. Faço uma seleção de alguns projetos, ainda pouco conhecidos no Brasil e que merecem atenção:

Zurique – A sociedade dos 2 mil watts. Um suíço gasta algo entre 5 mil e 6 mil watts de energia por ano. Isso é demais para a nossa Terra. Pesquisadores estipularam uma meta quantificável – os 2 mil watts – para uma sociedade sustentável. Com isso, seria possível reduzir as emissões de CO2 de 5,5 toneladas para uma tonelada. Os moradores de Zurique decidiram, por referendo, no final de 2008 que querem perseguir essa meta. E detalhe: sem energia nuclear.

Hamburgo – 3,5 quilômetros de autoestrada serão cobertos por um parque. Este é o resultado de um projeto urbanístico catalisado em função do anúncio da ampliação do número de faixas da rodovia. Mas isso aumentaria o nível de ruído consideravelmente. Um planejamento urbano com a participação de cidadãos culminou neste projeto. Por cima da rodovia, será criada uma área verde que, além de proteger os moradores do barulho dos automóveis, unirá bairros separados desde os anos 1970 por conta da inauguração da rodovia. As obras devem começar ainda neste ano.

Marseille – Guerrila Gardening. O poder público lançou um plano para apoiar a formação de jardins coletivos. Vamos começar a plantar flores nas ilhas de trânsito, nos terrenos vagos, nas praças ou mesmo em inúteis áreas cimentadas da cidade?

Fortalecer o intercâmbio de conhecimentos e práticas sustentáveis. Que maravilha ser incluído na rota de um trem que tem essa missão como destino final.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 21/04/2011, às 18:00





Preparando os transportes para a Copa

15 05 2011

2014 já está aí. Pelo menos no tocante a todos os preparativos requeridos para que os torcedores de todas as seleções participantes consigam chegar aos estádios.

Copa do Mundo de Futebol é um evento esportivo e multicultural único. Para os transportes, significa também um desafio único. Será que estamos preparados para ele?

Li nesta semana um relatório com a análise de toda a gestão dos transportes feita durante a Copa de 2006, na Alemanha. Sim, aquela mesma em que o Brasil era favorito, mas que passou sufoco até mesmo nas partidas iniciais. Quem não se lembra dos momentos de sofrimento no primeiro tempo da partida contra o Japão e das maldosas estimativas do peso do Ronaldo Fenômeno?)

É verdade que a Copa na Alemanha não foi lá muito positiva para a seleção canarinho. Mas ela trouxe belos resultados para a organização dos transportes. Na verdade, esta foi concebida como a primeira copa sustentável da história. Coleta seletiva de lixo, captação de energia solar nos estádios e metas ambientais para diversos setores fizeram parte deste evento esportivo.

Com relação aos transportes, a FIFA impôs duas exigências. A primeira foi chamada de Green Goal. Pelo menos metade dos deslocamentos aos estádios deveria ser realizado com o transporte público. Assim, as emissões e os efeitos maléficos dos transportes sobre o clima poderiam ser reduzidos. Outra exigência consistiu em orientar as torcidas de diferentes times por rotas diferentes até os correspondentes setores dos estádios. Ou seja: foram colocadas à disposição linhas de ônibus exclusivas para cada uma das torcidas, bem como separados estacionamentos para automóveis e, claro, distintos acessos para os estádios.

Essas metas foram cumpridas. Para ver os 64 jogos da Copa de 2006, 57% dos torcedores foram aos estádios com transporte público. Metrô e trem tiveram um papel decisivo nesse meio de campo entre arenas e residências ou hoteis. Mas os números variam bastante de cidade-sede para cidade-sede. Nesse sentido, Berlim ganha de goleada contra Gelsenkirchen: só 9% das viagens ao Estádio Olímpico de Berlim foram feitas com meios motorizados particulares (como motocicleta ou automóvel). Já em Gelsenkirchen este percentual ficou em 52%. Essa diferença reflete muito a facilidade e o conforto de se chegar com um meio de transporte ou outro. Em Berlim, há uma estação de metrô que deixa as pessoas praticamente na porta do estádio.

