Trem bão, ônibus ó-te-mo

1 09 2008

Quando este blog completar seu primeiro aniversário, deverei fazer uma breve viagem até Kassel, bem no meio da Alemanha. A distância de Hamburgo a Kassel é equivalente à de São Paulo a Ribeirão Preto, algo em torno de 320 quilômetros. Para superá-la, comprei um tíquete de trem, que, por um momento, tranqüilizou minha consciência ambiental com um gráfico.

As barrinhas acima, que me foram mostradas quando comprei o bilhete pela internet, mostram que minha viagem de trem compensa. De trem, economizarei energia, contribuirei menos para o aquecimento global e gerarei relativamente só um nico de material particulado (hoje em dia, o grande vilão da vida em grandes cidades). De acordo com a companhia de trem, minha viagem produzirá 40,9 kg a menos de CO2 do que de carro e 84,1 kg a menos do que de avião.

Será que compensa mesmo? George Monbiot, em um livro que em pouco tempo virou um clássico para quem quer discutir a fundo o aquecimento global*, tira a áurea verde do trem. Ele confirma que, se num passe de mágica, todo o Reino Unido abandonasse o carro e andasse de trem ou de ônibus, as emissões de carbono seriam reduzidas em 90%. Mas o mais impressionante vem agora: conforme os dados que Monbiot tomou do governo britânico, uma viagem de ônibus emite ainda menos CO2 do que de trem. Não deve ser à toa que ônibus não foi um meio de transporte considerado no balanço energético que vi quando comprei a passagem.

Mas pelo preço vale a pena? Também tenho lá minhas dúvidas. Dúvidas essas que ficam cada vez maiores com os planos de privatização dos trens alemães, que fazem a companhia querer alçar lucros cada vez maiores. O balanço do primeiro semestre já foi bem positivo para a empresa em comparação com o mesmo período do ano passado, mas mesmo assim o presidente Hartmut Mehdorn quer mais. Foi anunciado para o fim do ano um novo aumento de preços das tarifas, ajudando a deixar para trás a longa era do transporte – inclusive o de longa distância – como serviço público.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 28/08/2008, às 02:39

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Quatro vezes sem carro

24 01 2008

A semana não começou bem. No mercado financeiro, ontem foi o dia em que as expectativas se transformaram em desesperança. Em Frankfurt, tamanho tombo no índice DAX não se via desde os atentados de 11 de setembro de 2001. Em Hamburgo, não muito longe das bolsas de valores, o pretenso Dia sem Carro também não foi bem. A começar pela má divulgação, que não permitiu que muitos – inclusive eu – participassem dos eventos programados das 11 às 18 horas. Pelo contrário: desinformado, sem notar nada de diferente pela cidade, estava na carona de um Golf.

Os jornais especulam se o minguado número de participantes teria sido consequência da chuva. Já os promotores do evento afirmam o que já era esperado. Que, mesmo com pouca gente, o dia valeu a pena para despertar a atenção do público para o problemão que anda junto com os automóveis. Foi quase o mesmo que o Oded Grajew declarou em 22 de setembro, em São Paulo. O que sai dos escapamentos coloca praias do norte da Alemanha em risco de desaparecer dentro de alguns anos.

Mas o Dia Sem Carro em Hamburgo teve três diferenças marcantes com relação ao que vimos em São Paulo, no ano passado. Primeiro, o poder público tomou mesmo a dianteira da organização do evento e parte das atividades puderam ocorrer no filé da cidade, com apoio político do primeiro escalão do governo. Ok, as eleições estaduais estão chegando, mas pelo menos a vontade política para algum compromisso está manifesta. O Dia Sem Carro faz parte de um conjunto de medidas de defesa ao clima a ser implementado entre 2007 e 2012.

Segundo: o principal mote da campanha em Hamburgo foi promover a imagem do trem como meio de transporte ambientalmente correto. Como se pode depreender do slogan “Bahn frei fürs Klima”, a ênfase é não só contra o carro, mas a favor de outra coisa no lugar — no caso, o transporte de massa sobre trilhos. Nada mal para uma cidade de 1,7 milhão de habitantes que está procurando expandir seus 100 km de linha com a inauguração de uma quarta linha de metrô.