A experiência alemã mostra ainda o quão importante é a internet para os deslocamentos dos torcedores. Mais da metade dos fãs e principalmente os torcedores estrangeiros usam a internet como fonte de informação para saber como chegar ao estádio. Outro item essencial é a disponibilização de informações eletrônicas nas ruas e outros dispositivos de informação e orientação.

A qualificação das cidades para a Copa do Mundo requer a concretização de muitos planos, com um grau de profissionalismo alto, em um espaço de tempo curto. Se a Copa brasileira vai ser bem sucedida ou não do ponto de vista do torcedor depende em boa medida desses preparativos. Mas a verdade é que a organização de uma boa Copa vai muito mais além do que a decisão sobre quem vai entrar no gramado e quem vai ficar de fora. Que o diga a Alemanha que, em 2006, também não conseguiu colocar as mãos na taça.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 18/04/2011, às 16:53





Nenhum transporte é sustentável

15 05 2011

A verdade é que hoje não temos nenhum meio de transporte sustentável. Temos, isso sim, sistemas e infraestruturas de transporte poluidores, que contribuem para a mudança climática, que provoca acidentes e que dividem as cidades.

É dessa premissa fria e dura que partiu um grupo de pesquisadores da Sociedade Fraunhofer para escrever o estudo VIVER – Visão para um transporte sustentável na Alemanha, divulgado nesta semana. A Frauenhofer é uma das maiores e mais respeitadas instituições de pesquisa e desenvolvimento da Europa. VIVER apresenta um transporte de pessoas nas cidades bastante diferente do que conhecemos.

Principais resultados desse trabalho que envolveu engenheiros, economistas, planejadores urbanos e de transportes e psicólogos: São necessárias algumas mudanças radicais nos transportes para que se possa falar em sustentabilidade. E a juventude será protagonista desta mudança fundamental no modo como nos deslocamos.

Na verdade, essa mudança começou a acontecer. Quem nasceu depois de 1980 – dizem os autores – já vê o automóvel de outro jeito: não mais como símbolo de liberdade e sucesso, mas como apenas uma opção de transporte entre tantas outras. E uma opção ligeiramente diferente da que conhecemos hoje em dia. As inovações que vêm no rastro da escassez dos combustíveis fósseis tornarão o automóvel muito mais eficiente. Dominarão a cena em 2050 pequenos e leves automóveis que podem ser abastecidos na tomada de casa. Isso mesmo: automóveis 50% mais leves graças à nanotecnologia.

Além disso, ganha força a tendência usar em vez de ter: as bicicletas públicas que podem ser alugadas por curtos períodos e o compartilhamento de carros são soluções que, combinadas com as opções de transporte coletivo, oferecem uma flexibilidade muito maior do que a posse de um automóvel. Paga-se só pelo que se usa. As possibilidades de combinação inteligente entre esses meios de transporte em ambientes urbanos compactos são o principal trunfo da mobilidade sustentável, conforme os especialistas. Por falar em bicicleta: “Não existirão em 2050 cidades ou regiões, nas quais o uso da bicicleta é árduo.”

Enfim: Sabe aquela coisa de ter dois (ou mais) carros na garagem, ir para o trabalho de carro, sair de férias de carro, ir para a padaria de carro… Isso será logo passado. Mas, se não o automóvel, qual o meio de transporte dominante no futuro? Vários ao mesmo tempo. “Cada vez mais pessoas utilizarão uma oferta multimodal de transporte”, aponta o estudo.

Outra tendência é a desaceleração. Correr para quê? Limites de velocidades de 120 km/h nas autoestradas e 30 km/h nas áreas urbanas tornam o trânsito muito mais eficiente. “Quem quiser chegar mais rápido, que pegue um trem de alta velocidade”, aconselha um dos autores do estudo ao jornal Süddeutsche Zeitung.

De acordo com o periódico, a visão dos pesquisadores é bastante realista. Pode ser realista para a Alemanha. Será que também é realista para o Brasil? Estamos mesmo dispostos a investir e a desenvolver um transporte verdadeiramente sustentável? Estamos sensibilizados suficientemente para esse assunto? Qual a melhor maneira de nos preparar para os desafios sociais, econômicos, energéticos e ambientais que conhecemos? Inquietante neste momento é a sensação de que há muita gente se esquivando da elaboração de estratégias para a sustentabilidade do transporte nas cidades brasileiras.

Originalmente pulicado no Planeta Sustentável em 08/04/2011, às 10:34





Mutações do Metrô de SP

1 05 2011

Na segunda-feira, foi inaugurada a estação Butantã da linha 4 do metrô de São Paulo. Mais um passo adiante na expansão da rede, em direção à zona oeste. E mais um passo atrasado com relação ao originalmente planejado. O descumprimento dos prazos na construção do metrô é tão flagrante, que ninguém mais acredita nas promessas.

A linha 4 tem um papel importante na rede paulistana. Ela ligará as linhas 1, 2 e 3, dando ao metrô de São Paulo atributos de uma verdadeira rede. A atratividade do transporte público depende muito da existência e do bom funcionamento dessa rede, com um número razoável de estações de transferência. Ampliar o número de possíveis conexões representa um ganho de qualidade, que costuma ser muito reconhecido pelos passageiros.

Mas a grande novidade é que a Linha 4 está sendo construída no âmbito da primeira parceria público-privada do Brasil. A parceria foi firmada no final de 2006 com a justificativa de deslanchar o desenvolvimento do transporte metropolitano, já que o governo estadual não poderia mais se endividar. Pelo acordo, a ViaQuatro se compromete a investir na aquisição dos trens e administrar a mais moderna linha de metrô da cidade por 30 anos. O poder público se encarrega da construção de estações e de boa parte da linha. O envolvimento da iniciativa privada também foi uma exigência do Banco Mundial e do Japan Bank of International Cooperation, que emprestaram dinheiro para as obras da linha 4. A parceria colocou o metrô nos trilhos de um novo modelo de financiamento, mas não o salvou dos atrasos na execução das obras.

O atual modelo de negócios do metrô envolve, além da participação da iniciativa privada na construção e na operação de linhas, a abertura de shopping centers integrados a estações de metrô e a comercialização de espaços internos. Trens e estações são hoje em dia vistos como suporte para mensagens publicitárias e para o comércio. Vestimentas, panetones, livros, sorvetes, celulares… O que mais pode ser comprado em uma estação de metrô? Além disso, o metrô fatura também com as mensagens eletrônicas que circulam sem parar no interior dos trens. As chamadas “receitas não-tarifárias” mais do que dobraram nos últimos cinco anos. E a tendência é aumentar ainda mais.

Até que ponto o metrô pode e deve buscar diversificar suas atividades e fontes de renda e até que ponto o metrô deve se concentrar na oferta de um transporte eficiente e pouco poluente? Esses objetivos estão em contradição ou há sinergias entre eles? As milionárias receitas não-tarifárias melhoraram a situação financeira do Metrô? Essas são algumas sugestões de perguntas a todos aqueles que desejam mais transporte de qualidade na metrópole de São Paulo.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 01/04/2011, às 16:35





Um passarinho me contou…

1 05 2011

Tratar dos problemas cotidianos da forma mais rápida e madura possível. Não empurrar com a barriga o que pode ser resolvido hoje. Não guardar mágoas e ressentimentos… Muitos dos conselhos dados a casais que buscam uma vida a dois mais harmônica bem que poderiam valer para um melhor relacionamento entre usuários e gestores ou operadores do transporte urbano. Ainda mais na era da comunicação rápida e descomplicada e de possibilidades como o Twitter.

Na Alemanha, quem está conectado recebe notícias sobre todo tipo de ocorrência nos trens regionais ou no metrô de Berlim. Se um trecho estiver interditado para obras de manutenção, descobre-se facilmente qual ônibus tomar para realizar o mesmo trajeto.

E no Brasil? Como estamos fazendo uso do Twitter?