E mais: neste dia, o transporte público pôde ser usado na faixa. Graças ao envolvimento das empresas de transporte público que também em São Paulo deveriam se mostrar interessadas em atrair mais usuários para o sistema. Dessa vez foi no inverno. O próximo será na primavera, dia 20 de abril. E depois, no verão e mais adiante no outono também. Quatro vezes por ano, em um esboço de um saudável – e, esperamos, não muito utópico – futuro, em que, voluntariamente, as pessoas optem por outra forma de locomoção.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 24/01/2008, às 14:40





Desejos de Ano Novo

10 01 2008
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No último post, desejei um Feliz Natal, mas deixei de desejar um Feliz Ano Novo. Desculpem, falha de memória e falta de esperança de minha parte. Poderia eu ter sido menos pessimista após ler, dias antes do reveillón, os resultados da nova pesquisa de imagem do transporte público na Regiao Metropolitana de São Paulo?

Dificilmente. Quem mora na metropole paulistana está cada vez mais incontente com o transporte público, destaca a última pesquisa da Associação Nacional de Transportes Públicos. Na opinião dos 2.300 entrevistados, o metrô continua sendo o melhor meio de transporte, mas pela primeira vez a porcentagem de satisfeitos com o serviço ficou abaixo da marca de 90%. O que provocou mais descontentamento? Anos seguidos de trens superlotados nos horários de pico, a expansão em ritmo de tartaruga em uma cidade do tamanho de um mamute ou a superexposição na mídia dos erros de engenharia que provocaram um grande acidente em janeiro de 2007?

A pesquisa não diz. Mas, seja o que for, o atual índice de satisfação com o metrô (85%) ainda é duas vezes maior do que o dos ônibus municipais (42%). Os investimentos na renovação da frota realizados durante a gestão do prefeito Gilberto Kassab não conseguiram conter a crescente insatisfação dos usuários com o serviço. A porcentagem de ótimo/bom dos ônibus cai ano após ano, como mostra a tabela acima. O que significa que já passou da hora de introduzir melhorias estruturais no sistema (racionalização das linhas, melhor nível de conforto, mais segurança na viagem, etc.) É angustiante ter de constatar que justamente o meio de transporte que atende a maioria da população é o pior avaliado.

Os trens da CPTM e o serviço de ônibus intermunicipal agradam apenas a metade dos entrevistados. Em 2005, os principais motivos de queixa de quem viajava sobre os 270 km dos trilhos metropolitanos eram: “passageiros mal educados/abusados (69%), trem sempre lotado (66%), trem sujo e mal conservado (63%)”. Não é uma minoria que reclama das condições dos trens, mas um número bastante expressivo de seus usuários.

A pior avaliação do transporte público não sinaliza apenas que muito pode ser feito pelos meios coletivos. Em tempos de queda do desemprego e melhoria do nível de renda da populacao, esta má avaliação significa, mais cedo ou mais tarde, mais carros na rua. E, por conseqüência, mais congestionamentos, acidentes e poluição. De todo esse quadro, minha mágoa, minha aflição e, novamente, minhas desculpas.

Mas, para começar 2008 direito, vou pular sete ondinhas pensando em mobilidade urbana. O que desejo à nossa metrópole na virada do ano é o seguinte:

  1. Levar a sério o planejamento em transportes: participação da sociedade, embasamento de propostas com estudos confiáveis, cumprimento à risca dos planos pelo poder público
  2. Proteger a vida é o objetivo maior. Nas ruas, prioridade aos pedestres, aos ciclistas e aos usuários de transporte coletivo (nesta ordem, como manda o código de trânsito, aliás)
  3. Calçada esburacada é uma agressão à cidadania (e, principalmente, a idosos e portadores de deficiências físicas). Criar um mecanismo eficiente para a rápida adequação das calçadas da cidade.
  4. Melhorar o acesso à informação sobre mobilidade urbana, já que este é um dos mais graves problemas de São Paulo. Obrigar órgãos públicos, agências e empresas de transporte a publicar dados regularmente e prestar contas à população.
  5. Menor tolerância com os veículos mais poluidores: questão de saúde pública
  6. Linhas de ônibus mais racionais
  7. Implantação de projetos de transporte urbano/interurbano como catalisadores do desenvolvimento local

A lista poderia continuar, mas só são sete ondinhas, né? Um feliz 2008 a todos nós!


Em tempo: a mesma ANTP programou para 14 de fevereiro o evento “São Paulo combatendo o congestionamento: pedágio urbano e outras medidas”. Lamentavelmente, entrar no evento custa R$ 130, preço que faz da participação em um debate importante para nossa cidade praticamente um luxo. Estarão em pauta o nosso velho (e, ao mesmo tempo, pouco) conhecido rodízio de veículos, a viabilidade de introdução do pedágio urbano em São Paulo e experiências internacionais.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 10/01/2008, às 16:56





Nova rota, nova rotina

15 11 2007

Meu cotidiano mudou radicalmente. Não moro mais mais na megacidade, moro em um pequeno vilarejo. Pequeno mesmo: 105 habitantes, de acordo com os dados oficiais. Cercada de campos de batata, beterraba e cereais, a vila não tem supermercado, loja do correio, farmácia e nem escola (a que existia fechou há 35 anos). De manhã cedo, pelo menos três vezes por semana, pego o carro e dirijo uns sete quilômetros até uma cidadezinha de 7 mil habitantes. Lá tem mercado, escola primária, correio. No caminho quase sem curvas, passo por outros três povoados. Ao atravessá-los, dirijo a 50 quilômetros por hora, no máximo. Entre eles, longe de pessoas, vou a 100 km/h.

Em dez minutos estou na estação de trem. Também dá para fazer o caminho de bicicleta, já que o trajeto é bastante plano e ciclistas são realmente respeitados. Estaciono o carro facilmente junto à estação. Sobre os trilhos, passam trens com contêiners dos quatro cantos do mundo que desembarcaram no porto. E de hora em hora passa o trem regional que vai para a metrópole. O trem pintado de azul e amarelo, operado por uma companhia privada de transporte de passageiros, chega envolto em ar gelado.

Cada vagão tem dois andares cheios de assentos confortáveis — com certeza, mais confortáveis do que os dos aviões que despertaram angústia de nosso ministro. A plataforma da estação seguinte está cheia. Todo mundo vai entrar no trem, ocupar cada um dos assentos vazios e ainda vai sobrar gente para fazer a viagem de pé. Não há empurra-empurra e ninguém sobe no trem até que alguém esteja por desembarcar. No entanto, a partir do momento em que ninguém mais sai do trem, vigora o “cada um por si” e o “salve-se quem puder” acontece. É assim a plataforma da estação de uma cidade de 72 mil habitantes e de muitos trabalhadores atraídos pelas oportunidades de emprego que a metrópole oferece. Esta cidade não chega a ser uma cidade-dormitório. Nela há cinema, muitas escolas e até universidade.

Mais vinte minutos e chego à cidade grande. Agora, estou falando de uma aglomeração de mais de 1,7 milhão de pessoas. Shopping centers, muita gente de terno, migrantes, serviços especializados, salas de cinema com bom áudio, grande diversidade de comércio, movimento e congestionamento. Tudo cheira a metrópole. Colados à estação de trem intermunicipal ficam uma estação de trem urbano e um terminal de ônibus. Os coletivos da linha 142 passam de cinco em cinco minutos e um painel avisa quanto tempo falta para o próximo veículo chegar. Quando chega, ele se inclina para receber os passageiros, entre os quais há sempre idosos e algumas vezes carrinhos de bebês. Desembarco 13 minutos depois, ao ler no painel luminoso o nome do ponto mais próximo à universidade. Antes que o professor fale qualquer coisa, fico refletindo sobre as lições que aprendo ao longo do caminho.

Originalmente publicado no Planeta Sustentável em 15/11/2007, às 13:05