Em São Paulo, as principais organizações do transporte coletivo se fazem bem presentes via Twitter. Mas escrevem muito sobre shows e campanhas de saúde pública. Ouvem pouquíssimo as reclamações dos usuários e fornecem raramente informações sobre os imprevistos e eventuais atrasos. Dão com muito atraso as notícias relevantes. (Pelo Twitter, o Metrô ainda não sabe que a estação Butantã será inaugurada na semana que vem…)

Nesta segunda-feira, o Metrô inaugurou um espaço em sua homepage para informar as condições de operação em tempo real. O Twitter também era usado para reproduzir informações como a de que os trens da linha 2 circulavam em velocidade reduzida se estiver chovendo. Sem dúvida, um avanço.

Gradualmente, os passageiros passam a ter acesso a mais informação sobre seu transporte de cada dia. Inclusive porque também estão em massa na internet e no Twitter, e percebem criticamente a letargia dessas empresas em fornecer as informações de que precisam. Abaixo, alguns tweets de gente que usa o transporte público:

  • “o meu bilhete unico ainda nao chegou, ja passaram os 20 dias que eles prometeram e eu continuo pagando 6 reais por dia valeeeeeu #sptrans :/”
  • “Bom dia, e gostaria de agradecer a CPTM pelo meu atraso de hoje… obrigado!”
  • “a linha azul ta com problemas mas o site do metrô mostra que está normal… cadê o estagiário pra atualizar?”
  • “@metrosp_oficial Rotina: metrô insuportável para ir e metrô insuportável para voltar e megaintervalo entre os trens. Linha Verde 2 – #FAIL“

Comunicação honesta e útil em tempo real seria um bom passo para aprofundar a confiança e o respeito entre os ofertantes e os usuários do transporte coletivo urbano. Uma andorinha só não faz primavera. Mas alguns bons tweets de vez em quando, quem sabe?

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 28/03/2011, às 11:50





Risco? Que risco?

1 05 2011

Destruição no Haiti, desastre na região serrana do Rio de Janeiro, terremoto seguido de tsunami e ameaça de catástrofe nuclear no Japão. Acontecimentos extremos estão ficando mais frequentes ou estou me enganando? Revanche da natureza ou obra do acaso?

Eu me impressiono demais com essas situações e lamento muito pelas centenas de vidas levadas de uma só vez em cada um desses episódios. Você já viu as fotos e vídeos das cidades japonesas que simplesmente sumiram do mapa na semana passada? É bem assustador…

Mas confesso que, em um momento desses, não me apego muito a medir as forças do ser humano com a da natureza. A resposta é mais que óbvia. Acho mais produtivo pensar em formas de, na medida do possível, reduzir nossa vulnerabilidade diante dos desafios globais. E, para isso, o Brasil tem excelentes pré-requisitos, assim como péssimos precedentes.

Em comparação com outros países, o País não deverá sofrer a forma extrema de nenhuma das catástrofes prognosticadas no bojo da mudança climática. Sim, o nível do mar subirá, cairá mais água dos céus em algumas regiões e outras ficarão mais secas. Mas, no balanço geral, deveremos seguir uma trilha equilibrada. Um país abençoado por Deus, como alguns poderiam dizer.

Por outro lado, mesmo com essas mudanças relativamente moderadas, o perigo é latente. E o que tem sido feito ou o que se planeja fazer para reduzi-lo ou afastá-lo? Sim, em parte, é uma questão cultural. Vem de longa data a tradição de empurrar com a barriga, dar uma de joão-sem-braço, fechar os olhos para determinadas coisas. Especialmente as mais complicadas. Especialmente as que ainda estão por vir.

Milhares de brasileiros inocentes morrem todos os anos em enchentes, em acidentes de trânsito motivados por imprudência, em chacinas e acertos de conta. Morrem e tudo continua como está. Por que teríamos de tratar de outros, ainda mais volumosos problemas, se nem dos atuais conseguimos dar conta?

Acho até que as palavras “risco”, “perigo”, “emergência” não têm tanta força no português como em outras línguas. Em alguns lugares, a simples pronúncia da palavra risco já coloca muita gente em situação de alarme. No Brasil, é diferente. As áreas de risco crescem, os potenciais perigos se avolumam e ninguém dá trela. Afinal, Deus é brasileiro…